28/09/2017

Vergílio Correia (1888-1944)

Realiza-se na Torre do Tombo [TT] um encontro de especialistas:  «jornada de conferências Vergílio Correia (1888-1944): Um percurso ímpar na história, na cultura e nas artes».
Vergílio Correia, um dos arqueólogos que descobriu a cidade romana de Conímbriga, foi professor em Coimbra e deixou mais de 40 livros publicados e dezenas de artigos em jornais e revistas de que foi fundador, director ou simplesmente colaborador, como a Águia, a Terra Portuguesa, Arte e Arqueologia e o Diário de Coimbra.
Vergílio Correia: Um olhar fotográfico, mostra esquissos, desenhos, diários de campo, cartas, livros, artigos e um núcleo de cerca de 30 fotografias feitas por este republicano convicto, reputado antropólogo e historiador de arte, entre 1929 e 1934, núcleo em que se sobressai a sua preocupação em documentar o trabalho de camponeses, operários e artesãos. O acervo exposto permite voltar a olhar para o seu percurso singular e resulta da combinação de dois arquivos relativos ao académico de Coimbra: o que pertence ao Centro de Estudos Vergílio Correia, em Condeixa-a-Nova, em que se destacam quase mil negativos em vidro que até há bem pouco tempo estavam nas mãos da família e que estão hoje a ser estudados por Miguel Pessoa e Lino Rodrigo; e o que a TT comprou na primeira metade da década de 2000, que foi recentemente disponibilizado ao público e cujos fundos a investigadora Vera Mariz e o historiador de arte Vítor Serrão começaram a explorar há pouco mais de um ano.
Nascido na Régua em 1888, Vergílio Correia forma-se em Direito por pressão familiar e chega a trabalhar um ano como notário, profissão que abandona de imediato para consagrar a vida ao conhecimento, contribuindo para a formação de gerações enquanto professor na Universidade de Coimbra e dedicando-se à escrita em áreas menosprezadas por muitos (como as artes decorativas e as artes populares), e a inventários e museus (foi conservador de Arte Antiga e director do Machado de Castro). Intelectual sem actividade política, mas acérrimo defensor dos valores republicanos da liberdade e do acesso à educação e à cultura, maçon e agnóstico, chegou a estar preso no Aljube oito dias quando, no começo da década de 1930, foi acusado de apoiar o comandante Aragão e Melo, opositor à ditadura, e de dar abrigo a um refugiado político. À data da prisão já era director do Museu Machado de Castro e um académico respeitado.
Sem deixar de escrever sobre o tear ou o carro de bois, na história de arte deixou obra em temáticas diversas, da tumulária gótica à talha barroca, passando pela escultura e a pintura do Renascimento, a acrescentar aos dois volumes do Inventário Artístico de Portugal a que esteve ligado e em que a fotografia desempenha um papel primordial (escreve o grosso do tomo dedicado ao Distrito de Coimbra, mas é o seu colaborador directo, António Nogueira Gonçalves, quem escreve o da Cidade de Coimbra). Editados pela Academia Nacional de Belas Artes, no âmbito de um programa de levantamento de todo o território que começa a ser desenhado em 1938, os volumes do Inventário têm em Vergílio Correia um dos primeiros autores. O seu trabalho é o resultado de campanhas concretizadas com notável dedicação por um homem de uma cultura superior que dominava, de modo invulgar, a História da Arte, a Arqueologia ou a Etnografia, sem esquecer a Fotografia. E para o provar basta constatar, acrescenta, como em apenas um trimestre de 1939, Correia e o irmão, seu colaborador, fazem 900 registos de monumentos e obras de interesse arqueológico, artístico ou histórico, percorrendo 1500 quilómetros.
Quando morreu, aos 55 anos, na sequência de uma queda do eléctrico, em Coimbra, tinha o ano todo planeado, incluindo uma viagem a Itália. Estava empenhado em dar continuidade ao Inventário Artístico de Portugal e, muito provavelmente, ainda não desistira de escrever uma grande monografia sobre Conímbriga. Não é por acaso que o escritor Miguel Torga, no seu Diário, lhe chama «Vergílio dos Cacos».
Professor Vergílio Correia
Vergílio Correia (Peso da Régua, 19 de Outubro de 1888 – Coimbra, 3 de Junho de 1944).

