18/01/2018

«Crânio da Aroeira» depositado no Museu Nacional de Arqueologia

Achado arqueológico designado por «Crânio da Aroeira», o mais antigo fóssil humano encontrado até hoje em Portugal, foi depositado no Museu Nacional de Arqueologia, no dia 16 de janeiro, pelo investigador responsável pelo achado, o arqueólogo João Zilhão. Este ato realizou-se após a conclusão dos trabalhos de estudo e restauro a que o fóssil foi submetido na Universidade Complutense de Madrid, desenvolvidos por uma equipa internacional liderada por Juan Luis Arsuaga, reconhecido especialista em evolução Humana no período envolvido.
Descoberto em julho de 2014 na gruta da Aroeira, complexo arqueológico do Almonda, em Torres Novas, este crânio humano com 400 mil anos é um dos poucos dessa época encontrados no mundo. A investigação desenvolvida a seu respeito acrescentou conhecimento ao estudo da Evolução Humana e gerou novos argumentos a favor da tese que defende a inclusão de todos os fósseis deste período numa única espécie ancestral ao Homem moderno. A par da designada «criança do Lapedo», achado ocorrido na região de Leiria em 1998, o «Crânio da Aroeira» vai ser uma das peças-chave de uma exposição sobre Evolução Humana a partir de achados realizados em Portugal que está ser preparada no MNA, com o apoio da UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, da Câmara Municipal de Torres Novas, da Lusitânia Seguros e de outras instituições com as quais decorrem contactos. A abertura está prevista para o segundo semestre de 2018. Nessa mostra serão assim expostos ao público, pela primeira vez, os dois fósseis descobertos no nosso país que contribuíram de forma muito significativa para a revisão profunda do entendimento científico da Evolução Humana, nomeadamente no que respeita à origem e destino do Homem de Neandertal. Sob o comissariado científico de João Zilhão, a exposição documentará o contexto tecnológico, cultural e paleoambiental das populações humanas representadas — as que habitaram o território hoje português entre 500.000 e 10.000 antes do presente. Serão ainda exibidos restos fósseis mais fragmentários provenientes de outras jazidas, igualmente pertencentes ao acervo do MNA: Galeria da Cisterna (Torres Novas), Gruta da Oliveira (Torres Novas) e Gruta do Caldeirão (Tomar).
Os resultados científicos sobre o «Crânio da Aroeira foram publicados em março de 2017 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
«Crânio da Aroeira», Torres Novas
«Crânio da Aroeira»

