14/03/2016

Descoberta a nau Esmeralda que fazia parte da armada da segunda viagem à Índia liderada por Vasco da Gama

O Ministério do Património e da Cultura de Omã e a Blue Water Recoveries, empresa britânica que trabalha na recuperação de embarcações naufragadas, anunciaram ter descoberto ao largo de uma das ilhas do sultanato, Al Hallaniyah, uma nau da segunda armada de Vasco da Gama, que partiu de Lisboa em 1502. A notícia informa que os investigadores envolvidos no projecto acreditam que se trata da nau Esmeralda, comandada por Vicente Sodré, tio materno de Vasco da Gama, o grande navegador da Rota do Cabo. O ministério omanense e a empresa britânica de salvados garantem que “este é o mais antigo navio da idade europeia das descobertas a ser encontrado e estudado cientificamente por uma equipa de arqueólogos e de outros especialistas”.
A nau naufragada, que não terá resistido a uma tempestade em Maio de 1503, foi localizada em 1998, precisamente o ano em que se festejava o quinto centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia passando pelo Cabo da Boa Esperança, mas só em 2013 começou a primeira campanha arqueológica, a que se seguiram mais duas, em 2014 e 2015. Omã e a Blue Water Recoveries (BWR) garantem, ainda no comunicado, que já resgataram 2800 artefactos.
Entre os objectos retirados dos destroços, na sua maioria armas, balas de ferro e de pedra e outras peças de artilharia, estão quatro que, de acordo com a equipa, ajudaram a identificar a nau: um disco de bronze com as armas de Portugal e a esfera armilar, iconografia ligada ao rei D. Manuel I, o monarca de quem Vasco da Gama recebe ordens; um sino de bronze com uma inscrição que sugere que a embarcação foi terminada em 1498; um cruzado de ouro cunhado em Lisboa entre 1495 e 1501; e um “índio”, moeda em prata “extraordinariamente rara (só se conhece outro exemplar no mundo)” e mandada fazer pelo monarca “especificamente para o comércio com a Índia”.
Dois académicos que têm dedicado boa parte dos seus estudos aos Descobrimentos, são bastante mais cautelosos em relação à idade e ao nome da embarcação. Ressalvando que não tiveram acesso a qualquer documentação científica sobre os trabalhos, Francisco Contente Domingues e Luís Adão da Fonseca defendem que é preciso estudar muitíssimo bem o espólio recuperado e cruzá-lo com documentação escrita relevante para tirar conclusões tão definitivas quanto possível. Os objectos não bastam. "Estas embarcações não se afundavam com uma chapinha com o nome lá escrito”, diz o primeiro, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. “Há uma margem de imponderabilidade imensa. Isto não significa que eu diga, à partida, que não é a Esmeralda, pode ser, mas é preciso que haja documentação a corroborá-lo, o que passados 500 anos não é fácil de encontrar.” Luís Adão da Fonseca, professor da Universidade do Porto, sublinha, de igual modo, a importância das fontes escritas, embora não lhe custe acreditar que a nau localizada é a Esmeralda. É que, explica, os historiadores têm hoje informação que lhes permite pensar que, ao regressar a Lisboa da segunda