08/04/2016

O enigma da rota de Aníbal pelos Alpes há mais de 2000 anos

Foi há mais de 2000 anos que o general cartaginês Aníbal Barca e o seu exército, com elefantes e cavalos, atravessou os Alpes e invadiu a Península Itálica, derrotando as forças romanas. Um dos maiores enigmas da história é a rota escolhida em 218 a.C. para a difícil travessia dos Alpes. Afinal, que caminho seguiu Aníbal? Um grupo de investigadores de vários países e várias áreas científicas anunciou esta semana uma descoberta que ajuda a responder a esta questão. Tão surpreendente (ou até mais) quanto a conclusão é a forma como conseguiram chegar até ela: foi através da análise do chão, onde se encontraram sinais dos dejectos dos milhares de animais que Aníbal levava com o seu exército, que se chegou ao rasto do general cartaginês nos Alpes. São as primeiras provas apresentadas e que apontam para uma rota a sul.
A história é apaixonante e resume-se assim: há muitos, muitos anos, um corajoso general cartaginês chamado Aníbal Barca iniciou uma difícil viagem que alguns diziam ser impossível. Com o seu exército de 30.000 soldados e com 15.000 cavalos e 37 elefantes partiu da Hispânia (nome dado pelos romanos à Península Ibérica) decidido a invadir a Itália. Pelo meio, havia a “impossível” travessia dos Alpes. Aníbal não só conseguiu atravessar os Alpes como entrou em Itália e conseguiu que a invencível força de Roma caísse derrotada a seus pés. E assim se fez História.
Porém, já se sabe, os investigadores nunca estão satisfeitos e querem também o impossível: ter todas as respostas, para todas as perguntas. Com eles, a história nunca acaba. Um dos maiores enigmas desta história é a rota que Aníbal escolheu por entre os Alpes. É imperioso saber isso, argumentam os investigadores, para identificar locais de interesse arqueológico e para os estudar. E, claro, para desvendar esse enigma.
A travessia de Aníbal remonta a 218 a.C., altura da Segunda Guerra Púnica. Cartago, na actual Tunísia, era o principal rival militar de Roma. Passados mais de 2000 anos, os historiadores, geólogos, arqueólogos e outros investigadores terão chegado a um consenso sobre três possíveis caminhos escolhidos por Aníbal. Agora, uma equipa de investigadores de vários países (incluindo o geólogo português Pedro Costa) encontrou provas que apontam para uma das rotas (a que está situada mais a sul) como a mais provável.
Estes investigadores, que publicaram dois artigos científicos na revista Archeometry, analisaram o chão de uma zona já considerada “suspeita”, um pântano numa planície próxima da Passagem da Traversette (Col de la Traversette, em francês) e relativamente perto do Monte Viso. O local desta pequena depressão que acumula água foi escolhido por garantir que estaria preservado, não teria sido vítima de derrocadas de pedras nem tinha sofrido grande alteração ao longo do tempo. A cerca de 3000 metros acima do nível do mar, os investigadores escavaram naquele. Camada por camada, foram usando a datação por radiocarbono para dar “uma idade” a cada fatia do chão. Chegaram à camada que correspondia a uma datação de há 2200 anos. Era um pedaço de terra mais escuro, mais denso. Tinha sinais de contaminação e vestígios de dejectos de animais, muito superiores aos que é provável encontrar num “chão normal”. Em vez de um limite máximo de 5% dos vestígios do ADN de um grupo de bactérias anaeróbicas (Clostridia) que é característica do estrume de cavalo, encontrou-se ali (e só naquela densa fatia de terra) mais do dobro, cerca de 12 %. Acima ou abaixo daquela camada, a presença de Clostridia caía significativamente. Mais: outros elementos da equipa olharam para química dos sedimentos e detectaram outros biomarcadores fecais (a molécula epicoprostanol, por exemplo) relativamente bem preservados que atingiam um máximo na fatia de terra com a data da travessia de Aníbal. Os resultados constituem a primeira prova química e biológica da passagem de uma elevado número de mamíferos, possivelmente indicando a rota do exército de Aníbal nesta altura.
Está desvendado o enigma da rota de Aníbal? Não, ainda não. Falta saber o resto do caminho que fez. Aparentemente, esta descoberta descarta a hipótese de uma das rotas, situada mais a norte dos Alpes. Porém, não afasta totalmente um outro caminho que passaria algures pelo meio. “Só” aponta para uma mais provável escolha de Aníbal pela rota mais a sul, proposta há meio século pelo biólogo britânico Gavin de Beer. Esta rota, aliás, era a aposta já conhecida do principal investigador desta equipa. William Mahaney, investigador do Departamento de Geografia da Universidade de York (em Toronto, no Canadá), é o primeiro autor dos dois artigos do grupo internacional de investigadores e já escreveu vários artigos e até romances científicos sobre o assunto.
Os artigos agora publicados colocam Mahaney e a equipa mais perto de um final feliz mas a história ainda não acabou. Para já, adianta Pedro Costa, Mahaney e alguns elementos da sua equipa terão sido desafiados a tentar fazer a mesma rota de Aníbal em 2017, acompanhados por uma equipa de uma cadeia de televisão. Falta agora fazer análises mais detalhadas aos sedimentos encontrados na camada do chão que guarda o rasto de Aníbal para poder dizer, com a maior certeza possível, que se trata de dejectos equinos e não humanos.
E o que aconteceu a Aníbal? Dizem que acabou, vários anos mais tarde, por ser traído e envenenado por um dos seus companheiros da histórica viagem e vitória. Afinal, o maior perigo para Aníbal não estava numa impossível travessia pelos Alpes, com elefantes e cavalos, nem na invencível força dos romanos.
Travessia dos Alpes por Aníbal
Cientistas nos Alpes à procura do rasto do exército de Aníbal.

