24/06/2015

Estado Islâmico destrói dois santuários em Palmira

O autoproclamado Estado Islâmico destruiu dois santuários com centenas de anos nos arredores de Palmira, cidade que conquistou ao exército sírio no mês passado e que é também património mundial da UNESCO desde 1980.
O grupo extremista publicou as fotografias de dois mausoléus destruídos com explosões: tratam-se dos locais de enterro de Mohammad Bin Ali, companheiro do primeiro imã xiita, e do clérigo sufi Nizar Abu Bahaaeddine. Os dois santuários, considerados apóstatas pelos extremistas islâmicos sunitas, são os primeiros monumentos destruídos na cidade desde a sua ocupação pelo Estado Islâmico. Até ao momento, os extremistas destruíram apenas lápides recentes no cemitério municipal de Palmira, argumentando que estas sepulturas não devem ser visíveis.
As fotografias mostram combatentes do Estado Islâmico a caminho dos santuários com barris de explosivos e, depois, os próprios locais detonados. O túmulo de Bin Ali estava localizado a cerca de quatro quilómetros da cidade antiga de Palmira, mas o local de enterro de Abu Bahaaeddine, que teria mais de 500 anos, estava a poucas centenas de metros dos grandes monumentos da cidade.
Quando conquistaram a cidade às forças de Assad em Maio, os jihadistas anunciaram que não iriam destruir os monumentos milenares da cidade velha, como as imponentes colunas romanas e o templo de Bel, os grandes símbolos arquitectónicos de Palmira. Os extremistas disseram então que seriam destruídas as estátuas dos “ídolos que os infiéis adoram” e nada mais.
A destruição destes dois santuários até poderia confirmar esta promessa, não fosse os jihadistas terem plantado “numerosas” minas na cidade antiga de Palmira. A informação foi confirmada pelo Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que monitoriza o conflito a partir de Londres.
Não é certo, porém, se os jihadistas o fizeram para destruir os monumentos da cidade ou para travar uma possível contra-ofensiva do exército sírio, que se continua a mobilizar a poucos quilómetros da cidade.
Palmira - Síria
Palmira era uma antiga cidade na Síria central, localizada num oásis a cerca de 210 km a nordeste de Damasco. A localização estratégica da cidade, aproximadamente a meio da distância que vai do Mediterrâneo até ao rio Eufrates, tornou-a num ponto de paragem obrigatório para muitas das caravanas que seguiam aí a sua rota comercial. O nome "Palmira" refere-se às palmeiras — árvore que supostamente existiria aí em grande quantidade.