02/12/2017

Monserrate Revisitado – A Colecção Cook em Portugal

A Sintra romântica dos escritores e poetas britânicos, sobretudo a de Lord Byron e de William Beckford, que chegou a arrendar o palacete de Monserrate que ali existia antes da chegada de Francis Cook (1817-1901), fascinava este homem de negócios que fez fortuna pegando na empresa do pai, que negociava em tecidos, e viajando pela Europa e pelo Médio Oriente. Os jardins eram também o cenário ideal para as festas em que os donos desta casa de Verão e os seus convidados se mascaravam, retirando para o interior do palacete quando a noite se aproximava, para jantar e passar o serão nas salas do bilhar ou da música, onde hoje já está montada a árvore de Natal, junto ao piano. É para celebrar os 200 anos do nascimento de Francis Cook, o inglês que comprou a quinta de Monserrate em 1856 e reformou o palacete onde Beckford tinha vivido, que abre hoje a exposição Monserrate Revisitado – A Colecção Cook em Portugal (até 31 de Maio). Reúne no pequeno palácio mais de 50 obras de arte (pintura, escultura, mobiliário, porcelana, têxteis ou ourivesaria) que pertenceram ao seu valioso recheio, disperso por uma série de colecções públicas e privadas na sequência de um grande leilão ali realizado em 1946.
Peças vindas de colecções particulares, do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), da Casa-Museu Medeiros e Almeida e da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, entre outros, ajudam a recriar o ambiente que ali se vivia nos quase cem anos em que o palácio pertenceu à família Cook, e que antecederam décadas de abandono (de 1949 ao início dos anos 2000), até que em 2005 a Parques de Sintra – Monte da Lua, a empresa criada para gerir o património do Estado na paisagem cultural de Sintra classificada como Património Mundial, começou a restaurá-lo.
Para isso, e com a orientação de Maria João Neto, tem nesta primeira exposição e no volumoso catálogo que a acompanha dois importantes marcos. A exposição e esta edição, que inclui estudos individuais das peças expostas e textos que contextualizam a evolução da quinta de Monserrate ou traçam o perfil de Francis Cook, são pontos de partida para um trabalho ainda mais ambicioso que quer devolver às salas do andar nobre do palácio (o rés-do-chão), já inteiramente restauradas, um ar habitável. Até agora os visitantes de Monserrate (121 mil em 2016) têm visto um palácio vazio, com as suas paredes cobertas de estuques decorativos e a magnífica porta esculpida da biblioteca, que apetece ver sempre fechada para que não passe despercebida a ninguém. A partir de 31 de Maio poderão começar a ver objectos nas salas e, progressivamente - graças a novas aquisições, empréstimos, depósitos ou réplicas de pinturas, tapetes e mobiliário -, sentir que passeiam por uma casa romântica de gosto inglês.
Francis Cook segue o manual de criação de uma grande propriedade senhorial britânica. Uma propriedade agrícola que é auto-suficiente, com centenas de pessoas a trabalhar, com uma casa que responde, embora mais pequena do que o habitual, a todos os requisitos de uma família riquíssima da época, com espaços separados para mulheres e homens, com grande inovações tecnológicas. Em Monserrate há uma transposição do modelo inglês da casa senhorial, por oposição ao Palácio da Pena, marcada por símbolos nacionalistas, como convém à casa dos reis. Francis Cook e D. Fernando estão sempre a competir, como se dissessem 'a minha colecção é melhor que a tua, o meu palácio é melhor que o teu…'. Quando Francis Cook compra o Convento dos Capuchos – compra também umas 15 outras quintinhas para fazer crescer a de Monserrate –, o rei compra logo o terreno do lado [hoje a Tapada de D. Fernando] para que o inglês não consiga ligar as duas propriedades. Se em tamanho, a Pena supera Monserrate, em conforto, passa-se o oposto. Aqui havia ‘águas correntes’, como se dizia, aquecimentos nas salas e até luz eléctrica, graças a um gerador instalado no parque. A Pena, que se saiba, não teve electricidade no tempo de D. Fernando, e o telefone que lá está chegou com D. Carlos. Há até um elevador para ligar a cozinha à copa da sala de jantar e o mesmo sistema para chamar os criados aos quartos que vimos na famosa série Downton Abbey.