26/09/2017

Será Pedro Ataíde o navegador Cristóvão Colombo?

Cristóvão Colombo transformou-se num homem com mil caras. Já foi um tecelão genovês, um bastardo português, grego ou espanhol, catalão ou galego e muitos outros estrangeiros num só homem. A confusão é imensa e o próprio Cristóvão não ajudou. Ele que nunca quis que se falasse nas suas origens e que nunca assinou o seu nome em nenhum documento.
Fernando Branco mergulhou numa história com séculos que é um dos mais intrigantes mistérios da época dos Descobrimentos. Em 2012 escreveu um livro com o título Cristóvão Colón, Nobre Português. O investigador defende que o navegador foi um corsário português chamado Pedro Ataíde, apresentando mais de meia centena de pontos comuns entre os dois. Actualmente, espera apenas uma autorização para abrir os túmulos da família dos Ataídes, em Castanheira do Ribatejo (Vila Franca de Xira). As análises ao ADN, que serão da responsabilidade da antropóloga forense Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra, podem provar que estava correcto ou desmenti-lo. Desde há muito tempo que historiadores e investigadores discutem sobre as origens do navegador que descobriu as Américas. Até hoje, não foi encontrada nenhuma prova ou documento que não deixe, pelo menos, uma pequena margem para dúvidas.
Na biografia Historia del almirante Don Cristóbal Colón escrita pelo seu filho Fernando (ou Hernando), esconde-se a sua origem. O filho de Colombo justifica que o pai não queria que se soubesse onde nasceu. O mais importante seriam os seus feitos na História. O espaço em branco imposto pelo próprio Cristóvão Colombo acabou por ser preenchido com a narrativa mais popular de que será italiano, mais especificamente um genovês nascido em 1451. Mas a versão que prevaleceu está longe de ser consensual. Fernando Branco considera que esse Cristóvão Colombo genovês [Cristoforo Colombo] era um tecelão, sempre foi um tecelão e não pode, de maneira nenhuma, ser o almirante porque se conhecem as histórias de ambos.
Mas se não era genovês, era o quê?
Mascarenhas Barreto defende que Cristóvão Colombo foi um filho bastardo de D. Fernando, irmão de D. Afonso V. Mas, considera Fernando Branco, não há documento nenhum que prove que o D. Fernando tenha tido um bastardo.
Existem outras teorias. A hipótese de um luso-americano, Manuel Rosa, defende que houve um imperador da Polónia ou Lituânia que a história diz que morreu numa batalha contra os turcos mas que ele diz que, afinal, não morreu, mas que veio para Portugal e teve um filho chamado Segismundo que terá nascido em Cuba, no Alentejo. De acordo com esta teoria este filho seria Cristóvão Colombo.
Existe também a teoria dos irmãos Mattos e Silva que dizem que era mais um filho bastardo de uma irmã de D. Afonso V. Ou a versão do livro de Manuel Luciano da Silva e da sua mulher, Sílvia Jorge da Silva, que coloca o navegador a nascer em Cuba, no Alentejo, e que inspirou o filme de Manoel de Oliveira: Cristóvão Colombo, o enigma.
Fernando Branco quando iniciou a investigação começou por definir quais eram as coisas-base que essa personagem, se fosse português, tinha de ter. E há, à partida, uma coisa que é muito importante. Cristóvão Colombo teve dois irmãos. Assim, quando pensamos num Cristóvão Colombo português, temos de arranjar, pelo menos, três pessoas. Além dos irmãos é também preciso encontrar alguém que tem uma história de mar significativa. Tem ainda de ser uma pessoa ligada à nobreza. As principais famílias de nobreza estão todas representadas no tecto do palácio de Sintra, onde estão todos os brasões daquela altura. Um destes brasões há-de estar ligado ao Cristóvão Colombo. Tem de ser solteiro ou viúvo em 1479 porque é o ano em que casa com a sua esposa portuguesa. E com estas pistas, Fernando Branco procurou um “suspeito”. Há um texto escrito por um historiador dos reis católicos, um professor catedrático em Salamanca, que diz claramente num livro que quem descobriu a América foi um indivíduo chamado Pedro Colón. Eis o Pedro. A referência à existência de um Pedro Colón é feita por mais historiadores, de Gaspar Frutuoso a Diogo do Couto (que escreveu com João de Barros as Décadas da Ásia). Procurando Pedro Colón, só encontrou um documento que o refere. É um corsário que aparece numa folha de pagamentos do D. Afonso V. Existem crónicas que dão Pedro Colón como morto numa violenta batalha nas águas do mar, a sul de Portugal, em Agosto de 1476, e que ficou conhecida como Batalha de S. Vicente. Mas Fernando Branco acredita que o tal corsário não morreu ali, que se salvou a nado. Rui de Pina (cronista que descreveu esta batalha), por alguma razão, ou se enganou ou mentiu, mas é muito estranho que no preciso instante em que desaparece um Pedro Colón nasce um Cristóvão Colombo.
