16/06/2026

Formação do rio Eufrates a partir de dois sistemas fluviais distintos

O Eufrates moldou a geologia da Ásia ocidental durante milhões de anos e, segundo com um novo estudo, este rio pode ter-se formado há 3,6 milhões de anos a partir de dois sistemas fluviais distintos.

Compreender a evolução deste curso de água, que se estende por cerca de 3000 quilómetros desde a Turquia até ao golfo Pérsico, é crucial para traçar o desenvolvimento subsequente das sociedades que floresceram nas suas planícies aluviais.

O Eufrates “originou-se de dois sistemas fluviais distintos que desaguaram brevemente numa bacia marinha, atravessaram quatro placas tectónicas, convergiram e finalmente desaguaram num golfo”. Especificamente, o estudo sugere que dois rios, o Paleo-Karasu e o Paleo-Murat, fluíam pelo que são hoje a Turquia e a Síria, desaguando numa bacia do mar Mediterrâneo que tinha secado parcialmente durante a crise de salinidade do Messiniano. A causa desta crise, que ocorreu entre há 5,97 e 5,33 milhões de anos, foi o encerramento da ligação entre o mar Mediterrâneo e o oceano Atlântico devido à atividade tectónica que fez com que o Paleo-Murat se deslocasse para sudeste, em direcção ao golfo Pérsico, e que o Paleo-Karasu se juntou algum tempo depois. Estes desvios acabaram por criar um único sistema fluvial que se tornou o actual rio Eufrates, que desagua no golfo Pérsico, levando potencialmente ao desenvolvimento do Crescente Fértil.

Mesmo no topo da imagem, lado a lado, o Paleo-Karasu (à esquerda) e o Paleo-Murat

18/06/2025

Hércules e Ônfale - obra de Artemisia Gentileschi

 Em Beirute, na parede do palácio de Sursock, estava uma pintura de grandes dimensões representando Hércules e Ônfale, rainha da Lídia, de quem o herói grego foi escravo, quando a 4 de agosto de 2020 uma explosão no porto da capital libanesa matou mais de 200 pessoas e deixou a tela seriamente danificada, coberta de estilhaços de madeira e vidro. Depois de ter sido submetida a um processo de restauro vários historiadores de arte concordam com a teoria do historiador da arte libanês Gregory Buchakjian, que acredita tratar-se de uma obra de Artemisia Gentileschi (1593-1656).


Hércules e Ônfale

27/06/2024

Dólmen de Santa Inês em Segóvia

A descoberta do túmulo do corredor de Santa Inês em Bernardos (Segóvia), a norte da serra de Guadarrama, abre novas expectativas sobre a distribuição espacial do megalitismo no planalto espanhol.
Mapa geral de localização. O ponto rodeado com um círculo assinala o dólmen de Santa Inês.


25/06/2024

O Complexo Arqueológico dos Perdigões

Na arquitetura monumental e cerimonial da Pré-História recente da Península Ibérica, a madeira tem sido considerada fundamentalmente como matéria-prima acessória à construção. O complexo arqueológico dos Perdigões, situado em Reguengos de Monsaraz, evidencia a presença de monumentos em madeira. São círculos concêntricos de postes e paliçadas de madeira, exclusivos da Península Ibérica, e que encontram os paralelos mais próximos no norte e centro da Europa. Têm sido publicados estudos sobre a importância que este tipo de arquitetura monumental poderá ter tido no contexto das trajetórias de complexidade social na segunda metade do IV e III milénio antes de Cristo.

Complexo arqueológico dos Perdigões, reconstituição National Geographic Portugal
Plano da secção norte do círculo de madeira.



24/06/2024

Retrato com a família do segundo Marquês de Pombal

Pintura em aguarela com a «Família do segundo Marquês de Pombal» foi adquirido pelo Estado. A autoria foi atribuída ao pintor francês Nicolas Louis Albert Delerive (1755-1818) e a data da sua realização será de c. 1792-1794. Os retratos de família neste período são raros. Neste caso temos uma cena de interior com interessantes pormenores iconográficos de uma casa aristocrática do final do século XVIII.