viagem, Vasco da Gama deixa ao seu tio Vicente – o outro tio materno do navegador, Brás, comandava também uma das naus da frota, a São Pedro – a tarefa de patrulhar aquelas águas no sul da Península Arábica. “Não temos uma carta com as instruções do Gama para o Vicente Sodré mas sabemos que, naquela altura, eles tinham já identificado o grande entrave ao projecto português – o facto de as comunicações no Índico estarem controladas pelos muçulmanos. A nau de Vicente Sodré fica para impedir que os muçulmanos dominem e actua quase como uma embarcação de corsários, que tinham uma actividade de alto risco – quando ganhavam, ganhavam muito, quando perdiam, às vezes perdiam tudo. E aqui, claramente, a coisa correu mal.” É preciso ver ainda, acrescenta o professor da Universidade do Porto, que esta segunda armada de Vasco da Gama “é muito mais complexa do que a primeira, que era de descoberta. Esta tem objectivos políticos, estratégicos. E é para ajudar a organizar a presença portuguesa no Oriente que Vicente Sodré fica”. Os dois académicos esperam agora os relatórios científicos. “Não quer dizer que a investigação nos faça saber mais, mas pode fazer-nos saber melhor. Não precisa de trazer novidades para ser relevante, basta que traga mais matizes ao que já conhecemos, que permita fundamentar teorias”, argumenta Adão da Fonseca, destacando entre os artefactos resgatados a moeda de prata, o “índio”, que D. Manuel I manda cunhar para festejar o regresso de Vasco da Gama da viagem inaugural. “Esta moeda é um instrumento de propaganda do poder de um rei que até acrescenta títulos ao seu nome depois de 1498 [passa a ser Senhor da Conquista, da Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia]”. Contente Domingues insiste: “É preciso esperar pelos estudos mais aprofundados para perceber até que ponto é relevante, embora qualquer embarcação dos séculos XV/XVI naquelas águas seja à partida interessante”.
O relatório preliminar da investigação deverá sair na publicação especializada The International Journal of Nautical Archaeology, com a assinatura de David L. Mearns, David Parham, da Universidade de Bournemouth (Reino Unido), e Bruno Frohlich, do Museu de História Natural da Smithsonian Institution (Estados Unidos). É feito com base no trabalho desenvolvido por uma equipa internacional que integra investigadores do Instituto de Arqueologia e Paleociências da Universidade Nova e do Museu Geológico do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG). Uma dessas técnicas, Tânia Casimiro estudou as cerâmicas mas esteve incontactável. Miguel Magalhães Ramalho, director do museu do LNEG, e a colega Luísa Duarte estudaram duas balas a pedido da BWR. O objectivo era determinar a origem da pedra de que eram feitas, explica Magalhães Ramalho: “A primeira, que a Luísa estudou, é de rocha escura, magmática, provavelmente da região de Abrantes. A que eu estudei, e que levanta mais dúvidas, é de calcário que terá saído de uma das pedreiras dos arredores de Lisboa.” Em ambos os casos a origem dos materiais aponta para Portugal, defende.
Vasco da Gama navegador
Vasco da Gama