Fernando Branco considera que o livro que escreveu foi sobre a vida deste Pedro Ataíde. Era um indivíduo da alta nobreza, descendente de almirantes portugueses. Afirma ter encontrado sessenta indícios comuns entre a vida deste Pedro Ataíde e a vida do Cristóvão Colombo. Por exemplo: O Cristóvão Colombo, quando regressa da América da primeira viagem, pára na ilha de Santa Maria, nos Açores, onde estava um indivíduo que o conhecia muito bem e que se chamava João da Castanheira. Colombo escreve esta informação no seu diário. Como é que o conhecia? Ora, o João da Castanheira era o senhor João da povoação da Castanheira [Castanheira do Ribatejo}, que é a terra dos Ataídes.
Fernando Branco tem mais argumentos para sustentar a sua hipótese. Mas, tal como muito outros historiadores, não tem qualquer documento que sirva de prova. Faltam documentos e por isso é preciso juntar peças de um puzzle construído com crónicas escritas há séculos, cartas supostamente escritas pelo navegador ou a ele dirigidas e muita imaginação. Em Portugal, confirma o investigador, não há um único documento que refira o Cristóvão Colombo.
Agora, o plano é usar o resultado de análises feitas a uma parte dos ossos que pertencerão a Cristóvão Colombo e que estarão guardados em Sevilha e comparar estes dados com exames ao ADN dos esqueletos que estão na Quinta de Santo António, em Castanheira do Ribatejo, onde a família dos Ataídes os enterrou. Do Pedro Ataíde não existe esqueleto, nem ADN, nem nada. Porque ele ou se transformou em Cristóvão Colombo e está em Sevilha ou ficou no fundo do mar durante a Batalha de S. Vicente. Mas podemos vir a ter o ADN de um tio dele por via masculina ou de um primo direito, uns Ataídes que estão no panteão dos Ataídes em Castanheira do Ribatejo.
Fernando Branco vai tentar obter o ADN de António Ataíde (que seria primo direito de Pedro) e de Alvaro Ataíde (tio) e comparar com o ADN de Fernando, filho do Cristóvão Colombo. O processo até conseguir a autorização da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) para abrir os túmulos daquela família é uma longa história. A abertura do túmulo é um processo extremamente complexo. Basicamente é uma caixa, mas tem em cima três tampas sobrepostas e cada uma pesa quase uma tonelada. Foi preciso fazer alterações ao projecto que obrigaram a um novo pedido dirigido à DGPC. Agora só falta esta derradeira autorização para abrir o túmulo, algo que Fernando Branco espera que aconteça no próximo mês de Outubro. Com o túmulo fechado com três pesadas tampas em cima, está tudo em aberto. Não sabemos o que lá está nem como está. A análise depende disso. Os corpos podem estar esqueletizados, mumificados, fragmentados, reduzidos a fragmentos. Pode haver vestígios de roupas e/ou objectos. Será determinado o número de indivíduos presentes no túmulo e feita a sua individualização. Posteriormente, cada um será analisado com vista ao conhecimento do sexo, idade à morte, origem geográfica e estatura. Também será efectuada a perscrutação de eventuais doenças.
No entanto, a análise pode ser inviabilizada pela fragmentação extrema dos ossos ou a má preservação dos restos humanos. Também pode ser possível recolher ossos masculinos e com um perfil idêntico ao esperado e não se conseguir extrair material genético. Neste caso não se conseguiria uma resposta para a hipótese formulada. Se o túmulo estiver vazio, também não.
Se reconstruir um passado já parece um exercício tão complexo, não adianta sequer tentar fazer qualquer previsão de futuro. A única coisa que parece certa é que a discussão sobre as origens de Cristóvão Colombo vai continuar e que este navegador liderou a frota conhecida pela descoberta da América, como nos contam os nossos livros de História. Ou será que também isso é discutível? No seu túmulo em Sevilha, Cristóvão Colombo terá deixado um pedido por escrito: “Espero não ser confundido eternamente”.
Retrato de Colombo e sua assinatura
Retrato de Cristóvão Colombo e a sua assinatura encriptada.
Convento de Santo António - Castanheira do Ribatejo
Convento de Santo António em Castanheira do Ribatejo
Capela em Castanheira do Ribatejo
Capela da família Ataíde em Castanheira do Ribatejo.