23/06/2015

Neandertal e homem moderno da Europa cruzaram-se há 40.000 anos

A sequenciação do genoma do Neandertal, divulgada em 2010, permitiu provar pela primeira vez que o homem moderno se cruzou com os seus primos europeus. A história e a geografia destes cruzamentos continuam, em grande parte, por descobrir. Os Neandertais desapareceram da face da Terra há cerca de 39.000 anos. Mas pouco tempo antes, viveu na Roménia um dos primeiros homens modernos europeus que ajudou agora os cientistas a reconstruir uma parte da história desta mistura. Segundo uma análise genómica, houve um Neandertal que poderá ter sido o seu antepassado de quarta, quinta ou sexta geração, revela um artigo publicado nesta segunda-feira na revista Nature.
Os paleontólogos continuam a tentar reconstruir o caminho feito pela espécie humana desde a sua génese. Os humanos anatomicamente modernos surgiram há menos de 200.000 anos em África. Depois, há menos de 100.000 anos, iniciaram uma migração, colonizando toda a Terra. Mas centenas de milhares de anos antes, populações de espécies antepassadas dos humanos modernos já tinham saído de África e chegado à Europa e à Ásia, onde se instalaram e evoluíram, formando ramos separados da árvore do género Homo.
Um desses casos foi o Neandertal, que apareceu há menos de 300.000 anos, algures na Europa e na Ásia Ocidental, e floresceu aí durante centenas de milhares de anos. Os motivos para o seu desaparecimento continuam envoltos em mistério, mas parece haver uma sobreposição temporal entre a chegada do homem moderno à Europa e a extinção do Neandertal.
Durante muito tempo, questionou-se se estes dois grupos humanos tinham tido contacto entre si, se houve cruzamentos e descendência entre as duas espécies. Em 2010, o assunto da descendência ficou arrumado. Os genomas das duas espécies mostravam que todas as populações actuais humanas, menos as de origem africana, têm entre um e 3% do genoma do Neandertal.
Por isso, depois dos nossos antepassados saírem de África, encontraram-se e cruzaram-se com populações do Neandertal. Mas não se sabe quando e como é que os cruzamentos ocorreram. Os dados genéticos indicam que as populações do Leste da Ásia e as populações nativas da América partilham mais material genético com os Neandertais do que os europeus. Isto sugere que os cruzamentos entre os dois grupos humanos ocorreram logo à saída de África ou no Médio Oriente, apesar dos últimos dias do Neandertal terem sido na Europa.
A descoberta feita agora vem contrariar esta ideia. Uma equipa internacional de investigadores analisou o genoma contido numa mandíbula de Oase 1, o nome dado ao fóssil de um homem moderno encontrado em 2002, em Pestera cu Oase, um sistema de grutas perto da cidade de Anina, no Oeste da Roménia. Oase 1 viveu há cerca de 40.000 anos. Apesar da forma da mandíbula ter muitas características dos humanos modernos, tem também alguns traços dos Neandertais. Os cientistas concluíram que estes traços têm uma base genética, já que entre seis e 9% do seu genoma é igual ao do Neandertal.
“Mostrámos que um dos primeiros homens modernos conhecidos na Europa tinha um antepassado Neandertal que remonta apenas à quarta, à quinta ou à sexta geração na sua árvore genealógica”, disse Svante Pääb, geneticista do Instituto Max Planck para Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha, e um dos autores que lideraram o estudo. “Ele traz mais ADN Neandertal do que qualquer outro humano moderno actual ou antigo até à data”.
Segundo o artigo, esta descoberta mostra que o cruzamento entre humanos modernos e Neandertais não aconteceu só no Médio Oriente, mas houve cruzamentos mais tarde, na Europa. Os cientistas obtiveram estes resultados depois de fazerem a sequenciação do genoma de Oase 1 e o compararem com o do Neandertal. O homem moderno tinha três longos pedaços de ADN que são dos nossos primos, permitindo estimar que o seu antepassado Neandertal seria bastante recente, teria vivido 100 a 150 anos antes de Oase 1.
No entanto, quando compararam o genoma do Oase 1 com o dos europeus actuais, perceberam que aquele humano não terá deixado descendentes actuais. “A ausência de uma relação clara do indivíduo Oase 1 com os mais recentes humanos modernos da Europa sugere que poderá ter havido um membro de uma população inicial dos primeiros humanos que se cruzou com um Neandertal, mas que não contribuiu muito para as populações europeias mais tardias”, explica o artigo.
Para David Reich, investigador do Departamento de Genética da Escola Médica de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos, que co-liderou o estudo, esta informação é importante para compreender os fluxos migratórios na Europa. “Isto é interessante porque mostra que a Europa não foi continuamente ocupada pelas mesmas linhagens desde a primeira migração dos humanos modernos que chegaram à Europa”.
Os próximos passos para compreender melhor a história entre os humanos modernos e os Neandertais é, segundo o artigo, o estudo do genoma de outros fósseis dos nossos antepassados que tenham traços morfológicos semelhantes aos dos nossos primos desaparecidos.
mandíbula de Oase 1 Roménia
A mandíbula de Oase 1, encontrada em 2002, numa gruta na Roménia.