05/04/2016

Centenário do Milagre de Tancos

O Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha acolhe, no dia 9 de Abril - dia em que se assinala a passagem dos 98 anos da batalha de La Lys, durante a Primeira Guerra Mundial - o congresso comemorativo do Milagre de Tancos que pretende reflectir sobre o acontecimento mais marcante no que respeita à preparação militar do Corpo Expedicionário Português (CEP) antes de, em janeiro de 1917, ter embarcado para a Flandres para lutar ao lado dos Aliados.
Após a declaração de Guerra a Portugal emitida pela Alemanha a 9 de Março de 1916, seguida de uma instrução militar dispersa, o polígono de Tancos concentrou a preparação militar do CEP. Entre Abril e Junho ali se reuniram cerca de 20 mil soldados numa cidade improvisada de "Paulona".
A esta instrução se deu o nome de "Milagre de Tancos" ministrada sob o comando do General Norton de Matos, secundado pelo general Tamagnini de Abreu.
Os trabalhos pretendem, entre outos aspectos, fazer uma caracterização do contexto político, económico e social português em 1916, justificar a participação de Portugal na 1.ª Guerra Mundial bem como avaliar as consequências desta participação e, por fim, avaliar o carácter "milagroso" da preparação militar de Tancos.
A iniciativa pertence ao Agrupamento de Escolas de Vila Nova da Barquinha, município de Vila Nova da Barquinha e da Liga dos Combatentes. Os trabalhos decorrerão durante todo o dia, com o seguinte programa:
09.30h - 10.00h - Sessão de boas vindas - Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha
10.00h - 10.30h - Prof.ª Lia Ribeiro, AEVNB, "1916 - O ano do milagre"
10.30h - 11.15h - Coronel Carlos Matos Gomes, "O imaginário português e a I Grande Guerra"
11.15h - 11.30h - Intervalo
11.30h - 12.15h - Coronel Luís Alves de Fraga, UAL, "Roberto Baptista: Da Divisão de Instrução ao CEP"
12.15h - 13.00h - Coronel Aniceto Afonso, IHC - UNL e Coronel Jorge Costa Dias, "As comunicações em campanha - Da Divisão de Instrução à instalação do CEP"
13.00h - 14.30h - Almoço livre
14.30h - 15.00h - Inauguração da "exposição iconográfica sobre o Milagre de Tancos" e Exposição Fotográfica "Alusiva ao 1.º centenário da I Grande Guerra" - Galeria Santo António
15.00h - 17.30h - Visita ao polígono militar de Tancos dirigida pelo Diretor do Museu Militar de Lisboa, Coronel Inf., Luís Albuquerque
Militares do CEP em exercícios de tiro em Tancos.