Hugo Miguell Crespo e Lourenço Correia de Matos investigaram e indicam todos os pormenores importantes para a datação, execução e identificação dos retratados.

https://vimeo.com/948778571

Pintura com a família do Marquês de Pombal de Nicolas Louis Albert Delerive, c. 1790
60,5cm x 47cm 

14/06/2024

O dia 10 de junho - dia de Camões

Esta data está identificada com a figura de Camões, que é o símbolo da nação desde o século XIX. Uma figura que emerge no contexto da mitologia nacional criada pelos românticos e que se transforma num símbolo da nação. Oliveira Martins afirmou que Camões é o epónimo de Portugal. Teófilo Braga, escreveu que se dissermos que somos portugueses no estrangeiro, ninguém nos identifica. Mas, se dissermos que somos da pátria de Camões, já nos identificam.

Nas comemorações do tricentenário da morte de Camões, em 1880, os republicanos e, nomeadamente, Teófilo Braga, que tinha importado as conceções positivistas de Auguste Comte para Portugal, entendia que era importante substituir os símbolos religiosos por laicos. Camões surge como um símbolo laico. Teófilo Braga foi o autor da ideia da comemoração do III centenário da morte de Camões, que cria as bases para que o 10 de Junho pudesse vir a ser feriado nacional. 

Os republicanos impuseram um modelo de celebrações importado da França e da Revolução Francesa, o que fez com que os monárquicos e a própria Corte tivessem hesitado no modelo das comemorações sem desconfiarem da figura de Camões. A ideia de que na época iria haver uma procissão cívica no 10 de Junho era uma apropriação de rituais religiosos que foram, desta forma, laicizados.

O regime republicano homenageou a data, tornando o dia feriado na capital. Ao longo dos anos, as comemorações do dia 10 de junho foram variando consoante as circunstâncias políticas. Em 1917, a data foi celebrada como Dia dos Aliados, porque a I Guerra Mundial mobilizava a atenção de todos. E em 1924, quando se celebrou o IV centenário do nascimento de Camões, o 10 de Junho foi a data escolhida. A imprensa da época utilizava a expressão «Festa da Raça» para as comemorações camonianas, e o sentido do termo «raça» era vago e identificava-se com o próprio povo português. A celebração durou seis dias e teve repercussão no estrangeiro, em especial em Espanha.



Pintura de Ticiano encontrada em Londres vai ser leiloada

Uma pintura executada pelo pintor veneziano Ticiano, «Descanso na fuga para o Egipto», datada de c. 1510, foi reencontrada em 2002 numa paragem de autocarro de Richmond, na área metropolitana de Londres, sem moldura, dentro de um vulgar saco de plástico. Esta obra tinha sido roubada do palácio dos marqueses de Bath em 1995. Charles Hill, o responsável da unidade de investigação de roubos de arte e antiguidades na Scotland Yard afirmou que o local onde recolheu a pintura foi indicado, a troco de uma recompensa de 100 mil libras. A obra voltou à coleção da família dos marqueses de Bath.

Pintada a óleo sobre um painel de madeira de 46,5 por 64 centímetros, esta representação de José, Maria e Jesus gozando um momento de repouso durante a sua fuga para o Egipto passara já por muitas mãos quando o quarto marquês de Bath, John Thynne, a adquiriu em 1878.

Agora vai ser leiloada pela Christie’s e é expectável que atinja o valor entre 17 a 30 milhões de euros.

Ticiano, Descanso na Fuga para o Egipto, c. 1510

05/12/2023

Descoberto um raro e importante tecto pintado do século XVI

No decorrer de trabalhos do metro, em Lisboa, num dos edifícios do velho quartel de bombeiros da Avenida D. Carlos I, foi retirado um tecto falso que permitiu descobrir um tecto de madeira pintada com mais de 450 anos, feito para o coro baixo do antigo Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade da Esperança à Boavista, então uma das casas religiosas mais importantes do país.