05/03/2016

O Livro de Cozinha de Apício. Livro de receitas do império romano

Um livro de receitas cuja recolha inicial é atribuída a uma personagem lendária com uma identidade envolta em controvérsia: supostamente um romano de nome M. Gauius Apicius, nascido em 25 a.C. É a mais recente edição da obra De Re coquinaria, agora apresentada como O Livro de Cozinha de Apício - um breviário do gosto imperial, apresenta o retrato de uma civilização através da mesa. Apício é o criador de receitas de molhos a que corresponde o corpus inicial do livro. Tudo indica que teria sido um dos impulsionadores da censura culinarum, uma moda apostada em estabelecer critérios de qualidade para os produtos alimentares e aconselhar sobre as formas mais adequadas para cozinhá-los, que se intensificava no século I a.C.. Apício ter-se-ia rodeado por uma corte de jovens aristocratas, a quem industriava na arte de cozinhar, ócio que se afigurava prejudicial aos olhos de Séneca. Segundo a lenda, seria muito inventivo na cozinha e empenhava-se em criar iguarias exóticas como línguas de flamingo, rouxinol ou pavão, cristas de aves vivas ou calcanhares de camelos (embora nenhuma delas conste neste livro). É possível também que tenha sido o inventor de uma primeira versão de foie gras, pois engordava gansas com figos secos para lhes aproveitar os fígados. Mas, exotismos à parte, os romanos, pelo menos no início, eram um povo frugal, cuja alimentação se baseava nas papas, antepassadas do pão, feitas com grãos torrados e humedecidos e depois com farinha de trigo, e que eram cozidas em água e sal ou leite, por vezes melhoradas com leguminosas, sobretudo favas ou lentilhas ou hortaliças. O peixe era comido nas áreas costeiras. O consumo de sal era elevado e, mais tarde, o de condimentos e temperos também. A alimentação dos romanos só ganha sofisticação com o contacto com o mundo helénico depois da conquista do Mediterâneo Oriental. Na época imperial (27 a.C.) tudo converge para que Roma atinja o seu apogeu na arte da culinária. Na forma de estar à mesa, termina a tradição de atirar comida para o chão para a oferecer aos defuntos, passando-se a desenhá-la nos mosaicos, numa oferenda simbólica. Apesar do grande número de receitas apresentadas, em 90% delas está presente o molho de peixe fermentado, liquamen ou garum — o que parece indicar que mesmo pratos diferentes poderiam ter sabor semelhante. Peguemos então em algumas receitas mais surpreendentes do livro de Apício. Por exemplo, o poético vinho de rosas — os vinhos condimentados são uma das influências da sofisticação helénica. Diz-nos o autor para, “depois de extrair a unha branca”, enfiarmos “pétalas de rosas num fio, de modo a formar coroas” e mergulharmos o maior número possível, para estarem em vinho durante sete dias. Na “cozinha apiciana” os vinhos são quase sempre doces e de sabor forte. O vinho puro, amargo (sempre branco e geralmente cortado com água), raramente era usado como condimento. Recorria-se sobretudo ao mosto cozido, reduzido pela fervura e aos vinhos aromatizados com mel, frutas ou rosas. Apício recomenda que se “use rosas sem humidade do orvalho”. O livro ensina-nos ainda a preparar vinho branco a partir do tinto, a usar azeite da Hispânia fazendo-o passar por azeite da Libúrnia ou a conservar a carne sempre fresca sem a salgar. Mas vejamos mais duas receitas exóticas. Para o molho de flamingo, deve-se começar assim: “Depene, lave e prepare um flamingo, ponha-o numa panela, junte água sal e aneto e um pouco de vinagre”. O prato leva ainda, entre outras coisas, mosto cozido e tamâras de Cárias. E para quem tiver curiosidade sobre uma iguaria chamada “vulvas de porcas estéreis”, aqui fica a explicação: uma das partes da porca a que os romanos davam mais valor era a vulva, também entre nós regionalmente conhecida como ‘barrigueira’. Por porca estéril entenda-se virgem, a que não está em idade de cobrição, ou então castrada. Neste caso, punha-se o animal alguns dias de jejum e suspendia-se pelas patas dianteiras para lhe cortar a matriz ou fazer incisões na vulva que, ao cicatrizar, obstruía a entrada da vagina. Por muito distante que nos pareça esta culinária é imprescindível para compreendermos o que era a cozinha medieval na Península Ibérica. E, se as receitas nos chegam sem quantidades e algumas incompletas, a verdade é que já não somos os destinatários daqueles enunciados. Assim, a esta distância, resta-nos deduzir das palavras o paladar de uma civilização.
mosaico romano alimentação
Mosaico romano

29/02/2016

Clavis Bibliothecarum

Clavis Bibliothecarum - a chave das bibliotecas - pretende ser uma chave para entrar no mundo imenso das antigas bibliotecas de mosteiros, conventos e outras instituições religiosas de Portugal.
Resultado de um vasto trabalho de investigação, desenvolvido por Luana Giurgevich e Henrique Leitão entre os diversos fundos monásticos nacionais, constitui o mais completo levantamento de catálogos e inventários de bibliotecas de instituições religiosas. Abrangendo um amplo arco cronológico, entre os séculos X e XIX, recolhe e descreve meticulosamente cerca de um milhar de listas de livros e várias centenas de documentos inéditos, referentes ao funcionamento e vida das antigas livrarias eclesiásticas.
Para além da incontornável informação sobre as bibliotecas elencadas (estrutura, organização, espaços, colecções e possuidores), a obra reveste-se também de particular relevância para o conhecimento de outras áreas, nomeadamente, nos domínios da história do livro, da leitura, da cultura, da arte e das ideias. Instrumento de trabalho útil e eficaz, pretende abrir novos horizontes de investigação, até agora desconhecidos e inexplorados.
Catálogos e inventários de bibliotecas de instituições religiosas
Clavis Bibliothecarum