04/06/2015

Sepultura de uma dama do século XVII descoberta em França

Um caixão de chumbo contendo o corpo excepcionalmente bem conservado de uma dama da nobreza do século XVII, completamente vestida de freira, foi desenterrado durante escavações arqueológicas preventivas realizadas no Convento dos Jacobinos da cidade de Rennes, no Oeste de França. O corpo fechado no sarcófago, com um tamanho de 1,45 metros, foi descoberto em Março de 2014 na capela de São José daquele convento. Trata-se provavelmente dos restos mortais de Louise de Quengo, uma viúva da alta nobreza bretã, que morreu em 1656 com mais de 60 anos de idade. O coração do seu marido, Toussaint de Perrien, foi efectivamente encontrado nas proximidades, explicaram na terça-feira os arqueólogos. Mais quatro caixões de chumbo do século XVII já tinham igualmente sido descobertos no mesmo convento, bem com 800 outras sepulturas. Mas todas elas apenas continham esqueletos. Pelo contrário, no sarcófago de Louise de Quengo “vimos logo que o conteúdo era volumoso, que havia tecidos e calçado”, conta Rozenn Colleter, arqueóloga do Instituto Nacional de Investigação Arqueológica Preventiva (Inrap) francês. Debaixo da capa, salienta, “conseguimos vislumbrar as mãos a segurar num crucifixo”.  O corpo foi submetido a duas análises por tomografia de raios X e autopsiado. “Com Louise, foram surpresas atrás de surpresas”, explicou Fabrice Dedouit, radiologista e médico forense. O exames revelam “grandes cálculos renais” e “aderências pulmonares” – e que o coração foi removido “com uma real mestria da prática cirúrgica”. Quanto às vestes, degradadas pelos sucos de putrefacção, foram restauradas e deverão ser exibidas. A viúva, que tinha provavelmente escolhido residir no convento até ao fim da vida, conforme o costume da época, estava vestida de forma muito austera: uma capa, um vestido de lã tosca, uma camisa de pano. Nos pés, tinha meias de lã e pantufas com sola de cortiça. Um pano tapava-lhe o rosto, duas tocas e uma coifa de freira cobriam-lhe a cabeça. Dentro de uns meses, o seu corpo será novamente inumado em Rennes.
Convento dos jacobinos Rennes
O corpo da dama a ser examinado pelos cientistas.