22/06/2023

Relógio de sol do período romano em Conímbriga

 Os relógios de sol foram extremamente importantes na antiguidade, no período romano estes foram objetos fundamentais nas viagens, pois serviam para calcular o ritmo de andamento, assim como o tempo das paragens para descanso. 𝐓𝐞𝐫á 𝐬𝐢𝐝𝐨 𝐚𝐭𝐫𝐚𝐯é𝐬 𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐪𝐮𝐢𝐬𝐭𝐚 𝐫𝐨𝐦𝐚𝐧𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐨 𝐫𝐞𝐥ó𝐠𝐢𝐨 𝐝𝐞 𝐬𝐨𝐥 𝐬𝐮𝐫𝐠𝐢𝐮 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥, apesar dos exemplares encontrados deste período serem raros, 𝐟𝐨𝐢 𝐞𝐧𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚𝐝𝐨 𝐮𝐦 𝐫𝐞𝐥ó𝐠𝐢𝐨 𝐝𝐨 𝐬𝐨𝐥 𝐟𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐞𝐦 𝐛𝐚𝐫𝐫𝐨 𝐞𝐦 𝐂𝐨𝐧𝐢𝐦𝐛𝐫𝐢𝐠𝐚, supõe-se que este seja uma imitação de um relógio de sol, é um disco plano em argila com diâmetro 230*225mm esp.40mm, dividido ao meio por uma linha horizontal, sendo o espaço superior marcado por duas séries de quatro arcos separados por uma linha horizontal e o inferior preenchido por um quadrante solar onde estão representadas as horas e o solstício de inverno. Terá sido ainda no período romano que se percebeu a forma mais fiável de medir o tempo com este tipo de relógio. No século II d.C., nas cidades lusitanas, já era de uso comum a utilização deste relógio para regular a vida e o trabalho da comunidade. Entretanto após a queda do Império Romano o tempo social volta a ficar desorganizado.

É possível ver a imitação do relógio de sol encontrado em Conimbriga no Museu Monográfico de Conimbriga – Museu Nacional na primeira sala de exposições no expositor “Pesos e Medidas” - (cat.19.32).

13/07/2022

Relicário em cobre dourado da abadia normanda de Fécamp

Um relicário em cobre dourado, dito do Preciosíssimo Sangue por alegadamente conservar algumas gotas do sangue de Cristo, que fora roubado na madrugada do passado dia 2 de junho de 2022, reapareceu nos Países Baixos, à porta de Arthur Brand. Com cerca de trinta centímetros de altura, o relicário propriamente dito foi fabricado no século XIX, mas as ampolas metálicas que conserva terão sido descobertas no final do século XII. Ou redescobertas, posto que a tradição sustenta que era já em torno da relíquia do Preciosíssimo Sangue que foi construído no local, em meados do século VII, um primeiro santuário, depois devastado durante as incursões viquingues do século IX. Segundo o Evangelho de João, Nicodemos teria auxiliado José de Arimateia a preparar o corpo de Jesus para o enterro, e terá sido ele, de acordo com uma lenda gnóstica, a recolher as gotas de sangue de Cristo numa relíquia de que teria sido também o guardião original. Já o seu transporte por mar até à costa da Normandia ter-se-ia ficado a dever a um filho de Arimateia, Isaac.

Relicário da abadia normanda de Fécamp

13/06/2022

Estudos geofísicos detetam um novo templo romano em Conimbriga

 Estudos geofísicos detetaram aquilo que deverá ser um novo templo romano em ruínas enterrado no campus arqueológico de Conimbriga. As imagens digitais resultantes da aplicação de equipamentos como um magnetómetro e um georadar permitiram identificar um desenho digital no subsolo semelhante às ruínas de um outro templo que existe no local, descoberto há algumas décadas através de escavações. A revelação foi feita ontem pelo diretor do Museu Monográfico de Conimbriga, Vítor Dias, durante uma sessão comemorativa dos 60 anos do museu. Entre a assistência estavam os especialistas Jorge Alarcão e Adília Alarcão. Ambos se mostraram muito entusiasmados com a revelação, obtida através de trabalhos de campo com a utilização de instrumentos de última geração que detetam, com cruzamento de dados, todo o tipo de infraestruturas subterrâneas, designadamente estruturas arqueológicas, tubagens e condutas. Será uma das mais importantes descobertas de Conimbriga nas últimas décadas, com as imagens a mostrar que há também diversas estruturas muralhadas e condutas no terreno a escavar, que se estende por cerca de 18 hectares do planalto rodeado pela Muralha Augustana, onde só 1/3 do total foi escavado até agora, à procura do que resta da conquista pelos romanos, provavelmente em 136 antes de Cristo. Vítor Dias admite que até ao final da próxima semana deverão ser obtidos mais dados que, a confirmar as descobertas, serão essenciais para completar a candidatura que está a ser preparada a fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Mosaicos de Conímbriga

31/05/2022

Escavações na necrópole de Saqqara revelam sarcófagos com múmias e outros objetos da civilização egípcia