26/02/2016

O Filho de Saul. Um filme sobre o holocausto

O Filho de Saul, a primeira longa-metragem do realizador húngaro e judeu László Nemes, passa-se em Outubro de 1944 e mostra a história dos prisioneiros, essencialmente judeus, que eram destinados à sádica tarefa de “processar” os recém-chegados aos campos de extermínio: os Sonderkommando. Ficavam encarregados de dirigir as vítimas inocentes para as câmaras de gás, retirar-lhes rapidamente os objectos de valor e remover todas as provas materiais da sua morte antes de reduzirem os cadáveres a cinzas nos crematórios. O destino de cada Sonderkommando tinha um limite temporal de apenas alguns meses, até os nazis o executarem, de forma a eliminar as testemunhas das suas atrocidades. Uma nova remessa de escravos era rapidamente trazida para substituir a anterior equipa.
No filme de Nemes, um elemento de um Sonderkommando de nome Saul deseja enterrar com as devidas honras cerimoniais uma criança que pensa ter identificado como sendo o seu próprio filho. No meio de toda aquela loucura, como conseguirá ele manter a sua dignidade, a dignidade do seu filho, e de todos os outros que estão a ser assassinados? Pela cacofonia de alemão, húngaro e iídiche do campo, a câmara segue apenas a perspectiva de Saul, o resto pouco é focado. Nada é explicado, sugerindo o verdadeiro caos da situação do extermínio. Mas gradualmente o Sonderkommando começa a planear o que virá a revelar-se como uma fugaz revolta.
László Nemes já tinha lido sobre os chamados Rolos de Auschwitz, escritos pelos membros dos Sonderkommandos, esses prisioneiros que estavam isolados dos restantes e eram forçados a trabalhar nos crematórios e a apagar os vestígios do extermínio. Essas pessoas enquanto estavam presas observaram e tiraram notas das suas vidas do dia-a-dia e escreveram aquilo que era suposto ser um testemunho, não apenas da sua existência mas também, e ainda mais importante, do extermínio. Estas notas foram enterradas no chão e algumas delas foram encontradas após o fim da guerra. A memória do Holocausto é algo com que tem vivido desde a infância, e subitamente descobriu uma forma de expressar essa memória, fazendo um filme sobre isso.
O consultor histórico calculou que, de um total de 430 mil judeus húngaros que foram deportados em oito semanas, cem mil eram crianças de menos de 18 anos que foram enviadas para as câmaras de gás. E essas crianças nunca tiveram um funeral. É uma ferida em aberto, e consegue-se senti-la.
filme de Nemes
O Filho de Saul mostra a história dos prisioneiros, essencialmente judeus, que eram destinados à sádica tarefa de “processar” os recém-chegados aos campos de extermínio