Novos dados relativos ao Homo floresiensis

Numa nova reviravolta, o homem das Flores volta a surpreender-nos, ao ver agora a idade dos seus fósseis corrigida. Afinal, esta espécie humana não viveu até há 12 mil anos, o que significava que teria coexistido com a nossa própria espécie e terá mesmo desaparecido muito tempo antes disso. Uma nova datação dos ossos do homem das Flores e dos sedimentos onde se encontravam concluiu que os fósseis desta espécie humana — descobertos em 2003 na gruta de Liang Bua, na ilha das Flores, na Indonésia — têm afinal cerca de 60 mil anos. Esta revisão da idade dos exemplares do homem das Flores, apontando-lhe mais quase 40 mil anos do que se considerava antes, é publicada na revista Nature por uma equipa internacional de cientistas, que fez mais escavações arqueológicas na gruta de Liang Bua, entre 2007 e 2014. E vem baralhar de novo o quebra-cabeças da evolução humana. Porquê? Porque há cerca de 50 mil anos a nossa espécie, o Homo sapiens, que já tinha saído de África e estava a espalhar-se por todo o planeta, já se tinha aventurado até às ilhas do Sudeste asiático, onde se localiza a ilha das Flores, e estava mesmo a chegar à Austrália. Também se dirigia para a Europa, onde chegaria há aproximadamente 40 mil anos. Ora a correcção na idade dos fósseis do homem das Flores tem implicações na história das migrações humanas: as duas espécies (eles e nós) podem ter coexistido no tempo, mas será que chegaram a encontrar-se?
A descoberta do homem das Flores, em Agosto de 2003, foi uma surpresa e lançou confusão na árvore evolutiva humana, já de si confusa. Coordenada pelo arqueólogo Michael Morwood (já falecido), da Universidade de  Wollongong, na Austrália, essa equipa de cientistas australianos e indonésios encontrou os ossos de uma mulher — incluindo o seu crânio — no solo, a cerca de seis metros de profundidade, na gruta de Liang Bua. No ano seguinte, em Outubro, na revista Nature, a equipa anunciava a descoberta e defendia tratar-se de uma nova espécie de humanos. Começava aí a controvérsia, que tornou de imediato este achado mundialmente famoso. Antes de mais, porque até essa altura estávamos convencidos de que éramos, há muito mais tempo, os únicos humanos que restavam no planeta. Até aí, os neandertais eram considerados os nossos últimos companheiros, desaparecidos há cerca de 28 mil anos (e a Península Ibérica, depois de terem vivido por toda a Europa e Médio Oriente, foi o seu último refúgio). Ao fóssil da mulher que ocupou a gruta de Liang Bua atribuiu-se a idade de 18 mil anos. E, em camadas de sedimentos mais antigas e mais recentes, que então se pensava terem entre 95 mil e 12 mil anos, encontraram-se ainda restos fragmentados de outros indivíduos. Também havia ferramentas de pedra e ossos de animais já desaparecidos. Foram os ossos da mulher, em particular o crânio, que serviram de referência para identificar a nova espécie humana. O crânio era extremamente pequeno (cerca de 400 centímetros cúbicos de capacidade, idêntica à dos chimpanzés) e os ossos dos membros desta mulher, já adulta, revelavam que era muito baixa (1,06 metros). Em termos de aparência, recorda um comunicado da equipa que publica os novos resultados, ela assemelhava-se mais às espécies humanas que viveram em África e na Ásia entre há um e três milhões de anos. O nome da nova espécie: Homo floresiensis, ou homem das Flores. Como seriam indivíduos muito pequenos, os cientistas até consideraram atribuir-lhe o nome científico Homo hobbitus, numa alusão ao mundo imaginado por J.R.R. Tolkien em O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Informalmente, os membros da nova espécie são conhecidos por hobbits. No seu conjunto, os fósseis encontrados na gruta de Liang Bua permitiram aos cientistas dizer, na altura do anúncio da descoberta, que o homem das Flores teria surgido há cerca de 95 mil anos e que a sua existência se teria prolongado até há 12 mil anos, quando desapareceu. E, aí sim, teríamos ficado sozinhos, como espécie humana, no planeta. Mas na comunidade científica muitos duvidaram de que se trataria de uma nova espécie