Uma exposição de arqueologia egípcia exibiu 250 sarcófagos pintados com múmias preservadas no interior, algumas com mais de 2500 anos. Foram encontrados nas escavações no Cemitério dos Animais Sagrados, na necrópole de Saqqara, Cairo. Os artefactos incluem 150 estátuas de bronze de antigas divindades e vasos utilizados ​​em rituais de Ísis, deusa da fertilidade na mitologia egípcia antiga, que datam de 500 a.C.. O destaque é uma estátua de bronze sem cabeça de Imhotep, o arquiteto-chefe do faraó Djoser, que governou o Egipto entre os anos de 2630 a.C. e 2611 a.C.. Dentro de um dos caixões, os arqueólogos descobriram um rolo de papiro que acreditam conter capítulos do Livro dos Mortos, uma coleção de orações, feitiços, magia, hinos e lendas do Antigo Egipto. As peças vão poder ser vistas numa exposição permanente no novo Grande Museu Egípcio, um projeto ainda em construção perto das Pirâmides de Gizé. Saqqara faz parte de uma extensa necrópole na antiga capital do Egipto, Memphis, cujas ruínas foram designadas Património Mundial da Unesco na década de 1970. As Pirâmides de Gizé e as pirâmides menores de Abu Sir, Dahshur e Abu Ruwaysh são os monumentos que fazem parte da necrópole.

Trabalhador limpa os sarcófagos em Saqqara

A coleção consiste em 250 caixões pintados de madeira com múmias
Os sarcófagos estão datados de c. de 500 a.C.

Foram descobertas 150 estátuas de bronze de divindades egípcias antigas e vasos utilizados em rituais

Figuras egípcias como Bastet, Anubis, Osiris, Amunmeen, Isis, Nefertum e Hathor

Descoberto manuscrito original do Padre António Vieira

 Clavis Prophetarum (A Chave dos Profetas), manuscrito original da autoria do Padre António Vieira  que se considerava perdido, foi encontrado em 2020 nos arquivos da biblioteca da Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma. Sabia-se da existência da Clavis Prophetarum por via de várias cópias dispersas pelo mundo, e pelas referências à obra na correspondência de Vieira, mas desconhecia-se o paradeiro do manuscrito original há mais de trezentos anos. Uma anotação à margem do texto permitiu identificar o manuscrito como sendo o original, conclusão validada com exames laboratoriais ao tipo de papel, de tinta e de encadernação.

O manuscrito tem mais de 300 páginas e a edição desta obra é da responsabilidade dos investigadores Ana Travassos Valdez, especialista em História Moderna da Europa, e Arnaldo do Espírito Santo, que coordenou a edição crítica dos Sermões e do Livro III da Clavis Prophetarum. Deverá, ainda sem data anunciada, ser publicada numa edição crítica em português e inglês, em três volumes, correspondendo à divisão original feita pelo seu autor.

Trata-se de uma obra que pertence à série dos escritos proféticos e escatológicos de Vieira e era considerada pelo próprio jesuíta a sua obra mais importante. A Clavis Prophetarum poderá ser lida como uma superação de outros textos em que Vieira expusera a sua visão milenarista, como a carta Esperanças de Portugal, enviada ao também jesuíta André Fernandes em 1659, na qual o padre propõe a sua interpretação das trovas de Bandarra, vendo nelas o anúncio do Quinto Império, ou ainda a obra póstuma inacabada História do FuturoA Chave dos Profetas é, em suma, um tratado teológico-político, cujo argumento profético é a consumação futura do reino de Cristo na Terra.

Padre António Vieira (pintura a óleo da Casa de Cadaval)

29/05/2022

Fórum romano de Pax Iulia

A Câmara de Beja vai investir 1,3 milhões de euros para valorizar e tornar visitável o fórum romano da cidade, composto por vários vestígios arqueológicos. Este núcleo arqueológico está situado num logradouro entre a Praça da República e as ruas Abel Viana, da Moeda e dos Escudeiros, e composto por vários vestígios, com destaque para dois templos romanos. Um dos templos, dedicado ao culto imperial, terá sido construído na época do imperador Tibério, de 14 a 37 do século I d.C., e é o maior descoberto em Portugal e um dos maiores da Península Ibérica. O outro é o primeiro templo do fórum de Beja correspondente à fundação romana e datado do início do último quartel do século I a.C., no tempo do primeiro imperador romano, Augusto. A obra vai incluir também a construção de uma infraestrutura para permitir a visita ao núcleo, com uma arquitetura minimalista e que não se sobrepõe à importância dos achados arqueológicos.