Esta exposição tem num relevo de mármore do Renascimento florentino, representando a Virgem com o Menino e esculpido por Gregorio di Lorenzo (conhecido como o mestre das madonas de mármore). Francis Cook, que chegou a ser o terceiro homem mais rico do Reino Unido, tinha uma das melhores colecções privadas de arte do mundo, exposta numa galeria que mandou acrescentar à propriedade onde vivia a maior parte do ano, Doughty House, e que funcionava como um pequeno museu, visitável mediante o pagamento de bilhete. Em Sintra o multimilionário do têxtil fez o mesmo. Sabemos ainda pouco sobre as peças que Cook traz de Inglaterra ou compra em Portugal para pôr em Monserrate, em parte porque o leilão de 1946, que se saiba, não teve catálogo. Mas o que tinha em Doughty House é muito conhecido e percebe-se, pelas colecções a que as peças foram parar, a qualidade excepcional do que comprava. Tinha vários Rembrandts de grande qualidade, obras de Rubens, Murillo, Velázquez, El Greco, um Turner muito conhecido [A Quinta Praga do Egipto], um Antonello da Messina, entre outras obras de pintores célebres..
O peso da pintura espanhola na sua colecção deve-se ao facto de ter tido como consultor de aquisições um coleccionador que era um grande conhecedor da pintura italiana e ibérica – John Charles Robinson. É precisamente sob sugestão de Robinson, a quem compra dezenas de obras, que Cook se interessa por Grão Vasco (Vasco Fernandes), autor do chamado Tríptico Cook (1510-1530) e pelo Pentecostes originalmente feito para o Convento da Madre de Deus, em Lisboa, cujo paradeiro é hoje desconhecido. Esta obra, reproduzida no catálogo graças a uma fotografia antiga, é agora, segundo o texto nele escrito por Vera Mariz, atribuído pelo historiador de arte Vítor Serrão à oficina de Vicente Gil e do seu filho Manuel Vicente, pintores régios.
A colecção Cook incluía obras como Cabeça de Cristo, de Antonello da Messina (hoje no Museu do Louvre); As Três Marias no Sepulcro, de Jan van Eyck (Museu Boijmans van Beuningen); A Adoração dos Magos, começada por Fra Angelico e terminada por Fra Filippi (National Gallery de Washington), Velha Fritando Ovos, de Velázquez (National Gallery da Escócia), A Virgem e o Menino Entronizada, com um Doador, de Crivelli (National Gallery de Washington), e o Salvator Mundi de Leonardo da Vinci que foi recentemente vendido em leilão pela soma recorde de 382 milhões de euros, sem que se saiba ainda a quem pertence (a sua atribuição ao pintor de Mona Lisa, ainda hoje contestada por alguns, não era conhecida à época em que estava em Doughty House, para onde Robinson a comprou pensado tratar-se de um dos seus seguidores, Bernardino Luini). Esta colecção foi dispersa em vendas sucessivas no pós-Segunda Guerra Mundial, quando os negócios da família, entretanto nas mãos de um bisneto que não gozava de grande reputação, dado que tinha casado sete vezes, entraram em derrocada.
Em Monserrate, Francis Cook tem obras de gosto muito mais exótico, e é por isso que aqui reuniria uma mistura muito interessante de arte europeia, com escultura clássica e obras do Renascimento, por exemplo, e de arte oriental. Nesta casa de Verão misturava-se, por isso, uma mesa indo-portuguesa com uma Vénus e Meleagro italianos do século XVII, ou uma armadura indiana do século XIX com um relevo flamengo em alabastro, do século XVI.
A personalidade de Francis Cook é outro dos temas em que a investigação deve apostar de futuro, defende Neto, para que se possa dar um verdadeiro rosto a este coleccionador que, muitas vezes, se vê “eclipsado” pela personalidade exuberante da sua segunda mulher, a norte-americana Tennessee (Tennie) Claflin, 28 anos mais nova do que ele. Tennie, com quem o empresário casa menos de um ano depois da morte da sua primeira mulher, vinha de uma família insólita – o pai arrastava a mulher e os filhos pelo país em espectáculos que envolviam espiritismo e chegou a ser acusado de gerir um bordel – e era uma feroz sufragista, tal como a irmã Victoria Woodhull. Juntas abriram, em Nova Iorque, a primeira agência de corretagem dirigida por mulheres, com sucesso, chegando a candidatar-se a primeira a um lugar no Congresso e a segunda à Presidência dos Estados Unidos. É graças a esta mulher algo indomável que Francis Cook se dedica a obras sociais em Sintra. Fundam duas escolas para os filhos dos seus trabalhadores, apoiam a Misericórdia com generosas doações e fazem festas para as crianças que viviam nas sua propriedades, dando tecidos às mães para que as vestissem condignamente. Mas nem assim Tennie se livrou de ser acusada, pelos filhos de Francis Cook, de ter envenenado o marido.
Palácio de Monserrate
Francis Cook (1817-1901) c. de 1890.
Francis Cook e amigos foto de Carlos Relvas
Francis Cook e os seus convidados num baile de máscaras. Foto de Carlos Relvas.
Francis Cook e amigos foto de Carlos Relvas
Francis Cook, sentado de chapéu escuro, com amigos. Foto de Carlos Relvas.
Biblioteca Palácio de Monserrate
Biblioteca do Palácio de Monserrate em 1902.
Sala de jantar Palácio de Monserrate
Sala de jantar do Palácio de Monserrate em 1902.