03/02/2016

Visão História - República. Os 18 presidentes

Este número da VISÃO História descreve e analisa os mandatos de todos os Chefes de Estado republicanos. Com uma particularidade relevante: inclui textos, escritos expressamente, da autoria de um ex-Presidente (Jorge Sampaio evoca Teixeira Gomes), do atual presidente da Assembleia República (Ferro Rodrigues escreve sobre Sampaio), de destacados políticos (como Mota Amaral, ex-presidente da Assembleia da República, que lembra Manuel de Arriaga, ou Manuela Ferreira Leite, que pinta Cavaco Silva, ou, ainda, Ana Gomes, que recorda a ligação de Sampaio a Timor-Leste), ex-políticos (Diogo Freitas do Amaral, candidato às presidenciais de 1986, toma por tema Mário Soares) e militares de Abril (Otelo Saraiva de Carvalho faz o retrato de Spínola e Vasco Lourenço o de Costa Gomes). O constitucionalista Jorge Miranda, por seu lado, analisa a atuação de Ramalho Eanes.
Sumário
O PODER DOS PRESIDENTES
POR ANTÓNIO ARAÚJO
Desde a I República até ao atual regime democrático, passando pela ditadura, diferentes foram os atributos do Chefe de Estado e a forma de este exercer a sua magistratura
OS ANTECEDENTES DA REPÚBLICA
POR LUÍS ALMEIDA MARTINS
Quando o Ultimato catapultou a República para a vitória, a ideia já tinha percorrido cem anos
MANUEL DE ARRIAGA, UM IDEALISTA NA TORMENTA
POR JOÃO BOSCO MOTA AMARAL, EX-PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
A história do primeiro Presidente da República portuguesa sintetiza as atribulações com que o novo regime e o próprio País se deparou e se depara
TEÓFILO BRAGA, O RADICAL
POR RUI RAMOS
Homem de confiança de Afonso Costa, foi este o único dos dirigentes republicanos que não atacou
BERNARDINO MACHADO, O HOMEM DE TODOS OS RECORDES
POR FILIPE LUÍS
Foi o único a receber uma declaração de guerra, o único deposto por duas revoluções, o único exliado duas vezes e o único nascido no estrangeiro. Além disso, teve 18 filhos. É um Presidente para o Guinness
A VISITA DO FRONT
POR PEDRO VIEIRA
Quando foi à frente da I Guerra Mundial, Bernardino Machado foi insultado por um soldado
SIDÓNIO PAIS, O PRESIDENTE-REI
POR LUÍS ALMEIDA MARTINS
Assim lhe chamou Fernando Pessoa, quando em Portugal jã não havia reis e os presidentes não tinham glamour. A brevidade do seu duvidoso «reinado» concedeu-lhe uma espécie de perdão histórico
CANTO E CASTRO, O PARADOXO DE BELÉM
POR LUÍS ALMEIDA MARTINS
O Presidente da República pode ser monárquico? Sim, pode... Eis o exemplo acabado desse contrassenso
ANTÓNIO JOSÉ DE ALMEIDA, O GRANDE ORADOR
POR ANTÓNIO VENTURA
Tribuno que inflamava as audiências, granjeou prestígio mesmo em setores republicanos que apoiaram inicialmente a ditadura, o que explica que um monumento lhe tenha sido erguido já na década de 1930
MANUEL TEIXEIRA GOMES, IDEAIS SEMPRE VÁLIDOS
POR JORGE SAMPAIO
O Presidente cosmopolita e amante da paz visto pelo seu sucessor que lhe prestou homenagem há dez anos, na Argélia
MENDES CABEÇADAS E GOMES DA COSTA, UM PODER EFÉMERO
POR JOSÉ TAVARES CASTILHO
A Revolução Nacional durante décadas evocada pelo Estado Novo foi tudo menos um movimento homogéneo
ÓSCAR CARMONA, BENÉVOLO PARA COM SALAZAR
POR RICARDO SILVA
Foi este militar quem abriu caminho ao ditador e lhe cqaucionou a longa estadia de décadas na chefia do Governo
A PRIMEIRA VIAGEM ÀS COLÓNIAS
POR LUÍS PEDRO CABRAL