29/05/2015

Homicídio no Plistoceno

Na época do Plistoceno, há 430.000 anos, o homem moderno ainda não tinha surgido, mas outras espécies de humanos já tinham colonizado a Eurásia, a partir de África. Na Europa, vivia o Homo heidelbergensis, que se pensa ter dado origem aos neandertais. Agora, a reconstituição de um crânio encontrado numa gruta de Espanha revelou a existência de uma luta fatal há 430.000 anos, onde se utilizou uma arma, fazendo recuar no tempo o registo mais antigo de violência intencional humana, revela um artigo publicado nesta semana na revista PLOS ONE.
Na paleoarqueologia, é sempre difícil tirar conclusões sobre as acções que provocaram a existência dos vestígios encontrados. Já se encontraram esqueletos de humanos que sofreram diferentes traumas, mas podiam ter sido originados durante a caça. Há provas de canibalismo antigas, com 600.000 anos. Mas, até agora, as provas incontestáveis e mais antigas de violência entre humanos eram muito mais recentes, provinham do Neolítico, há cerca de 10.000 anos, obtidas em vestígios deixados pelo homem moderno.
O crânio que permitiu a nova descoberta não foi encontrado de uma só vez. A equipa do Centro Misto de Evolução e Comportamento Humanos, do Instituto de Saúde Carlos III, em Madrid, foi obtendo, um a um, os 52 pedaços do crânio, à medida que ia escavando em Sima de los Huesos, um dos vários sítios arqueológicos na Serra de Atapuerca, em Burgos, Espanha. Os locais arqueológicos desta pequena cordilheira são Património da Humanidade da UNESCO devido à sua importância para compreendermos o modo de vida dos humanos pré-históricos.
Sima de los Huesos fica na base de um poço natural com 13 metros, situado na gruta Cueva Mayor. O local está a ser escavado desde 1984, com toneladas de material a ser retirado de lá, para depois se estudar cuidadosamente. Já foram recuperados restos de, pelo menos, 28 indivíduos que viveram há cerca de 430.000 anos, e que estão identificados como Homo heidelbergensis.
O crânio agora reconstituído, a partir dos 52 pedaços, é o número 17. Pertence a uma espécie de humanos que “está muito próxima do Neandertal”, explicou ao PÚBLICO Nohemi Sala, autora do estudo, referindo-se à espécie que iria surgir dali a cerca 200.000 anos. “Este indivíduo foi morto num acto letal de violência interpessoal, abrindo-nos uma janela para um aspecto muitas vezes invisível da vida social dos nossos antepassados humanos.”
Para chegarem a esta conclusão, os cientistas tiveram primeiro de reconstituir o crânio. Depois, utilizando diferentes tipos de técnicas, analisaram os dois buracos na parte frontal do crânio, por cima da cavidade do olho esquerdo. A análise aos dois buracos permitiu compreender que não houve um processo de cicatrização após o trauma, indicando que os buracos foram feitos na altura da morte daquele humano. Por outro lado, os dois buracos foram provocados pelo mesmo objecto. Tudo isto põe de lado a hipótese deste humano ter caído no poço e ter batido duas vezes contra a mesma rocha.
“Devido à consistência da forma e do tamanho, é claro que os traumas brutais não foram involuntários, mas, antes, parecem ter sido produzidos pelo uso de um instrumento com um determinado tamanho e forma”, conclui o artigo. “A severidade destas feridas, com ambos os golpes a penetrarem na barreira entre o osso e o cérebro, e a ausência de um processo de cicatrização, por renovação do osso, leva-nos a considerar que este indivíduo não sobreviveu aos traumas cranianos. Cada um dos dois eventos traumáticos foram provavelmente mortais, e a presença de golpes repetidos poderá sugerir uma intenção clara de matar.”
Assim, estamos perante aquilo que os autores dizem representar “o acto mais antigo de agressão deliberada e letal no registo fóssil” humano. Os vestígios de Sima de los Huesos já tinham mostrado que aquela população usava preferencialmente a mão direita. Como os golpes estão na parte esquerda do crânio, a equipa acredita que alguém bateu naquele humano, usando o braço e mão direita e, claro, um instrumento.
“É importante lembrarmo-nos de que estes humanos eram robustos e que esta era uma das partes mais densas do crânio”, explica ao jornal norte-americano Los Angeles Times Danielle Kurin, antropóloga forense da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, que não faz parte da equipa. “Era necessário muita força para provocar uma fractura que faça o osso penetrar no cérebro.”
Mas esta descoberta também obriga a repensar a função daquele poço, onde se encontraram vestígios de quase três dezenas de indivíduos. Este humano que foi assassinado em circunstâncias desconhecidas teve, depois, de ser transportado para ali. “Este local é a prova das mais antigas práticas funerárias descobertas até agora”, explica Nohemi Sala. Ou, como disse também ao Los Angeles Times o investigador Ignacio Martínez, da Universidade de Alcalá, de Madrid, que também participou neste estudo, “acreditamos que a violência intencional entre pessoas é um comportamento que acompanha os humanos desde há 430.000 anos, assim como também é o cuidado que damos aos doentes ou mesmo aos mortos”. E remata: “Não mudámos assim tanto no último meio milhão de anos.”
Serra de Atapuerca
Crânio, encontrado em Sima de los Huesos (Espanha), com os buracos bem visíveis na região frontal.