16/11/2017

De Augusta Emerita a Olisipo por Ebora : uma leitura do território a partir da rede viária

Está disponível a tese de doutoramento de Maria Jose de Almeida, De Augusta Emerita a Olisipo por Ebora : uma leitura do território a partir da rede viária [http://repositorio.ul.pt/handle/10451/29682]. Tese orientada por Carlos Fabião e Amílcar Manuel Guerra.
A existência de três itinerários principais entre a capital da Lusitania e o porto marítimo de Olisipo é atestada por evidências arqueológicas e por fontes escritas (literárias e epigráficas) de época romana. Desse conjunto de fontes, o texto conhecido como Itinerário de Antonino assume-se como um dos documentos principais. O objeto de estudo é um desses itinerários, o que faz a ligação de Augusta Emerita a Olisipo por Ebora. A interpretação do Itinerário de Antonino, conjunto de textos que conhecemos através de cópias medievais, é um tema ainda em aberto na atual investigação científica.
São várias as propostas relativas à sua natureza e intenção, cronologia e, sobretudo, quanto à correspondência que deve ser feita entre as rotas descritas e a rede viária efetivamente existente no território em época romana. Para tentar ultrapassar essas dificuldades de interpretação, parece relevante entender a natureza topológica do Itinerario de Antonino e procurar compreender a estrutura de dados que apresenta. Neste sentido, faz-se uma revisão da informação disponível para definir, no território, um percurso plausível do itinerário, fundamentado em dados de natureza arqueológica, epigráfica e histórica. A partir da definição de um traçado e de uma faixa alargada em torno da representação convencional do eixo da via, procura entender-se a forma como o itinerário se articula com a ocupação e organização do território. A análise da informação tratada nesta perspetiva conduz à elaboração de uma proposta de interpretação da sequência de indicações miliárias para esta rota no Itinerário de Antonino: defende-se a tese que os numerais expressos nessas sequências correspondem às distâncias entre estações viárias, num esquema de contagem relativo a cada território administrativo que atravessa. Dito de outra forma, que as indicações miliárias se originam na sede de cada unidade territorial, irradiando desse caput uiae, nas diferentes direções das vias, até ao encontro do território da cidade contígua.

Emerita Augusta a Olisipo
Emerita Augusta a Olisipo
Emerita Augusta a Olisipo
Emerita Augusta a Olisipo

11/11/2017

Três coleções documentais portuguesas inscritas na «Memória do Mundo da Unesco»

