21/11/2021

João Cândido e a revolta da chibata no Brasil

João Cândido (1880-1969), marinheiro negro, liderou a revolta, conhecida como revolta da chibata, que teve o seu início em 22 de novembro de 1910, contra a permanência dos maus tratos, baixos salários e deploráveis condições de trabalho na estrutura militar brasileira. Este ano é o protagonista da Bienal de São Paulo e existe a proposta do Senado para que seja inscrito no livro dos heróis e heroínas do povo brasileiro.

Como consequência de liderar este motim foi encarcerado e, durante esse período, bordava durante horas. Os seus trabalhos estão expostos na Bienal de S. Paulo e denunciam a brutalidade da reação das hierarquias militares e políticas. Existia na marinha a tradição de bordar, pois era necessário remendar a roupa ou as velas durante a navegação.

João Cândido esteve quinze anos alistado na marinha que mantinha tradições que permaneciam do contexto esclavagista, nomeadamente, no tratamento a que estavam sujeitos os antigos escravos e os seus descendentes. A consciência da injustiça ficou mais evidente com o contacto com a realidade europeia, observando o modo de funcionamento de outras armadas no que respeita aos direitos dos marinheiros.

Em 22 de novembro de 1910, os navios de guerra São Paulo e Minas Gerais, comprados no Reino Unido, e dois outros navios (o Deodoro e o Bahia), foram apreendidos por 3000 marinheiros que exigiam aumentos salariais, melhor alimentação e condições de trabalho e o fim dos castigos físicos. Nesta revolta morreram vários oficiais e a cidade do Rio de Janeiro foi bombardeada. No dia 26 de novembro o governo do Marechal Hermes da Fonseca (1855-1923) cedeu às reivindicações dos revoltosos, terminando com a revolta da chibata. Os amotinados beneficiaram de uma amnistia, sendo, posteriormente, expulsos da marinha. João Cândido e cerca de duas dezenas de marinheiros, considerados cabeças de motim, foram encarcerados no presídio da Baía da Guanabara, tendo ele sido dos poucos que sobreviveu às péssimas condições da prisão.

Este marinheiro negro e analfabeto, que também ficou conhecido como o Almirante negro, no Brasil do início do século XX, tinha-se revelado um líder carismático e respeitado pelos seus pares. Liderou uma insubordinação militar tendo por objetivo reivindicações laborais, numa época em que não existiam sindicatos ou o direito à greve, enfrentando as hierarquias militares e políticas que ainda utilizavam a violência como principal instrumento opressor. Desta revolta resultou o fim dos castigos corporais nas estruturas militares, realidade que não se coadunava com uma república moderna. Foi deste modo que João Cândido se tornou no símbolo do movimento pelos direitos laborais e uma memória na luta contra os resquícios de práticas que prolongavam hábitos do período esclavagista.

Apesar de ter desembarcado vitorioso há 111 anos, foi sujeito a uma pena de prisão e, após a sua libertação, a um ostracismo social, vivendo da pesca e da solidariedade de outros marinheiros. Apesar de ter aderido em 1932 à Ação Integralista Brasileira, movimento nacionalista que apoiava soluções políticas ditatoriais, a sua memória foi resgatada com a presidência de Lula da Silva. Foi erigida uma estátua na praça XV do Rio de Janeiro, um local que foi mercado de escravos e onde se situa o palácio em que a princesa Isabel (1846-1921) assinou a lei áurea. Se a proposta do Senado for aprovada João Cândido integrará o panteão dos heróis brasileiros.

Marinheiros rebeldes na coberta do navio de guerra «São Paulo» com uma bandeira em que se pode ler «Viva a Liberdade»

Fim da revolta anunciado na primeira página do diário carioca Correio da Manhã (28/11/1910)
O lenço bordado «Amor», que João Cândido coseu na prisão e que está exposto na bienal de São Paulo (2021)

18/11/2021

Fotografias dos vestígios arqueológicos de Collippo

Fotografias dos vestígios da antiga cidade romana de Collippo que se localizava  no monte de São Sebastião do Freixo, nos limites do concelho de Leiria e Batalha.

Na década de 60 do século passada estes vestígios foram muito afetados durante a plantação de vinha e, atualmente, os seus limites são  desconhecidos. Durante séculos as pedras da antiga cidade foram reutilizadas para a construção de outras estruturas como o Castelo de Leiria.

O sítio teve assento um antigo povoado da Idade do Ferro, sucedendo-lhe a cidade romana de Collipo, referida por Plínio, o Velho, (Estabias, 23- Nápoles, 79 d.C.) na sua Naturalis Historia (História Natural, capítulo 35, Lusitânia) [c. 77-79 d.C.].