28/05/2015

Novos fósseis da Etiópia vêm complicar a história da evolução humana

A revista Nature publica esta quinta-feira um artigo científico que anuncia a descoberta de uma nova espécie de australopiteco. A equipa de Yohannes Haile-Selassie, do Museu de História Natural de Cleveland, nos EUA, chama-lhe Australopithecus deyiremeda e fundamenta a existência deste novo australopiteco na descoberta de duas mandíbulas e de um maxilar, com 3,3 a 3,5 milhões de anos, na região de Afar, na Etiópia, em 2011. Muito perto desse sítio tinha-se encontrado, em 1974, o celebérrimo esqueleto de Lucy, uma fêmea da espécie Australopithecus afarensis. Para a equipa, os novos fósseis são uma confirmação indubitável de que pelo menos duas espécies de pré-humanos viveram na mesma região e ao mesmo tempo, numa altura em que já não faltava muito para o aparecimento do género Homo — ou seja, dos primeiros humanos.
Actualmente, já se sabe que entre há três e quatro milhões de anos, na época do Plioceno Médio, o planeta era povoado por mais do que uma espécie de hominíneos — a subfamília de todos os nossos antepassados a seguir à separação do ramo dos chimpanzés, o que ocorreu há cerca de oito milhões de anos. Hoje, somos o único membro dessa subfamília. Mas nem sempre a ideia de existência de vários hominíneos no Plioceno Médio, e na mesma área geográfica, foi facilmente aceite. Essa altura é particularmente importante na história da evolução humana por ser pouco tempo antes do aparecimento dos humanos.
Durante muito tempo, parecia que uma espécie de hominíneos tinha dado lugar a outra e depois esta a outra, até que apareceram os primeiros Homo, há 2,8 milhões de anos. Era pelo menos o que se pensava que indicavam os fósseis que se iam descobrindo. Só que a árvore da evolução humana tem muitos ramos, alguns simultâneos, que secaram pelo caminho — no fundo, experiências evolutivas que não desembocaram em nada.
A ideia da coexistência de vários hominíneos ganhou peso com a descoberta dos fósseis do Australopithecus bahrelghazali (embora hoje haja dúvidas de que se trate de um novo australopiteco e muitos cientistas consideram-no, afinal, um Australopithecus afarensis), em 1995 no Chade, e do Kenyanthropus platyops, em 1998 no Quénia. Tanto o Australopithecus bahrelghazali como o Kenyanthropus platyops (ou “homem do Quénia com face plana”) viveram justamente há cerca de 3,5 milhões de anos no Leste de África — ou seja, na mesma altura e na mesma área geográfica de Lucy, cuja descoberta representou um marco na paleoantropologia e ainda hoje é uma super-estrela entre os fósseis pré-humanos.
Classificada logo em 1978 como Australopithecus afarensis, a Lucy viveu há 3,2 milhões de anos, media cerca de um metro de altura e — o mais surpreendente — já era bípede. Até à descoberta do seu esqueleto, não existiam provas concretas desse modo de locomoção numa espécie de hominíneos com mais de dois milhões de anos. Os ossos da bacia, das pernas e dos pés de Lucy foram provas essenciais. Além de caminharem em duas pernas, sabemos agora que os indivíduos da mesma espécie de Lucy — que existiu num período de tempo entre há 3,8 e 2,9 milhões de anos — também se sentiam confortáveis em trepar às árvores.
Agora, a equipa coordenada por Yohannes Haile-Selassie encontrou o maxilar, ainda com os dentes, e as duas mandíbulas (de indivíduos diferentes, portanto) de um hominíneo na área de Woranso-Mille, na região de Afar. Em Março de 2011, os cientistas estavam à procura de fósseis naquela área porque já tinham encontrado aí a impressão parcial de uma pegada de hominíneo, datada com 3,4 milhões de anos e que consideraram, num artigo na revista Nature em 2012, revelar uma nova maneira de andar e confirmar a diversidade nos hominíneos do Plioceno Médio. “O espécime era contemporâneo do Australopithecus afarensis, mas demonstrava a existência de um modo distinto de locomoção bípede”, lembra agora a equipa de Yohannes Haile-Selassie no artigo desta quinta-feira. Mas sem ossos do crânio, incluindo mandíbulas, maxilares e dentes, era difícil identificar o autor da pegada parcial.