Vestígios arqueológicos do fórum de Pax Iulia

 

A Sé de Idanha-a-Velha

Igaedis no período romano e Egitânia no período suevo. Importante urbe durante a ocupação romana da Península Ibérica e sede de bispado no período suevo e visigótico até à ocupação muçulmana. Em 1199 a sede episcopal só foi transferida para a Guarda. Território entregue à Ordem dos Templários e, extinta esta no reinado de D. Dinis, transitou para a Ordem de Cristo. A riqueza do seu património arqueológico explica-se pela sobreposição de ocupações. Os trabalhos arqueológicos do século XX concentraram-se na Catedral, no Lagar de Varas, no Museu Epigráfico e nas ruínas do Paço dos Bispos, fornecendo um caudal volumoso de informação. Trabalhos arqueológicos permitiram recuar a história local e encontrar os mais antigos baptistérios conhecidos em Portugal: uma das piscinas bap
tismais terá mesmo sido utilizada no século IV, o que a transformou num dos vestígios mais recuados do cristianismo no território que atualmente é Portugal.

O edifício religioso que define Idanha-a-Velha alimentou controvérsias. Dom Fernando de Almeida não teve dúvidas em ver na Sé um monumento dos primeiros cristãos, mas, no final do século XX, foi proposto que o edifício terá sido, ao invés, uma mesquita, do final do século IX, local de culto de Ibn Marwan, um rebelde contra o poder de Córdova. Na verdade, a Sé é um dos mais enigmáticos monumentos da Alta Idade Média portuguesa. A maior parte do monumento atual corresponde ao registo quinhentista e uma inscrição com o ano 1593 valida essa datação. No século XIX, perdeu a função de culto e foi transformada em cemitério. Já nas ruínas do Paço dos Bispos não há certeza sobre a antiguidade das camadas que circundam a Sé. Dom Fernando de Almeida sugeriu que seriam do Paço Episcopal Visigótico, mas o mais certo é serem de simples habitações de época posterior, embora ainda medieval.

A descoberta, em 2018, de uma porta na muralha de acesso à cidade, de origem romana, mantém vivo o debate sobre as origens de Idanha-a-Velha

A Sé de Idanha-a-Velha: de planta retangular com dois eixos ortogonais

Restauro dos Painéis de S. Vicente

No início de 2022 os Painéis de S. Vicente podem ser vistos sem a camada de verniz que lhe confere o brilho. O verniz tem uma função de película protetora que impede a sujidade de se colar à tinta e ajuda a fixar e evidenciar as cores. A passagem do tempo pode escurecer esse verniz.

As camadas de verniz que ao longo de séculos foram sendo aplicadas com o objetivo de proteger a pintura e de facilitar a sua leitura estão agora a ser estudadas a partir de microamostras e os resultados vão dizer aos técnicos, entre muitas outras coisas, qual é o sistema de limpeza mais adequado para as retirar, que solventes ou misturas de solventes terão de ser usados.

Os técnicos esperam vir a conseguir remover praticamente todas as camadas de verniz que hoje escurecem os Painéis, mas não é certo que o consigam. O que está agora em curso faz parte de uma espécie de linhagem, de um esforço de séculos para proteger esta pintura e garantir que ela continuará a intrigar quem a vir por muitas gerações.

Intervenção no Painel da Relíquia

21/11/2021

João Cândido e a revolta da chibata no Brasil

João Cândido (1880-1969), marinheiro negro, liderou a revolta, conhecida como revolta da chibata, que teve o seu início em 22 de novembro de 1910, contra a permanência dos maus tratos, baixos salários e deploráveis condições de trabalho na estrutura militar brasileira. Este ano é o protagonista da Bienal de São Paulo e existe a proposta do Senado para que seja inscrito no livro dos heróis e heroínas do povo brasileiro.

Como consequência de liderar este motim foi encarcerado e, durante esse período, bordava durante horas. Os seus trabalhos estão expostos na Bienal de S. Paulo e denunciam a brutalidade da reação das hierarquias militares e políticas. Existia na marinha a tradição de bordar, pois era necessário remendar a roupa ou as velas durante a navegação.