As três colecções documentais candidatadas por Portugal ao Registo da Memória do Mundo foram já aprovadas e inscritas na lista da UNESCO: o Códice Calixtinus da Catedral de Santiago de Compostela e outras cópias medievais do Liber Sancti Jacobi, proposto conjuntamente por Espanha e Portugal – e que inclui uma cópia de 1175 proveniente do mosteiro de Alcobaça e hoje conservada na Biblioteca Nacional –, os Registos Oficiais de Macau durante a Dinastia Qing (1693-1886), que foram objecto de uma candidatura comum com a China, e o Livro de Registo de Vistos concedidos pelo Consul Português em Bordéus, Aristides Sousa Mendes (1939-1940). Os três conjuntos documentais integram os 78 bens recomendados pelo Comité Consultivo Internacional do programa Memória do Mundo, que esteve reunido em Paris no final de Outubro e cujas propostas foram depois endossadas pela ainda directora-geral da UNESCO Irina Bokova, que será rendida em breve pela ex-ministra da Cultura francesa Audrey Azoulay.
O códice compostelano é um manuscrito profusamente iluminado, dividido em cinco livros, dos quais os mais célebres são provavelmente os dois últimos: o quarto, muito difundido na Europa medieval, é uma narração da história de Carlos Magno, apresentado como descobridor da tumba do apóstolo São Tiago, e o quinto é o mais antigo guia que se conhece do Caminho de Santiago, com descrições do trajecto, inventariação de obras de arte a apreciar no percurso e conselhos de variada natureza aos peregrinos. A par dos manuscritos conservados na Galiza, datados de 1140 a 1170, a candidatura ao programa Memória do Mundo incluiu também uma cópia portuguesa do Codex Calixtinus, com data de 1175, e portanto coeva do códice de Compostela, embora iconograficamente menos rica. Fundamental para o conhecimento da cultura religiosa da Europa medieval, o códice galego é também um objecto único, antiquíssimo e de valor incalculável, mas há alguns anos receou-se que pudesse ter desaparecido para sempre. Roubado em Julho de 2011 da caixa em que estava guardado na catedral de Santiago de Compostela, reapareceu intacto em 2012 nas mãos de um electricista que trabalhava para a igreja.
Conhecidos como Chapas Sínicas, os Registos Oficiais de Macau durante a Dinastia Qing (1693-1886), designação usada na candidatura à Memória do Mundo da UNESCO, são uma compilação de mais de 3500 documentos, muitos deles redigidos em língua chinesa, que inclui, entre muitos outros papéis, nem todos de carácter oficial, uma vasta correspondência trocada entre as autoridades portuguesas e chinesas desde o final do século XVII quase até ao século XX. No seu conjunto, esta colecção, conservada na Torre do Tombo desde o século XIX, retrata com detalhe o peculiaríssimo papel que Macau desempenhou no mundo durante esses duzentos anos.
O mais recente dos três bens agora inscritos na Memória do Mundo é o registo dos vistos concedidos pelo cônsul português em Bordéus nos primeiros anos da II Guerra Mundial, Aristides de Sousa Mendes, que contra as ordens expressas do Governo do seu país, concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal a refugiados, sobretudo judeus em fuga da Alemanha nazi. Os nomes de muitas dessas pessoas constam nas colunas destes registos, conservados no Arquivo do Instituto Diplomático.
Com estas três entradas, a lista da Memória do Mundo inclui agora dez bens ligados a Portugal, num total de 427. Os outros sete são a Carta de Pero Vaz de Caminha, a colecção Corpo Cronológico – um conjunto de documentos produzidos entre os séculos XII e XVII, compilado no século XVIII por um guarda-mor da Torre do Tombo, Manuel da Maia –, o Tratado de Tordesilhas, os relatórios da primeira travessia aérea do Atlântico, por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, os arquivos dos Dembos, candidatados em conjunto com Angola (reúnem correspondência trocada entre as autoridades africanas da região dos Dembos, no norte do país, e as autoridades coloniais portuguesas), o Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama à Índia (1497-1499), e ainda dois manuscritos medievais portugueses – o Apocalipse de Lorvão e o Comentário ao Apocalipse do Beato de Liébana – que integram um conjunto de 11 manuscritos medievais peninsulares feitos a partir da obra do Beato de Liébana, que viveu no século VIII.

Calixtinus.
Ilustração do códice Calixtinus.

Chapas Sínicas
Documento que integra os registos de Macau.

Aristides de Sousa Mendes.
Uma página do livro de registos de vistos concedidos por Aristides de Sousa Mendes.

28/09/2017

Vergílio Correia (1888-1944)