humana, sobretudo devido ao facto de o crânio ser muito pequeno, e esta questão esteve no centro da controvérsia. Houve quem considerasse que eram indivíduos da nossa espécie, o homem moderno — mas enquanto para alguns cientistas eles tinham microcefalia, um problema neurológico caracterizado por um crânio e um cérebro muito pequenos e deficiências mentais, para outros eram apenas pigmeus, uma vez que ainda hoje existem nas Flores populações de baixa estatura. Outros puseram ainda a hipótese de ser um Homo sapiens com síndrome de Down. Para a equipa da altura, porém, a ausência de queixo — uma característica única da nossa espécie — era uma prova de que os fósseis do homem das Flores não eram nem de um Homo sapiens microcéfalo nem muito baixo, mas sim de uma outra espécie. Vários estudos reforçaram esta tese, comparando, por exemplo, a forma do cérebro do homem das Flores com a de indivíduos da nossa espécie microcéfalos e saudáveis. Esta discussão parece estar um pouco mais calma nos últimos tempos.
Agora, Thomas Sutikna (da Universidade de Wollongong e do Centro Nacional de Investigação para a Arqueologia, na Indonésia) e os colegas, incluindo muitos da equipa original, regressaram ao homem das Flores com outro artigo. Desta vez, relatam que os últimos oito anos de escavações puseram a descoberto uma organização das camadas de sedimentos da gruta mais complexa do que se pensava. O que permitiu corrigir a idade dos fósseis. “Durante as nossas escavações originais não nos apercebemos de que os depósitos do hobbit perto da parede leste da gruta tinham uma idade semelhante aos do centro da gruta, que tínhamos datado com cerca de 74 mil anos”, explica Thomas Sutikna, no comunicado de imprensa. “À medida que todos os anos alargávamos a escavação original, tornou-se cada vez mais claro de que havia um grande ‘pedestal’ de depósitos mais antigos que tinha sido separado [dos outros sedimentos] por erosão da superfície e que estava bastante inclinado em direcção à entrada da gruta.” Acontece que aquela superfície erodida da gruta foi coberta por sedimentos mais recentes, nos últimos 20 mil anos. “Infelizmente, no início pensava-se que as idades desses sedimentos sobrepostos se aplicava aos restos do hobbit, mas a continuação das nossas escavações e análises revelou que esse não era o caso”, diz outro dos autores do trabalho, Wahyu Saptomo, do Centro Nacional de Investigação para a Arqueologia indonésio.
O retrato aperfeiçoado das camadas de sedimentos da gruta de Liang Bua, que revela que os depósitos não estão distribuídos de forma uniforme, bem como datações dos vestígios arqueológicos, por vários métodos, vêm assim contar uma nova história. “Datámos carvão, sedimentos, mantos estalagmíticos, cinzas vulcânicas e mesmo os ossos do Homo floresiensis, utilizando os métodos científicos mais avançados disponíveis”, acrescenta o investigador que na equipa supervisionou as datações, Richard Roberts, da Universidade de Wollongong. “Na última década, melhorámos bastante o conhecimento sobre os depósitos acumulados em Liang Bua e o que isso significa para a idade dos ossos do hobbit e das ferramentas de pedra.”
Resultado: as datações de todos os restos ósseos do Homo floresiensis concluíram que, afinal, têm entre 100 mil e 60 mil anos, e que as ferramentas de pedra cujo fabrico é atribuído a esta espécie vão até aos 50 mil anos. “Se o Homo floresiensis sobreviveu de há 50 mil anos para cá — encontrando potencialmente outros humanos modernos nas Flores ou outros hominíneos que se espalhavam pelo Sudeste da Ásia, como os denisovanos [descobertos só em 2008 na gruta Denisova, nos montes Altai, na Sibéria, e que viveram até há 30 mil anos] — é uma questão em aberto”, lê-se no artigo científico.
Com quem se cruzou e quando é que nos deixou exactamente são agora perguntas que ficam para os próximos capítulos da incrível história da evolução humana.
Últimos trabalhos arqueológicos, entre 2007 e 2014, na gruta de Liang Bua, na ilha das Flores.
Crânio da mulher encontrada na ilha das Flores, que serviu de
referência à identificação da nova espécie Homo floresiensis.