João Cândido esteve quinze anos alistado na marinha que mantinha tradições que permaneciam do contexto esclavagista, nomeadamente, no tratamento a que estavam sujeitos os antigos escravos e os seus descendentes. A consciência da injustiça ficou mais evidente com o contacto com a realidade europeia, observando o modo de funcionamento de outras armadas no que respeita aos direitos dos marinheiros.

Em 22 de novembro de 1910, os navios de guerra São Paulo e Minas Gerais, comprados no Reino Unido, e dois outros navios (o Deodoro e o Bahia), foram apreendidos por 3000 marinheiros que exigiam aumentos salariais, melhor alimentação e condições de trabalho e o fim dos castigos físicos. Nesta revolta morreram vários oficiais e a cidade do Rio de Janeiro foi bombardeada. No dia 26 de novembro o governo do Marechal Hermes da Fonseca (1855-1923) cedeu às reivindicações dos revoltosos, terminando com a revolta da chibata. Os amotinados beneficiaram de uma amnistia, sendo, posteriormente, expulsos da marinha. João Cândido e cerca de duas dezenas de marinheiros, considerados cabeças de motim, foram encarcerados no presídio da Baía da Guanabara, tendo ele sido dos poucos que sobreviveu às péssimas condições da prisão.

Este marinheiro negro e analfabeto, que também ficou conhecido como o Almirante negro, no Brasil do início do século XX, tinha-se revelado um líder carismático e respeitado pelos seus pares. Liderou uma insubordinação militar tendo por objetivo reivindicações laborais, numa época em que não existiam sindicatos ou o direito à greve, enfrentando as hierarquias militares e políticas que ainda utilizavam a violência como principal instrumento opressor. Desta revolta resultou o fim dos castigos corporais nas estruturas militares, realidade que não se coadunava com uma república moderna. Foi deste modo que João Cândido se tornou no símbolo do movimento pelos direitos laborais e uma memória na luta contra os resquícios de práticas que prolongavam hábitos do período esclavagista.

Apesar de ter desembarcado vitorioso há 111 anos, foi sujeito a uma pena de prisão e, após a sua libertação, a um ostracismo social, vivendo da pesca e da solidariedade de outros marinheiros. Apesar de ter aderido em 1932 à Ação Integralista Brasileira, movimento nacionalista que apoiava soluções políticas ditatoriais, a sua memória foi resgatada com a presidência de Lula da Silva. Foi erigida uma estátua na praça XV do Rio de Janeiro, um local que foi mercado de escravos e onde se situa o palácio em que a princesa Isabel (1846-1921) assinou a lei áurea. Se a proposta do Senado for aprovada João Cândido integrará o panteão dos heróis brasileiros.

Marinheiros rebeldes na coberta do navio de guerra «São Paulo» com uma bandeira em que se pode ler «Viva a Liberdade»

Fim da revolta anunciado na primeira página do diário carioca Correio da Manhã (28/11/1910)
O lenço bordado «Amor», que João Cândido coseu na prisão e que está exposto na bienal de São Paulo (2021)

18/11/2021

Fotografias dos vestígios arqueológicos de Collippo

Fotografias dos vestígios da antiga cidade romana de Collippo que se localizava  no monte de São Sebastião do Freixo, nos limites do concelho de Leiria e Batalha.

Na década de 60 do século passada estes vestígios foram muito afetados durante a plantação de vinha e, atualmente, os seus limites são  desconhecidos. Durante séculos as pedras da antiga cidade foram reutilizadas para a construção de outras estruturas como o Castelo de Leiria.

O sítio teve assento um antigo povoado da Idade do Ferro, sucedendo-lhe a cidade romana de Collipo, referida por Plínio, o Velho, (Estabias, 23- Nápoles, 79 d.C.) na sua Naturalis Historia (História Natural, capítulo 35, Lusitânia) [c. 77-79 d.C.].

«A Durio Lusitania incipit: Turduli veteres, Pæsuri, flumen Vagia, oppidum Talabrica, oppidum et flumen Aeminium, oppida Conimbrica, Collipo, Eburobritium [...]» 