20/09/2017

Necrópole romana em Beja

 Na cidade de Beja foi descoberta, em junho de 2017, uma necrópole romana com 14 sepulturas e 3 sarcófagos,estas últimas estruturas funerárias raras nesta região, durante os trabalhos de requalificação da rua que dá acesso à antiga zona industrial da cidade. Estão datados de entre os séculos II e V da nossa era. Algumas ainda preservam esqueletos com uma estatura média de 1,60 metros, com excepção de um indivíduo com cerca de 1,80 metros e uma constituição óssea que indicia estar-se perante alguém que desenvolveu esforços físicos continuados.
No interior dos sarcófagos, revestidos a placas de mármore com três centímetros de espessura, não foi encontrado espólio da época romana. No interior das sepulturas e dos sarcófagos foram encontrados alguns esqueletos remexidos e revolvidos, presumindo-se que a vandalização da necrópole tenha ocorrido há muitos séculos. A sua disposição apresenta enterramentos com os pés virados para Este e cabeça para Oeste, e encontram-se distanciados entre si de forma regular. A necrópole tem dois núcleos diferenciados. Num dos sarcófagos pode observar-se um buraco aberto no tecto da estrutura por onde terá sido consumada a vandalização dos despojos humanos, pormenor que explicará a ausência de espólio que geralmente acompanhava a deposição dos corpos na altura do seu enterramento. Para além do impacto (aluimento de componentes estruturais) provocado, durante décadas, pelo tráfego de viaturas pesadas que utilizavam a rua da Lavoura por esta dar acesso a uma zona industrial de moagem de cereais, algumas das sepulturas e sarcófagos agora descobertos foram parcialmente destruídos pelas máquinas que intervieram no talude onde se encontra a necrópole romana. A área que poderá estar ocupada por enterramentos tem uma extensão calculada entre quatro a cinco hectares. Da sua existência naquele local já existem registos que remontam a 1892. O jornal O Bejense refere o aparecimento de um marco funerário no largo da Igreja de Ao Pé de Cruz, a cerca de 300 metros do local onde agora se descobriu a necrópole romana. Nesse local, foi identificada uma sepultura coberta interiormente com placas de mármore e apresentando uma métrica e aparelho construtivo muito semelhante a um dos sarcófagos agora descobertos. Em 2003, é a vez da arqueóloga Conceição Lopes identificar, na sua tese de doutoramento, a existência de uma necrópole romana junto à estação de caminhos-de-ferro de Beja, nas proximidades da Rua da Lavoura. Mais recentemente, em 2016, no decurso da requalificação de uma rua que termina no Largo da Estação, foram identificados alguns restos osteológicos dispersos.
Alguns elementos do espólio funerário recolhido nas escavações arqueológicas realizadas na necrópole romana da Rua da Lavoura em Beja. Todos estes materiais estão em fase de restauro e estudo.
Esqueleto num dos sarcófagos.
Moeda de Vespasiano (71-72 d.C.) - sepultura 5.
Boião em vidro (séculos I-II d.C.) - sepultura 20.
Copo em vidro (séculos I-II d.C.) - sepultura 20.
Skyphos em vidro (séculos I-II d.C.) - sepultura 20.
Lucerna (séculos I-II d.C.) - sepultura 20.
Pote de barro (séculos I-II d.C.) - sepultura 20.