22/03/2016

Cartazes sobre a história da promoção das condições de trabalho

Mensagens diretas, direcionadas para a protecção individual, algumas moralistas, com o bem e o mal ilustrados sem rodeios e com um grafismo neo-realista muito marcante. Eram assim os cartazes produzidos para uma das primeiras campanhas nacionais de prevenção de acidentes de trabalho e de doenças profissionais, promovida pelo Ministério das Corporações e Previdência Social, no final dos anos 1950.
Estes e outros cartazes foram agora reunidos pela Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT), por altura das comemorações do centenário do Ministério do Trabalho e da própria inspecção. Através deles é possível fazer uma viagem pela forma como tem sido tratada a segurança e saúde no trabalho desde meados do século XX e, inevitavelmente, pelos diversos organismos públicos que assumiram estas áreas.
Olhando para as quatro dezenas de cartazes que marcam o período entre 1959 e 1967, as preocupações estavam muito direccionadas para os comportamentos e para a protecção individual dos trabalhadores.
“Os primeiros cartazes ilustram a fase de desenvolvimento económico registada a partir de finais da década de 50 na sequência da adesão à Associação Europeia de Comércio Livre a (EFTA) e a fase de namoro com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), numa tentativa do Estado Novo contrariar o isolamento em que se encontrava.
Essa primeira campanha surge, precisamente, nos anos que antecederam a adesão de Portugal à EFTA (1960) e a ratificação da Convenção 81 da OIT, relacionada com a inspecção do trabalho (1962).
O alvo das mensagens eram os trabalhadores da construção civil, dos caminhos-de-ferro, os operários, soldadores, mineiros e agricultores.
Muitos dos cartazes impressos na altura ilustravam de forma muito clara, e às vezes com humor, o lado negro dos comportamentos negligentes. “Use a cabeça para não a perder“, apela um dos cartazes. A imagem por si só diz tudo: um homem ao lado de uma carrinha, de fósforo aceso na mão, confirma se tem combustível no depósito; na parte inferior há uma campa onde se lê “Aqui jaz CUIZIKODY que acendeu um fósforo para ver se tinha gasolina no depósito… e tinha”. Outro pede aos mineiros que usem máscara e mostra, sem rodeios, o que acontece às vítimas de silicose. Há ainda outro que reproduz uma notícia de um jornal cujo título é “Operário ferido num desastre” para alertar: “Amanhã podes ser tu!”. Uma foice aparece, noutro exemplo, como um prenúncio da morte que espera os imprudentes.
As imagens usadas mostram também o enquadramento em que vivia a população portuguesa na época. Num dos cartazes um pé descalço arrisca picar-se num prego: “Pregos! Um perigo para os seus pés”. Outro cartaz alerta para a necessidade de proteger todos os trabalhadores sem excepção, dando a ideia de que as preocupações não eram iguais para todos: “Para o mesmo perigo a mesma protecção, os ajudantes precisam também de proteger os olhos e a pele”.
Havia uma grande preocupação com o sector da construção. É, de resto, em 1958 que é publicado o regulamento de segurança no trabalho nas obras de construção civil. Coincidindo com o êxodo dos campos para as grandes cidade e com a construção de bairros novos nas cidades de Lisboa e do Porto. Em 1962, coincidindo com a ratificação da convenção da OIT sobre a inspecção do trabalho, foi criado, no âmbito da Junta de Acção Social do Ministério das Corporações, o Gabinete de Higiene e Segurança do Trabalho.
Passados cinco anos, este gabinete lançou uma campanha de prevenção de riscos nas actividades rurais. O único cartaz identificado como sendo desta época é um marco importante na abordagem da segurança no ambiente rural que até aí não tinha sido ainda sensibilizado para a defesa da saúde e vida do seu trabalhador. Anos mais tarde, esta estrutura foi substituída pela Direcção de Serviços de Prevenção de Riscos Profissionais, responsável por desenvolver, até 1977, um conjunto de actividades de sensibilização. É também por essa altura que se começa a alertar os trabalhadores e as empresas para problemas que até então tinham tido pouco relevância, como o ruído.