A fundação da cidade, com uma posição dominante sobre os vales férteis dos principais rios da região: o Lena e o Lis, remonta provavelmente ao século IV a.C.. Em meados dos século passado, foi descoberto um mosaico a preto e branco com a figuração do hipocampo (criatura mitológica partilhada pela mitologia fenícia e grega. Tem tipicamente sido descrito como cavalo na parte anterior do seu corpo e peixe na parte posterior com a cauda escamoso, como um cavalo-marinho). As sucessivas intervenções de emergência no local permitiram identificar a existência de um forno, de uma inscrição funerária, de estátuas em mármore e de estruturas habitacionais. Em época indeterminada, na Idade Média, edificou-se uma Igreja.
Fotografias dos vestígios arqueológicos de Collipo

05/11/2021

Escavações arqueológicas próximas do castelo de Leiria

Um troço de calçada romana, um silo com peças dos séculos IX a XII, muros e fundos de cabanas da Idade do Ferro e uma moeda islâmica em ouro, são alguns dos muitos vestígios arqueológicos postos a descoberto pelas obras em curso no largo de São Pedro (Leiria).

O conjunto de vestígios detetados atravessam várias épocas, desde a pré-história (Idades do Ferro e do Bronze), passando pelos períodos romano e medieval.

Das épocas mais recuadas, destaque para a descoberta de fossas de finais da Idade do Ferro,  junto ao arco de entrada no largo de São Pedro, bem como muros, fundo de cabanas com estruturas em pedras, buracos em poste e barro, indicativas de uma forte ocupação do local nesse período. As escavações permitiram exumar materiais líticos, fauna e cerâmicas , incluindo fragmentos de importação, datados da Idade do Ferro. Do período romano, está já identificado um troço de calçada com caneiro, relacionado com esse achado, existem vários alinhamentos de muros de habitações. Do mundo islâmico, apenas foi exumada uma moeda em ouro – um dinar almorávida do ano 1122 –, um fragmento cerâmico com pintura a branco e dois fragmentos de azulejo hispano-árabe em corda seca. A falta de material islâmico vem corroborar a teoria de que Leiria tem muito mais ligações ao mundo cristão do norte do que ao mundo islâmico do sul neste período da idade média. No decorrer dos trabalhos foi também possível intervencionar vários espaços e estruturas da época medieval, entre as quais um silo em forma de saco com cerca de dois metros de profundidade, com várias peças com formas entre os séculos IX e XII. Ainda da Idade Média, as escavações puseram a descoberto um troço de muralha dessa época sob o arco da torre sineira, níveis de ocupação com fornos e níveis de combustão ligados a pequenas forjas.

Foram identificados mais de 80 esqueletos nas ossadas da necrópole associada à Igreja de São Pedro, sendo que dois indivíduos não são «europeus». Os enterramentos mais recentes são, na sua maioria, em covacho (pequena cova) sem qualquer tipo de delimitação de sepultura, enquanto nos mais antigas há sepulturas escavadas em sedimento argiloso com algumas peles a delimitá-las. Do espólio funerário, os arqueólogos destacam ainda a descoberta de contas de terço e alguns numismas [moedas cunhadas].

A escavação ainda está a decorrer, assim como o estudo dos materiais exumados e das estruturas identificadas.

Escavações a decorre no Largo de S. Pedro, junto ao castelo de Leiria

28/10/2021

Uma nova espécie humana ancestral - o Homo bodoensis

Foi anunciada uma nova espécie ancestral de humanos, o Homo bodoensis, que pode ser determinante para o conhecimento da evolução humana há cerca de meio milhão de anos. O Homo bodoensis viveu em África durante o período do Pleistoceno Médio, há cerca de meio milhão de anos, e pode ser considerado um antepassado direto dos humanos modernos. No Pleistoceno Médio surgiu o homo sapiens em África (tendo chegado à Europa há cerca de 45 mil anos) e do homo neanderthalensis na Europa. No entanto, o capítulo da evolução humana nesta época é ainda mal compreendido, um problema que os paleoantropólogos chamam de «confusão do meio», considerando que o anúncio do Homo bodoensis pode agora ajudar a clarificar. A nova designação é baseada numa reavaliação dos fósseis desse período descobertos em África e na Eurásia. O nome bodoensis deriva de um crânio encontrado em Bodo D'ar, na Etiópia, e deverá ser aplicada aos humanos do Pleistoceno Médio de África e a alguns do sudeste da Europa, enquanto muitos do continente europeu serão reclassificados como Neandertais.

Homo bodoensis viveu em África durante o período do Pleistoceno Médio, há cerca 500 mil anos.