Realiza-se na Torre do Tombo [TT] um encontro de especialistas:  «jornada de conferências Vergílio Correia (1888-1944): Um percurso ímpar na história, na cultura e nas artes».
Vergílio Correia, um dos arqueólogos que descobriu a cidade romana de Conímbriga, foi professor em Coimbra e deixou mais de 40 livros publicados e dezenas de artigos em jornais e revistas de que foi fundador, director ou simplesmente colaborador, como a Águia, a Terra Portuguesa, Arte e Arqueologia e o Diário de Coimbra.
Vergílio Correia: Um olhar fotográfico, mostra esquissos, desenhos, diários de campo, cartas, livros, artigos e um núcleo de cerca de 30 fotografias feitas por este republicano convicto, reputado antropólogo e historiador de arte, entre 1929 e 1934, núcleo em que se sobressai a sua preocupação em documentar o trabalho de camponeses, operários e artesãos. O acervo exposto permite voltar a olhar para o seu percurso singular e resulta da combinação de dois arquivos relativos ao académico de Coimbra: o que pertence ao Centro de Estudos Vergílio Correia, em Condeixa-a-Nova, em que se destacam quase mil negativos em vidro que até há bem pouco tempo estavam nas mãos da família e que estão hoje a ser estudados por Miguel Pessoa e Lino Rodrigo; e o que a TT comprou na primeira metade da década de 2000, que foi recentemente disponibilizado ao público e cujos fundos a investigadora Vera Mariz e o historiador de arte Vítor Serrão começaram a explorar há pouco mais de um ano.
Nascido na Régua em 1888, Vergílio Correia forma-se em Direito por pressão familiar e chega a trabalhar um ano como notário, profissão que abandona de imediato para consagrar a vida ao conhecimento, contribuindo para a formação de gerações enquanto professor na Universidade de Coimbra e dedicando-se à escrita em áreas menosprezadas por muitos (como as artes decorativas e as artes populares), e a inventários e museus (foi conservador de Arte Antiga e director do Machado de Castro). Intelectual sem actividade política, mas acérrimo defensor dos valores republicanos da liberdade e do acesso à educação e à cultura, maçon e agnóstico, chegou a estar preso no Aljube oito dias quando, no começo da década de 1930, foi acusado de apoiar o comandante Aragão e Melo, opositor à ditadura, e de dar abrigo a um refugiado político. À data da prisão já era director do Museu Machado de Castro e um académico respeitado.
Sem deixar de escrever sobre o tear ou o carro de bois, na história de arte deixou obra em temáticas diversas, da tumulária gótica à talha barroca, passando pela escultura e a pintura do Renascimento, a acrescentar aos dois volumes do Inventário Artístico de Portugal a que esteve ligado e em que a fotografia desempenha um papel primordial (escreve o grosso do tomo dedicado ao Distrito de Coimbra, mas é o seu colaborador directo, António Nogueira Gonçalves, quem escreve o da Cidade de Coimbra). Editados pela Academia Nacional de Belas Artes, no âmbito de um programa de levantamento de todo o território que começa a ser desenhado em 1938, os volumes do Inventário têm em Vergílio Correia um dos primeiros autores. O seu trabalho é o resultado de campanhas concretizadas com notável dedicação por um homem de uma cultura superior que dominava, de modo invulgar, a História da Arte, a Arqueologia ou a Etnografia, sem esquecer a Fotografia. E para o provar basta constatar, acrescenta, como em apenas um trimestre de 1939, Correia e o irmão, seu colaborador, fazem 900 registos de monumentos e obras de interesse arqueológico, artístico ou histórico, percorrendo 1500 quilómetros.
Quando morreu, aos 55 anos, na sequência de uma queda do eléctrico, em Coimbra, tinha o ano todo planeado, incluindo uma viagem a Itália. Estava empenhado em dar continuidade ao Inventário Artístico de Portugal e, muito provavelmente, ainda não desistira de escrever uma grande monografia sobre Conímbriga. Não é por acaso que o escritor Miguel Torga, no seu Diário, lhe chama «Vergílio dos Cacos».
Professor Vergílio Correia
Vergílio Correia (Peso da Régua, 19 de Outubro de 1888 – Coimbra, 3 de Junho de 1944).

26/09/2017

Será Pedro Ataíde o navegador Cristóvão Colombo?