A Ponte Romana de Vila Formosa

Situa-se sobre a Ribeira de Seda e constitui um excepcional exemplar de arquitectura civil alto-imperial.
Fazia parte da via romana que passava por Abelterium (Alter do Chão) que ligava Olisipo (Lisboa) à capital da província romana da Lusitânia - Augusta Emerita (Merida, Espanha).
A Ponte Romana de Vila Formosa caracteriza-se por possuir pegões rectangulares, decorados com molduras de características clássicas, que suportam seis arcos de abertura idêntica, sobre os quais assenta um tabuleiro de perfil horizontal com mais de 100 metros de comprimento e cerca de 7 metros de largura.
Entre os arcos existem cinco olhais que permitem o escoamento da água em situações de cheias mais violentas. Abaixo das guardas, a ponte apresenta uma cornija em todo o seu comprimento, elemento que a montante intercala com gárgulas.
A regularidade que apresenta, o aparelho de construção, em opus quadratum almofadado, e as marcas do fórfex, visíveis em todo o monumento [fórfex ou fórfice é um instrumento em forma de tesoura ou pinça e estas marcas são pequenas cavidades em lados opostos, que permitiam a entrada do fórfex para levantamento e colocação dos blocos usados nas pontes], fazem da Ponte Romana de Vila Formosa um excelente exemplar da arquitectura civil romana.
Ponte Romana de Vila Formosa.
A Ponte Romana de Vila Formosa - pormenor do opus quadratum almofadado.

A Ponte Romana de Vila Formosa - entre os arcos os olhais que permitem o escoamento da água.

A Ponte Romana de Vila Formosa - marcas do forfex.

28/07/2017

ADN de 14 esqueletos antigos de Portugal revelam dados sobre os primórdios da agricultura na Península Ibérica