Os cartazes perdem o grafismo neo-realista, as mensagens passam a ser mais simples, mas continuam muito direccionadas para a protecção pessoal: “Protege os ouvidos”, “Cuidado, a electricidade é perigosa!” ou “Proteja os seus pés!”. Os destinatários continuam a ser, sobretudo, os trabalhadores da construção civil, da agricultura e da indústria.
Em 1978, com a reorganização do Ministério do Trabalho, é criada a Direcção-Geral de Higiene e Segurança do Trabalho (DGHST). Esta estrutura vem dar um carácter mais institucional à intervenção do Estado nos domínios da higiene, segurança e prevenção de riscos. Continuaram a desenvolver-se acções de sensibilização e informação, mas agora de forma mais sistematizada.
Foram editados mais de uma centena cartazes originais e algumas reproduções do Institut National de Recherche et de Sécurité (França), considerado um organismo de referência e com o qual havia uma grande proximidade.
O grafismo vai-se depurando e a abordagem do problema da segurança no trabalho começa a ser mais sistematizada e integrada. Além das mensagens relacionadas com a protecção individual, começam a surgir outras. “Que fazer para o salvar? Tirar o curso de socorrismo do trabalho”, alerta um cartaz em que um trabalhador está deitado no chão.
O centro das preocupações continuam a ser os sectores da construção, da agricultura e da indústria. Em linha com o quadro legal vigente, o comércio, os serviços e os transportes estavam fora do campo de intervenção da DGHST.
A grande viragem na forma como se aborda a prevenção ocorre em meados dos anos 1980, já muito influenciada pelo período de pré-adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE).
A década de 1980, referem, iniciou-se com uma crise económica e financeira que levou a um pedido de auxílio ao Fundo Monetário Internacional e com o objectivo político de aderir à CEE. E este segundo aspecto teve reflexo “em todo um conjunto de medidas de modernização do quadro legal e institucional”. O domínio da segurança, higiene e saúde no trabalho não foi excepção. Em 1985/86 foram aprovados regulamentos para as Minas da Panasqueira e para os estabelecimentos comerciais, de escritórios e de serviços e foram ratificadas várias convenções da OIT, relacionadas com a poluição do ar e ruído no local de trabalho ou peso máximo de cargas a transportar pelos trabalhadores, num esforço que se prolongou até aos anos 1980.
Os cartazes mostram essas preocupações, com apelos dirigidos a esses riscos. “Faça calar o ruído” ou “Use máscara adequada”, eram algumas das mensagens que passavam. Surgem também por esta altura as sinalizações dentro do local de trabalho a alertar para a queda de objectos ou para o uso de luvas.
A sociedade continuava a evidenciar outros problemas que influenciavam a segurança no trabalho. Um cartaz de 1982 representava uma fábrica dentro de uma garrafa e um trabalhador embriagado: “Entra com álcool… sai com acidente”, lê-se.
A partir dos anos 1990 as campanhas passam a focar-se em sectores específicos e em problemas muito concretos. Ao longo dos anos 1990, o Instituto de Desenvolvimento e Inspecção das Condições de Trabalho (IDICT) – organismo que absorveu a DGHST, a inspecção do trabalho e a direcção-geral das relações de trabalho – lançou várias campanhas de prevenção de riscos profissionais na construção, agricultura e têxtil.
Em 1993 foi lançada uma campanha contra o trabalho infantil. O problema era sentido sobretudo no têxtil e calçado, além dos sectores onde o problema era “endémico”, como era o caso da agricultura. “Na minha idade o trabalho é na escola”, lia-se num cartaz da altura.
Contudo, esta parte da história ainda não está disponível para consulta no site da ACT. A intenção é continuar a traçar a história da promoção das condições de trabalho ao longo do ano, com a disponibilização dos restantes cartazes.
Cartaz relacionado com os trabalhadores agrícolas.