Cristóvão Colombo transformou-se num homem com mil caras. Já foi um tecelão genovês, um bastardo português, grego ou espanhol, catalão ou galego e muitos outros estrangeiros num só homem. A confusão é imensa e o próprio Cristóvão não ajudou. Ele que nunca quis que se falasse nas suas origens e que nunca assinou o seu nome em nenhum documento.
Fernando Branco mergulhou numa história com séculos que é um dos mais intrigantes mistérios da época dos Descobrimentos. Em 2012 escreveu um livro com o título Cristóvão Colón, Nobre Português. O investigador defende que o navegador foi um corsário português chamado Pedro Ataíde, apresentando mais de meia centena de pontos comuns entre os dois. Actualmente, espera apenas uma autorização para abrir os túmulos da família dos Ataídes, em Castanheira do Ribatejo (Vila Franca de Xira). As análises ao ADN, que serão da responsabilidade da antropóloga forense Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra, podem provar que estava correcto ou desmenti-lo. Desde há muito tempo que historiadores e investigadores discutem sobre as origens do navegador que descobriu as Américas. Até hoje, não foi encontrada nenhuma prova ou documento que não deixe, pelo menos, uma pequena margem para dúvidas.
Na biografia Historia del almirante Don Cristóbal Colón escrita pelo seu filho Fernando (ou Hernando), esconde-se a sua origem. O filho de Colombo justifica que o pai não queria que se soubesse onde nasceu. O mais importante seriam os seus feitos na História. O espaço em branco imposto pelo próprio Cristóvão Colombo acabou por ser preenchido com a narrativa mais popular de que será italiano, mais especificamente um genovês nascido em 1451. Mas a versão que prevaleceu está longe de ser consensual. Fernando Branco considera que esse Cristóvão Colombo genovês [Cristoforo Colombo] era um tecelão, sempre foi um tecelão e não pode, de maneira nenhuma, ser o almirante porque se conhecem as histórias de ambos.
Mas se não era genovês, era o quê?
Mascarenhas Barreto defende que Cristóvão Colombo foi um filho bastardo de D. Fernando, irmão de D. Afonso V. Mas, considera Fernando Branco, não há documento nenhum que prove que o D. Fernando tenha tido um bastardo.
Existem outras teorias. A hipótese de um luso-americano, Manuel Rosa, defende que houve um imperador da Polónia ou Lituânia que a história diz que morreu numa batalha contra os turcos mas que ele diz que, afinal, não morreu, mas que veio para Portugal e teve um filho chamado Segismundo que terá nascido em Cuba, no Alentejo. De acordo com esta teoria este filho seria Cristóvão Colombo.
Existe também a teoria dos irmãos Mattos e Silva que dizem que era mais um filho bastardo de uma irmã de D. Afonso V. Ou a versão do livro de Manuel Luciano da Silva e da sua mulher, Sílvia Jorge da Silva, que coloca o navegador a nascer em Cuba, no Alentejo, e que inspirou o filme de Manoel de Oliveira: Cristóvão Colombo, o enigma.
Fernando Branco quando iniciou a investigação começou por definir quais eram as coisas-base que essa personagem, se fosse português, tinha de ter. E há, à partida, uma coisa que é muito importante. Cristóvão Colombo teve dois irmãos. Assim, quando pensamos num Cristóvão Colombo português, temos de arranjar, pelo menos, três pessoas. Além dos irmãos é também preciso encontrar alguém que tem uma história de mar significativa. Tem ainda de ser uma pessoa ligada à nobreza. As principais famílias de nobreza estão todas representadas no tecto do palácio de Sintra, onde estão todos os brasões daquela altura. Um destes brasões há-de estar ligado ao Cristóvão Colombo. Tem de ser solteiro ou viúvo em 1479 porque é o ano em que casa com a sua esposa portuguesa. E com estas pistas, Fernando Branco procurou um “suspeito”. Há um texto escrito por um historiador dos reis católicos, um professor catedrático em Salamanca, que diz claramente num livro que quem descobriu a América foi um indivíduo chamado Pedro Colón. Eis o Pedro. A referência à existência de um Pedro Colón é feita por mais historiadores, de Gaspar Frutuoso a Diogo do Couto (que escreveu com João de Barros as Décadas da Ásia). Procurando Pedro Colón, só encontrou um documento que o refere. É um corsário que aparece numa folha de pagamentos do D. Afonso V. Existem crónicas que dão Pedro Colón como morto numa violenta batalha nas águas do mar, a sul de Portugal, em Agosto de 1476, e que ficou conhecida como Batalha de S. Vicente. Mas Fernando Branco acredita que o tal corsário não morreu ali, que se salvou a nado. Rui de Pina (cronista que descreveu esta batalha), por alguma razão, ou se enganou ou mentiu, mas é muito estranho que no preciso instante em que desaparece um Pedro Colón nasce um Cristóvão Colombo.