Há cerca de 7500 anos, os primeiros agricultores estavam a chegar à Península Ibérica, vindos da Anatólia – e estes, por sua vez, tinham vindo do Crescente Fértil, onde a agricultura foi inventada há cerca de dez mil anos. Esses primeiros agricultores ibéricos foram-se misturando com os caçadores-recolectores que já cá viviam. Depois, há cerca de 4500 anos, chegavam à Europa do Norte e do centro cavaleiros nómadas vindos das estepes da Europa de Leste e da Ásia, onde se dedicavam à pastorícia. A questão era: será que os cavaleiros-pastores das estepes euro-asiáticas também vieram para a Península Ibérica e se reproduziram com as populações que aí se encontravam – por exemplo, com os primeiros agricultores, que se pensa terem vindo por mar, viajando junto à costa? 
Tenham viajado de barco ou a cavalo, tenham sido caçadores-recolectores, agricultores ou pastores, a história populacional da Península Ibérica e das suas migrações pode ser desvendada com a ajuda da genética. Foi isso que aconteceu agora com o trabalho do geneticista português Rui Martiniano desenvolvido durante o seu doutoramento no Trinity College de Dublin e que actualmente trabalha no Instituto Sanger, em Cambridge. O resultado é a reconstituição da história genética da Península Ibérica na transição para a Idade do Bronze, num artigo científico publicado esta quinta-feira na revista PLOS Genetics.
Esta viagem ao passado populacional do território onde fica agora Portugal foi possível porque, antes de mais, foi sequenciado o genoma de 14 esqueletos antigos. Estes esqueletos, de oito sítios arqueológicos (da região de Lisboa e Vale do Tejo, do Alentejo e Algarve), datam desde o Neolítico Médio (4200-3500 a.C.) até à Idade do Bronze Média (1740-1430 a.C.). Dito de outra forma, têm desde 6200 até 3430 anos. Para fazer comparações, a equipa usou ainda dados publicados sobre genomas antigos de humanos da Eurásia (incluindo amostras de Espanha), com idades que iam desde os 27 mil até aos 2000 anos. E, ainda, dados públicos do genoma de quase duas mil pessoas actuais de todo o mundo.
O ADN dos 14 esqueletos foi descodificado no Trinity College de Dublin. Foi possível obter genomas completos de sete amostras. Isto significa que sete amostras tiveram cerca de 100% do seu genoma sequenciado pelo menos uma vez. São apresentados, pela primeira vez, genomas completos de amostras pré-históricas ‘portuguesas’, sendo que os esqueletos mais antigos sequenciados têm à volta de seis mil anos. 
Viajemos agora até ao final do Neolítico e o início da Idade do Bronze, que na Península Ibérica foi há cerca de 4000 anos. Nessa altura, a Europa do Norte e do centro já estava a receber uma migração maciça de pessoas das regiões das estepes da Europa de Leste e da Ásia. Por essa altura também, já estava a ser domesticado o cavalo na Ásia Oriental e nos territórios que hoje fazem parte do Sul da Rússia. Quando os cavalos foram domesticados no final do período Neolítico, provavelmente eram criados como animais que forneciam alimento, uma vez que foram encontrados em locais arqueológicos ossos partidos, juntamente com vestígios de outros restos de comida. Mas não deve ter demorado muito até os primeiros agricultores e pastores descobrirem que os cavalos podiam ser montados, carregados com bens para transportar e treinados para puxar carroças. É provável que os bovinos tenham sido utilizados antes dos cavalos para arar e também para a tracção, mas assim que o cavalo se estabeleceu como meio de transporte o modo de vida dos seres humanos foi alterado. Isto aconteceu, segundo parece, surpreendentemente tarde, durante o segundo milénio antes de Cristo e apenas um milénio antes no Sul da Rússia e na Ásia Oriental. O mundo estava aberto aos cavaleiros que podiam viajar para toda a parte e, com a ajuda dos desenvolvimentos posteriores nas técnicas de guerra, podiam conquistar novas terras para onde se deslocassem.
Ora o que conta o genoma dos 14 esqueletos antigos «portugueses», bem como a sua comparação com as outras amostras pré-histórias euro-asiáticas e modernas de todo o mundo, é precisamente que aqueles invasores provenientes das estepes ficaram-se mais pelo Norte e pelo centro da Europa, em vez de virem para a Península Ibérica. Estudos genéticos de outras equipas já tinham revelado, em 2015, a existência dessas grandes migrações das estepes para o Norte e centro da Europa. Essas pessoas que migraram contribuíram bastante o genoma das populações que viviam ali. Agora, o novo estudo mostra que, na Península Ibérica, essas migrações das estepes foram muito mais reduzidas. Apenas foi detetada uma mudança genética muito subtil durante a transição do Neolítico para a Idade do Bronze, em resultado de migrações ou do contacto com outros povos fora da Península Ibérica. Portanto, nesta história de migrações e invasões chegaram novas pessoas e os seus genes a algumas regiões – o que significa que houve sexo para que tivessem ocorrido trocas genéticas visíveis agora nas amostras de ADN analisadas, pelo menos em algumas. Mas as migrações populacionais também podem conter uma história de transmissão cultural, de tecnologias e conhecimento. Neste caso agora, a equipa sustenta que a presença dos invasores das estepes mais no Norte e centro da Europa e menos na Península Ibérica terá tido implicações na transmissão das línguas. Pensa-se que estas migrações da Idade do Bronze espalharam as línguas indo-europeias por toda a Europa, de que são exemplos o inglês, alemão, espanhol, português ou o mirandês. Tendo em conta que essas migrações foram reduzidas na Península Ibérica, este fraco fluxo populacional poderá explicar a permanência de línguas não indo-europeias nesta região, como o euskera no País Basco. Como sabemos, as línguas indo-europeias acabaram por se disseminar pelo mundo, mas o euskera sobreviveu até hoje na fronteira entre Espanha e França como uma língua pré-indo-europeia. Tem sido sugerido que as línguas indo-europeias se espalharam através de migrações pela Europa a partir da região central das estepes, um modelo que encaixa nestes resultados.
De todo este manancial genético, a equipa também extraiu informações sobre a evolução da estatura das populações humanas. Para isso, regressemos aos primeiros agricultores do Neolítico. Este ano, uma equipa liderada por cientistas do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), da Universidade do Porto, e da Universidade de Huddersfield, avançou com um artigo sobre a rota «marítima» seguida pelos agricultores do Neolítico até à Península Ibérica. Em diversas bases de dados genéticas procurou marcas nos nossos genes (que continuam presentes) da chegada à Península Ibérica de populações vindas do Médio Oriente. E concluiu que um pequeno grupo veio do Médio Oriente e chegou primeiro à Península Itálica, onde se misturou com as populações locais. Depois, viajou pela costa, até chegar à Península Ibérica há cerca de 7500 anos, onde voltou a misturar-se com as populações que aí viviam e iniciar a substituição da cultura dominante dos caçadores-recolectores pela agricultura e a domesticação de animais. Baseando-se em achados de cerâmica, o arqueólogo português João Zilhão, também já tinha defendido a importância do Mediterrâneo para a entrada do Neolítico na Península Ibérica e que a Península Itálica teria servido de interposto. Essa rota de expansão da agricultura foi assim diferente da que seguiu por terra para o resto da Europa, onde há cerca de quatro mil anos já estava disseminada. Pela genética, pôde então ver-se que a revolução da agricultura no Neolítico na Península Ibérica foi iniciada com a chegada de gente nova e dos seus genes. Houve uma migração pronunciada, que veio da Anatólia. Não foi só uma transmissão cultural: não foram os caçadores-recolectores a adoptar a agricultura.