18/03/2016

câmaras secretas junto ao túmulo de Tutankhamon

Parece agora quase seguro que sempre existem duas câmaras secretas por trás do túmulo de Tutankhamon, no Vale dos Reis. Esta convicção surge reforçada pela informação de que dentro dessas câmaras existirão matérias metálicas e orgânicas. É isso que dizem as imagens do exame de radar realizado no final de 2015 pelo especialista japonês Hirokatsu Watanabe, sob a direcção do egiptólogo Nicholas Reeves. Existem duas salas por detrás das paredes oeste e norte da câmara funerária de Tutankhamon.
Estes resultados vêm dar mais força à hipótese avançada por Reeves de que as citadas câmaras guardam o túmulo de Nefertiti, a bela esposa de Akhenaton, pai de Tutankhamon, mas não necessariamente a mãe do faraó-menino que morreu com apenas 19 anos, em 1324 a.C. O egiptólogo tem defendido que a morte prematura de Tutankhamon obrigou os sacerdotes a improvisar um túmulo, o que terá sido feito naquele que, uma década antes, tinha sido destinado a Nefertiti. Daí a subdivisão do espaço em várias câmaras funerárias, com tamanhos e características diferentes dos túmulos dos restantes faraós. Mais comedido é al-Damati, ministro das Antiguidades egípcio, que admite que nas referidas câmaras funerárias poderá estar o túmulo de Kia, outra esposa de Akhenaton (e mãe de Tutankhamon), ou mesmo o de uma das suas filhas.

Tutankhamon
Túmulo de Tutankhamon (esquema).