Carmona foi o primeiro Chefe de Estado a visitar oficialmente o Ultramar, em 1938
O ‘EFEITO DELGADO’
POR RITA ALMEIDA CARVALHO
Em 1959, o Presidente deixou de ser eleito por sufrágio direto. Ao colégio eleitoral de 1959 seguir-se-ia, em 1976, o sufrágio universal
CRAVEIRO LOPES, INCÓMODO PARA O REGIME
POR VÂNIA MAIA
Ocupou a Presidência num período político delicado e seria o prenúncio do furacão que estava para vir. Acabou perseguido pela PIDE
OS PRESIDENTES DE SALAZAR
POR ANTÓNIO COSTA PINTO
O modelo de relacionamento entre a Presidência da República e a presidência do Conselho foi uma questão sempre em aberto ao longo da vigência da ditadura
ISABEL II, A RAINHA DE TODAS AS VISITAS
POR VÂNIA MAIA
O desembarque de Isabel II no Cais das Colunas assinalava o início de uma viagem triunfal. Mas o sucesso da visita não seria suficiente para travar o mundo em mudança - ou assegurar Craveiro Lopes em Belém
AMÉRICO TOMÁS, GUARDIÃO DO SALAZARISMO
POR SUSANA MARTINS
Para muitos portugueses, ele é ainda o símbolo do Presidente «corta-fitas», mas a sua atuação política foi mais do que meramente decorativa
ANTÓNIO DE SPÍNOLA, O GENERAL E O PRINCÍPIO DE PETER
POR OTELO SARAIVA DE CARVALHO
Demitiu-se ao fim de cinco meses na Presidência, por incapacidade de compreender a situação pós-25 de Abril e de levar avante o seu projeto pessoal
FRANCISCO DA COSTA GOMES, O HOMEM CERTO
POR VASCO LOURENÇO
Superiormente inteligente e desconcertantemente simples, este grande chefe militar que odiava a guerra possibilitou que os capitães de Abril cumprissem as suas promessas
A PRIMEIRA CAMPANHA ELEITORAL EM LIBERDADE
POR EMÍLIA CAETANO
As principais forças políticas estavam de acordo, nas eleições de 1976, em que a democracia não era ainda suficientemente sólida para que Belém fosse entregue a um civil
ANTÓNIO RAMALHO EANES, O MILITAR-CIDADÃO
POR JORGE MIRANDA
Toda a ação do primeiro Presidente eleito por sufrágio universal se pautou pela defesa e institucionalização da legalidade democrática
MÁRIO SOARES, UM PRESIDENTE MODELAR
POR DIOGO FREITAS DO AMARAL
Quase todos os portugueses se identificaram politicamente com ele, num momento ou noutro
JORGE SAMPAIO, REFERÊNCIA DEMOCRÁTICA E DE ESQUERDA
POR EDUARDO FERRO RODRIGUES
A dissolução do Parlamento sem convocar eleições antecipadas marcou o mandato presidencial de um político cuja imagem é inteiramente compatível com a sua verdadeira natureza
TIMOR-LESTE, O PAPEL DE UM PRESIDENTE
POR ANA GOMES
Sampaio empenhou-se como cidadão na causa da independência do território e fê-la cumprir como Chefe de Estado
CAVACO SILVA, A HISTÓRIA JULGARÁ
POR MANUELA FERREIRA LEITE
Sendo ainda prematura fazer uma avaliação da sua atuação, o respeotio pelo quadro das competências do arjo foi um dos traços dominantes dos seus mandatos
HISTÓRIAS ESCONDIDAS DO PALÁCIO DE BELÉM
POR ALEXANDRA CORREIA
De um lado os casamentos, os batizados e os velórios. Do outro a política, osd jogos de poder e as conspirações...
O OUTRO PALÁCIO
A Cidadela, em Cascais, é a residência de verão do Presidente
SEGREDOS DO PROTOCOLO
POR PEDRO VIEIRA
Desde 1970 que os cerimoniais e as representações do Estado acompanham a carreira do embaixador Manuel Côrte-Real, que conhece esta matéria como poucos
AS PRIMEIRAS-DAMAS
POR ELSA SANTOS ALÍPIO
Uma viagem de mais de um século pela «outra metade» da Presidência da República
República os 18 presidentes
Visão História - janeiro 2016