Acontece que os primeiros agricultores da Anatólia tinham uma predisposição genética para serem mais baixos do que os caçadores-recolectores, que existiam na Europa. Por outro lado, os cavaleiros das estepes euro-asiáticas da Idade do Bronze tinham uma predisposição para serem mais altos. As populações de hoje em dia na Europa têm alturas marcadamente diferentes. Os portugueses, espanhóis ou italianos – as populações do Sul europeu – tendem a ser mais baixas. As populações do Norte, especialmente os holandeses e alemães, tendem a ser muito altas. Isto depende de factores ambientais, como a alimentação, mas também factores genéticos. O estudo diz que as migrações do Neolítico provenientes da Anatólia são responsáveis por uma estatura mais baixa. Note-se que as populações do Sul europeu têm mais ancestralidade do Neolítico do que as populações do Norte da Europa. Este trabalho também confirma os resultados da equipa de Iain Mathieson, da Faculdade de Medicina de Harvard, na revista Nature em 2015, como conta o investigador português: «As populações da estepe durante a Idade do Bronze tiveram um papel fundamental no aumento da estatura aquando da sua expansão para a Europa.»
E é assim que uma parte da história dos movimentos migratórios na Europa, dos primórdios da agricultura, da expansão de línguas e da estatura das populações ficou agora um pouco mais esclarecida, graças ao contributo do ADN de 14 esqueletos antigos de Portugal.
Enterramentos sítio Arqueológico Torre Velha 3
Enterramentos no sítio arqueológico Torre Velha 3 (Serpa).

Vista geral do sítio arqueológico Torre Velha 3
Vista geral do sítio arqueológico Torre Velha 3 (Serpa).
Sítios arqueológicos de onde veio o ADN humano antigo
Sítios arqueológicos de onde veio o ADN humano antigo.

Migração da Anatólia para a Península Ibérica Neolítico
Migração da Anatólia para a Península Ibérica.

13/06/2017

Balsa - cidade romana junto à ria Formosa arrasada

Um holandês comprou, por 1,2 milhões de euros, uma quinta onde antes estavam os subúrbios da antiga cidade de Balsa. Arrasou tudo e a obra acabou embargada. O problema é que tarda a protecção - e um estudo aprofundado - da antiga urbe.
Para nos percebermos da importância da cidade de Balsa basta referir que só no Museu Nacional de Arqueologia existem mais de 8 mil peças registadas de Balsa. As entidades nacionais e locais responsáveis pela cultura devem usar todos os meios legais para tentar preservar o que resta deste património histórico. Não devem esquecer que se trata de um local de enorme interesse arqueológico.
Vamos salvar Balsa
Vejam o vídeo  https://www.facebook.com/portugal.romano/videos/722178084598262/
Reconstituição da cidade romana de Balsa
Reconstituição da cidade romana de Balsa.

Planta da cidade romana de Balsa
Planta da cidade romana de Balsa.
estátua de Vénus encontrada em Balsa
Estatueta de Vénus, século II d.C. (mármore branco).
jarro de vidro encontrado em balsa
Jarro de vidro, século I d.C.
lucerna «tipo rã» encontrada em Balsa
Lucerna do «tipo rã», séculos III d.C. - IV d.C. (cerâmica).