15/03/2016

Primeiros neandertais viveram na Península Ibérica há 430.000 anos

O complexo quebra-cabeças da evolução humana acaba de ganhar mais uma peça vinda de Sima de los Huesos, na serra de Atapuerca, em Espanha. Neste poço natural com 13 metros de profundidade estão ossadas de 28 humanos que viveram há 430.000 anos. Uma nova sequenciação do ADN de ossos de dois humanos permitiu concluir que os indivíduos daquela população podem ser considerados os “primeiros neandertais”, segundo um estudo publicado ontem na revista científica Nature. “Eles são os primeiros neandertais (ou os mais velhos) ‘certificados’ pela análise do ADN”, explica Matthias Meyer, da equipa de Svante Pääbo, o famoso biólogo que se especializou em genética aplicada à evolução humana, do Instituto Max Planck, em Leipzig (Alemanha).
Nos últimos anos, tem-se debatido a espécie a que pertenciam os humanos de Sima de los Huesos. Primeiro, pensava-se que eram representantes do Homo heidelbergensis, um suposto antepassado directo dos neandertais. Parte da morfologia do crânio e os dentes desta população de Espanha já eram idênticos aos dos neandertais. Mas em 2013, a equipa de Svante Pääbo veio baralhar aquela ideia. Os cientistas fizeram a sequenciação mais antiga de sempre de ADN humano, neste caso de ADN mitocondrial — o material genético que existe nas mitocôndrias, as baterias das células, que se herda pela via materna. E a sequenciação indicava que aqueles humanos estavam mais próximos dos denisovanos (uma espécie descoberta na Sibéria, que em 2010 veio tornar a evolução humana mais complexa) do que dos neandertais.
Os resultados eram surpreendentes. “O facto de o ADN mitocondrial do homem primitivo de Sima de los Huesos partilhar um antepassado comum com os denisovanos e não com os neandertais é inesperado, uma vez que o seu esqueleto tem características derivadas dos neandertais”, disse na altura Matthias Meyer, que participou no estudo.
Há ossadas e vestígios na Europa e Ásia associados à anatomia e à cultura tipicamente neandertais com idades entre os 40.000 e os 300.000 anos. Por outro lado, os humanos modernos (a nossa espécie), que evoluíram em África, migraram para a Europa e Ásia há menos de 80.000 anos, reproduzindo-se com os humanos que existiam naqueles continentes, mas sobretudo substituindo-os. Há 28.000 anos os neandertais extinguiram-se. Finalmente, a genética mostrou que, há 50.000 anos, existia outra população humana na Ásia, os denisovanos. Conhecem-se só dois dentes e um pedaço de falange, pelo que a sua anatomia é um mistério.
Assim, há muitas questões que estão por responder. Quando se deu a separação dos antepassados dos humanos modernos, dos neandertais e dos denisovanos? Qual o lugar dos humanos de Sima de los Huesos nesta árvore evolutiva? E como integrar informações que aparentemente se contradizem, como é o caso de os humanos de Sima de los Huesos terem uma anatomia semelhante à dos neandertais e um ADN mitocondrial mais perto do dos denisovanos?
Os novos resultados dão algumas respostas. A equipa de Svante Pääbo conseguiu obter ADN nuclear (no núcleo das células e menos frequente do que o ADN mitocondrial, já que cada célula só tem um núcleo mas milhares de mitocôndrias) a partir de um dente incisivo e de um fémur de dois indivíduos diferentes. Mesmo assim, a quantidade de ADN nuclear obtida foi apenas 0,07% do genoma humano total, mas permitiu compará-lo com o genoma das outras espécies humanas. “As sequências [genéticas] assemelham-se mais com as dos neandertais do que com a dos denisovanos, mostrando que os humanos de Sima de los Huesos estavam relacionados com os neandertais e não com os denisovanos”, explica-nos Matthias Meyer.
Os novos dados são compatíveis com a estimativa da separação da linhagem dos neandertais e a dos denisovanos “entre há 381.000 e 473.000 anos”, explica-se no artigo. Este cálculo foi feito com base na comparação dos genomas dos dois tipos de humanos, que permitiu estimar o momento da divergência entre ambos, ao ter-se em conta o número de mutações genéticas que vão surgindo ao longo do tempo nas populações humanas. “Este rácio de mutações também sugere que a separação entre os humanos arcaicos [que deram origem aos neandertais e denisovanos] e os humanos modernos ocorreu entre há 550.000 e 765.000 anos”, segundo o artigo.
Mas mantém-se uma pergunta. Por que é que o ADN das mitocôndrias dos primeiros neandertais de Sima de los Huesos tem mais semelhanças com o ADN mitocondrial dos denisovanos e menos com o ADN mitocondrial dos neandertais que apareceram mais tarde? Uma hipótese avançada no artigo é que o ADN mitocondrial dos neandertais que depois povoaram a Europa — portanto, descendentes dos neandertais de Sima de los Huesos — seja fruto de cruzamentos que entretanto aconteceram com uma população desconhecida de humanos, vinda de África.
“Não há provas genéticas de uma migração vinda de África ocorrida entre a altura dos humanos de Sima de los Huesos (há 430.000 anos) e a chegada dos humanos modernos (entre há 40.000 e 80.000 anos)”, diz Matthias Meyer. “Poderemos testar essa hipótese se obtivermos mais informação do ADN nuclear dos humanos de Sima de los Huesos e a compararmos com o ADN dos neandertais mais recentes.”
Sima de los Huesos
Arqueólogos escavam em Sima de los Huesos.
Atapuerca
Um esqueleto dos 28 indivíduos cujos os ossos foram encontrados no poço de Sima de los Huesos, em Atapuerca.
Atapuerca
Ilustração dos primeiros neandertais que viviam em Atapuerca, perto de Burgos, Espanha, há mais de 400.000 anos.