Visão História - Os refugiados na Europa do século XX

A VISÃO História traz-nos à memória as imagens que temos visto com frequência desde o último verão. A situação é a mesma – pessoas em fuga, usando os trilhos dos caminhos de ferro como ‘caminho’ –, mas 70 anos separam as imagens de alemães da Polónia tentando chegar a Berlim e as dos sírios entrando a pé na Europa. A II Guerra Mundial provocou a maior catástrofe humanitária de sempre: 46 milhões de deslocados, entre 1939 e 1948. Portugal, recorda a historiadora Irene Flunser Pimentel, foi um país de salvação para milhares de judeus. Outra historiadora, Margarida Magalhães Ramalho, conta como os refugiados foram recebidos de braços abertos na Figueira da Foz, Ericeira e Curia, entre outros locais.
Com um tema tão antigo quanto a própria Humanidade, a VISÃO História centrou a atenção na Europa e no século XX, publicando um número que conta também com a colaboração do único português que foi secretário-geral adjunto da ONU, Victor Ângelo.
SUMÁRIO
Da Europa, com fervor Entre os séculos XVI e XVIII, muitos milhares de europeus perseguidos por delitos de consciência foram proscritos do seu continente. Instalados em terras distantes, construíram prolongamentos da Europa e universalizatam a cultura a que chamamos «ocidental». Por Luís Almeida Martins
Nós e as nossas migrações A Europa entrou no século XXI com uma ideia reduzida e distorcida dos fenómenos passados das migrações e dos refugiados. Perdeu, pois, o sentido da sua própria História. Por Victor Ângelo
Bóer sorte Os refugiados sul-africanos chegaram a Portugal em 1901. Vinham de uma guerra sangrenta, para um país desconhecido. Boa parte esteve mais de um ano nas Caldas da Rainha. Chegaram como internos, partiram como amigos. Por Luís Pedro Cabral
A outra trincheira Também as populações civis mais frágeis e desprotegidas combateram, embora desarmadas, na I Guerra Mundial - fugindo da boca dos canhões, muitas vezes sem bagagem, rumo a um futuro incerto. Por Luís Almeida Martins
Arménios, o primeiro genocídio A perseguição e o extermínio dde que foram alvo no império otomano cunhou um novo termo na ordem jurídica internacional. Cerca de 80% da população arménia da Turquia pereceu afogada, queimada ou em marchas forçadas no deserto. Por Paulo Chitas
O bilionário misterioso Rico, cosmopolita, amante de arte, Calouste Gulbenkian também foi refugiado - por duas vezes. Por Paulo Chitas
Fugidos da Rússia Milhões acossados pelo avanço do Exército Vermelho procuraram o estrangeiro, sobretudo a França. Por Paulo Chitas
Catástrofe na Ásia Menor Os gregos «levantinos» partiram para a Grécia e os turcos da Trácia para a Anatólia. A Convenção de Lausanne, no termo da I Guerra Greco-Turca (1919-22), originou uma das mais impressionantes trocas de populações do século XX. Por Pedro Caldeira Rodrigues
Um êxodo português através dos Pirinéus No final da Guerra Civil de Espanha, refugiados portugueses atravessaram os Pirinéus para a França, onde foram instalados em campos de concentração. É uma odisseia quase esquecida. Por Francisco Galope
A maior de todas as crises Nada menos do que 46 milhões de refugiados europeus foram registados entre 1939 e 1948, em consequência da II Guerra Mundial e do início da Guerra Fria que se lhe seguiu. Por Ricardo Silva
Portugal, um país de salvação Entre 60 a 80 mil refugiados terão passado por Portugal durante a II Guerra Mundial. O regime impediu-os de se fixarem, mas, ironicamente, beneficiou da imagem criada pela passagem de vistos por Aristides de Sousa Mendes contra as ordens do ditador. Por Irene Flunser Pimentel