«A Durio Lusitania incipit: Turduli veteres, Pæsuri, flumen Vagia, oppidum Talabrica, oppidum et flumen Aeminium, oppida Conimbrica, Collipo, Eburobritium [...]» 

A fundação da cidade, com uma posição dominante sobre os vales férteis dos principais rios da região: o Lena e o Lis, remonta provavelmente ao século IV a.C.. Em meados dos século passado, foi descoberto um mosaico a preto e branco com a figuração do hipocampo (criatura mitológica partilhada pela mitologia fenícia e grega. Tem tipicamente sido descrito como cavalo na parte anterior do seu corpo e peixe na parte posterior com a cauda escamoso, como um cavalo-marinho). As sucessivas intervenções de emergência no local permitiram identificar a existência de um forno, de uma inscrição funerária, de estátuas em mármore e de estruturas habitacionais. Em época indeterminada, na Idade Média, edificou-se uma Igreja.
Fotografias dos vestígios arqueológicos de Collipo

05/11/2021

Escavações arqueológicas próximas do castelo de Leiria

Um troço de calçada romana, um silo com peças dos séculos IX a XII, muros e fundos de cabanas da Idade do Ferro e uma moeda islâmica em ouro, são alguns dos muitos vestígios arqueológicos postos a descoberto pelas obras em curso no largo de São Pedro (Leiria).

O conjunto de vestígios detetados atravessam várias épocas, desde a pré-história (Idades do Ferro e do Bronze), passando pelos períodos romano e medieval.

Das épocas mais recuadas, destaque para a descoberta de fossas de finais da Idade do Ferro,  junto ao arco de entrada no largo de São Pedro, bem como muros, fundo de cabanas com estruturas em pedras, buracos em poste e barro, indicativas de uma forte ocupação do local nesse período. As escavações permitiram exumar materiais líticos, fauna e cerâmicas , incluindo fragmentos de importação, datados da Idade do Ferro. Do período romano, está já identificado um troço de calçada com caneiro, relacionado com esse achado, existem vários alinhamentos de muros de habitações. Do mundo islâmico, apenas foi exumada uma moeda em ouro – um dinar almorávida do ano 1122 –, um fragmento cerâmico com pintura a branco e dois fragmentos de azulejo hispano-árabe em corda seca. A falta de material islâmico vem corroborar a teoria de que Leiria tem muito mais ligações ao mundo cristão do norte do que ao mundo islâmico do sul neste período da idade média. No decorrer dos trabalhos foi também possível intervencionar vários espaços e estruturas da época medieval, entre as quais um silo em forma de saco com cerca de dois metros de profundidade, com várias peças com formas entre os séculos IX e XII. Ainda da Idade Média, as escavações puseram a descoberto um troço de muralha dessa época sob o arco da torre sineira, níveis de ocupação com fornos e níveis de combustão ligados a pequenas forjas.

Foram identificados mais de 80 esqueletos nas ossadas da necrópole associada à Igreja de São Pedro, sendo que dois indivíduos não são «europeus». Os enterramentos mais recentes são, na sua maioria, em covacho (pequena cova) sem qualquer tipo de delimitação de sepultura, enquanto nos mais antigas há sepulturas escavadas em sedimento argiloso com algumas peles a delimitá-las. Do espólio funerário, os arqueólogos destacam ainda a descoberta de contas de terço e alguns numismas [moedas cunhadas].

A escavação ainda está a decorrer, assim como o estudo dos materiais exumados e das estruturas identificadas.

Escavações a decorre no Largo de S. Pedro, junto ao castelo de Leiria

28/10/2021

Uma nova espécie humana ancestral - o Homo bodoensis

Foi anunciada uma nova espécie ancestral de humanos, o Homo bodoensis, que pode ser determinante para o conhecimento da evolução humana há cerca de meio milhão de anos. O Homo bodoensis viveu em África durante o período do Pleistoceno Médio, há cerca de meio milhão de anos, e pode ser considerado um antepassado direto dos humanos modernos. No Pleistoceno Médio surgiu o homo sapiens em África (tendo chegado à Europa há cerca de 45 mil anos) e do homo neanderthalensis na Europa. No entanto, o capítulo da evolução humana nesta época é ainda mal compreendido, um problema que os paleoantropólogos chamam de «confusão do meio», considerando que o anúncio do Homo bodoensis pode agora ajudar a clarificar. A nova designação é baseada numa reavaliação dos fósseis desse período descobertos em África e na Eurásia. O nome bodoensis deriva de um crânio encontrado em Bodo D'ar, na Etiópia, e deverá ser aplicada aos humanos do Pleistoceno Médio de África e a alguns do sudeste da Europa, enquanto muitos do continente europeu serão reclassificados como Neandertais.

Homo bodoensis viveu em África durante o período do Pleistoceno Médio, há cerca 500 mil anos.