Fernando Branco considera que o livro que escreveu foi sobre a vida deste Pedro Ataíde. Era um indivíduo da alta nobreza, descendente de almirantes portugueses. Afirma ter encontrado sessenta indícios comuns entre a vida deste Pedro Ataíde e a vida do Cristóvão Colombo. Por exemplo: O Cristóvão Colombo, quando regressa da América da primeira viagem, pára na ilha de Santa Maria, nos Açores, onde estava um indivíduo que o conhecia muito bem e que se chamava João da Castanheira. Colombo escreve esta informação no seu diário. Como é que o conhecia? Ora, o João da Castanheira era o senhor João da povoação da Castanheira [Castanheira do Ribatejo}, que é a terra dos Ataídes.
Fernando Branco tem mais argumentos para sustentar a sua hipótese. Mas, tal como muito outros historiadores, não tem qualquer documento que sirva de prova. Faltam documentos e por isso é preciso juntar peças de um puzzle construído com crónicas escritas há séculos, cartas supostamente escritas pelo navegador ou a ele dirigidas e muita imaginação. Em Portugal, confirma o investigador, não há um único documento que refira o Cristóvão Colombo.
Agora, o plano é usar o resultado de análises feitas a uma parte dos ossos que pertencerão a Cristóvão Colombo e que estarão guardados em Sevilha e comparar estes dados com exames ao ADN dos esqueletos que estão na Quinta de Santo António, em Castanheira do Ribatejo, onde a família dos Ataídes os enterrou. Do Pedro Ataíde não existe esqueleto, nem ADN, nem nada. Porque ele ou se transformou em Cristóvão Colombo e está em Sevilha ou ficou no fundo do mar durante a Batalha de S. Vicente. Mas podemos vir a ter o ADN de um tio dele por via masculina ou de um primo direito, uns Ataídes que estão no panteão dos Ataídes em Castanheira do Ribatejo.
Fernando Branco vai tentar obter o ADN de António Ataíde (que seria primo direito de Pedro) e de Alvaro Ataíde (tio) e comparar com o ADN de Fernando, filho do Cristóvão Colombo. O processo até conseguir a autorização da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) para abrir os túmulos daquela família é uma longa história. A abertura do túmulo é um processo extremamente complexo. Basicamente é uma caixa, mas tem em cima três tampas sobrepostas e cada uma pesa quase uma tonelada. Foi preciso fazer alterações ao projecto que obrigaram a um novo pedido dirigido à DGPC. Agora só falta esta derradeira autorização para abrir o túmulo, algo que Fernando Branco espera que aconteça no próximo mês de Outubro. Com o túmulo fechado com três pesadas tampas em cima, está tudo em aberto. Não sabemos o que lá está nem como está. A análise depende disso. Os corpos podem estar esqueletizados, mumificados, fragmentados, reduzidos a fragmentos. Pode haver vestígios de roupas e/ou objectos. Será determinado o número de indivíduos presentes no túmulo e feita a sua individualização. Posteriormente, cada um será analisado com vista ao conhecimento do sexo, idade à morte, origem geográfica e estatura. Também será efectuada a perscrutação de eventuais doenças.
No entanto, a análise pode ser inviabilizada pela fragmentação extrema dos ossos ou a má preservação dos restos humanos. Também pode ser possível recolher ossos masculinos e com um perfil idêntico ao esperado e não se conseguir extrair material genético. Neste caso não se conseguiria uma resposta para a hipótese formulada. Se o túmulo estiver vazio, também não.
Se reconstruir um passado já parece um exercício tão complexo, não adianta sequer tentar fazer qualquer previsão de futuro. A única coisa que parece certa é que a discussão sobre as origens de Cristóvão Colombo vai continuar e que este navegador liderou a frota conhecida pela descoberta da América, como nos contam os nossos livros de História. Ou será que também isso é discutível? No seu túmulo em Sevilha, Cristóvão Colombo terá deixado um pedido por escrito: “Espero não ser confundido eternamente”.
Retrato de Colombo e sua assinatura
Retrato de Cristóvão Colombo e a sua assinatura encriptada.
Convento de Santo António - Castanheira do Ribatejo
Convento de Santo António em Castanheira do Ribatejo
Capela em Castanheira do Ribatejo
Capela da família Ataíde em Castanheira do Ribatejo.