Um “paraíso” chamado Figueira da Foz A grande estação balnear do centro de País acolheu pelo menos 800 refugiados em 1940. E nunca voltou a ser como antes. Por Margarida Magalhães Ramalho
Os “indesejados” na Ericeira A vila piscatória acolheu estrangeiros que tinham passado pelas cadeias portuguesas, nomeadamente pelo Aljube. Por Margarida Magalhães Ramalho
Paragem na Curia Futuras vedetas de Hollywood, maestros, pianistas e um engenheiro eletrotécnico expedito fizeram parte da paisagem humana das termas. Por Margarida Magalhães Ramalho
Obrigado, Portugal O cineasta Georges Rony cruzou a fronteira de Vilar Formoso em junho de 1940, acabando por ir parar a uma pequena aldeia do concelho de Loures, onde ficou a viver com a família. Eis a sua experiência única, em discurso direto
Caldas cosmopolita Para largas centenas de refugiados judeus, a cidade foi um paraíso em tempos de guerra. A vida mudou, e as mentalidades também. Por Luís Pedro Cabral
Encontrar refúgio no pós-guerra Fini tinha 8 anos quando veio passar uma temporada a Portugasl, onde deixou três quartos do coração. Como ela foram quase 6 mil as crianças austríacas acolhidas em casa de famílias portuguesas entre 1947 e 1954. Por Rosa Ruela
ONU, um mundo de esperança Portugal penou dez anos até ser admitido na Organização das Nações Unidas, em 14 de dezembro de 1955. Por Pedro Vieira
O campo de refugiados mais antigo do mundo Oitenta por cento dos habitantes da Faixa de Gaza são palestinianos de territórios hoje controlados por Israel. Em 1948 chegaram a Jabalia crianças que hoje já têm bisnetos. É a zona mais densamente povoada do planeta e um terreno fértil para o ódio. Por Patrícia Fonseca
O êxodo húngaro para o Ocidente Em 1956 e 1957, na sequência da grande revolta iniciada pelos estudantes de Busdapeste e que culminou na sangrenta intervenção das tropas soviéticas, muitos milhares de húngaros exilaram-se para fugir à repressão. Por Ricardo Silva
Do Faial para os EUA Ao receberem o estatuto de refugiados, os açorianos afetados pelas erupções do vulcão dos Capelinhos de 1957 e 1958 fizeram alterar a legislação norte-americana. Por Francisco Miguel Nogueira
A tragédia dos “pieds-noirs” A descolonização da Argélia pela França, em 1962, após uma guerra prolongada e mortífera, teve como consequência uma vaga de 'retornados' desenraízados como não havia memória. Por Ricardo Silva
O adeus às armas Durante o Estado Novo, as perseguições políticas e a Guerra Colonial criaram uma enorme vaga de exilados políticos. Por Cláudia Lobo
Retornados, não - deslocados ou refugiados Institucionalemente classificados de «retornados», os portugueses que deixaram as colónias africanas entre 1974 e 1977 sempre rejeitaram o rótulo. Por Alexandra Marques
A epopeia do rapaz com quatro nomes À boleia da ponte aérea iniciada para resgatar 23 militares portugueses aprisionados por forças pró-indonésias, José Amaral chegou a Lisboa aos 12 anos, com apelido e pais adotivos arranjados à pressa. Começou aqui uma segunda vida, como milhares de timorenses refugiados do genocídio perpetrado pelas tropas invasoras do ditador indonésio Suharto. Por J. Plácido Júnior
O fim da Jugoslávia No início da década de 1990 a Europa assistiu a regresso da guerra, com a desintegração da Jugoslávia federal. As consequências deste conflito «interétnico» foram particularmente penosas para as populações civis, com o seu desfile de milhões de refugiados e deslocados. Por Pedro Caldeira Rodrigues
Ali Mustafa Alkhamis: ‘A Europa é a nossa única hipótese’ A odisseia de um refugiado sírio recordada na primeira pessoa. Testemunho recolhido por Rosa Ruela

Refugiados na Europa século XX
Visão História dezembro de 2015