Encontraram realmente ossos, mas como nenhum estava associado à pegada parcial, continua a não ser possível atribuir-lhe um autor. Mas a equipa considerou que lhe saiu na mesma a sorte grande, uma vez que classificou os ossos como sendo de uma nova espécie de australopiteco. Os cientistas consideraram que, apesar de os ossos da cara e os dentes terem mais características de australopiteco do que de outros hominíneos, tinham diferenças suficientes para serem atribuídos a uma espécie nova de australopiteco. Eis assim o Australopithecus deyiremeda, em que a designação específica é composta por duas palavras da língua da região de Afar: deyi, que significa “próximo”, e remeda, que quer dizer “parente”, porque, argumentam os cientistas, “esta espécie é um parente próximo de todos os hominíneos posteriores”.
A zona onde se encontraram os fósseis fica apenas a cerca de 35 quilómetros a norte do sítio onde estava o esqueleto de Lucy (e a 520 quilómetros da capital da Etiópia). “Esta nova espécie (...) mostra que havia pelo menos duas espécies de hominíneos contemporâneas na região etíope de Afar a viver entre há 3,3 e 3,5 milhões de anos e é uma confirmação adicional da diversidade taxonómica dos primeiros hominíneos no Leste de África durante a época do Plioceno Médio”, escrevem os cientistas no artigo na Nature. “A diversidade de espécies do Plioceno Médio tem sido alvo de debate nas últimas duas décadas, particularmente depois da classificação do Australopithecus bahrelghazali e do Kenyanthropus platyops, que se juntaram à bem conhecida espécie Australopithecus afarensis. Análises posteriores fundamentam a proposta de que diversas espécies de hominíneos co-existiram durante esse período”, justificam ainda no artigo.
Como não muito longe da Etiópia, no Quénia, vivia ainda o Kenyanthropus platyops, a equipa defende agora que pelo menos três espécies de hominíneos viveram há cerca de 3,5 milhões de anos em grande proximidade geográfica.
Mas a própria equipa reconhece que a proposta de uma nova espécie pode acabar por complicar ainda mais a já complicada árvore da evolução humana, como se lê também no artigo na Nature: “As relações taxonómicas e filogenéticas dos primeiros hominíneos estão a tornar-se cada vez mais complicadas à medida que se acrescentam novos taxa [unidades de classificação, como os géneros e espécies] ao registo fóssil do Plioceno Médio e se reconsidera a distribuição temporal (...) dos primeiros Homo.”
Antecipando críticas da comunidade científica, até porque a evolução humana costuma suscitar debates científicos acalorados, Yohannes Haile-Selassie já lhes está a responder num comunicado do Museu de História Natural de Cleveland: “Esta nova espécie da Etiópia leva para outro nível o debate em curso sobre a diversidade dos primeiros hominíneos. Alguns dos nossos colegas vão ficar cépticos em relação a esta nova espécie, o que não é invulgar. Mas penso que é altura de olharmos para as fases iniciais da nossa evolução com a mente aberta e examinarmos os fósseis disponíveis, em vez de rejeitarmos imediatamente aqueles que não encaixam em hipóteses antigas.”
Eugénia Cunha, especialista em evolução humana e antropóloga forense da Universidade de Coimbra, está entre os cientistas que têm dúvidas quanto à robustez das provas apresentadas na Nature. Quando se lhe pergunta qual a importância da descoberta, a investigadora comenta: “É uma descoberta importante, porque é mais um fóssil a provar a diversidade de hominíneos há 3,3-3,5 milhões de anos. No entanto, diversidade não tem de equacionar obrigatoriamente novas espécies.” E acrescenta: “Os autores da descoberta acham que as características dentognáticas [dos dentes e mandíbulas] são suficientes para a criação de uma nova espécie, mas pode não ser assim. O futuro o dirá. Não tenho nada contra a existência de uma nova espécie, mas os argumentos que excluem a possibilidade de ser a mesma espécie do Kenyanthropus platyops não são completamente convincentes.” A investigadora diz ainda mais sobre as características morfológicas usadas para classificar os fósseis como sendo de novo australopiteco: “Essas características morfológicas tiram força para a manutenção do Kenyanthropus platyops como um novo género e uma nova espécie, porque as características distintivas do Kenyanthropus estão presentes nesta nova espécie.” Portanto, ou os novos fósseis são de um Kenyanthropus platyops ou os fósseis do Kenyanthropus platyops acabam por vir a ser considerados como o novo Australopithecus deyiremeda? “Tanto pode ser uma coisa como outra. Creio que poderá ser esta nova espécie a vingar, porque o Kenyanthropus quase caiu no esquecimento. Mas se a face distintiva do Kenyanthropus não estiver preservada nesta nova espécie, não se pode comprar o que não é comparável”, responde Eugénia Cunha. “É uma hipótese que para mim fica em aberto: poderá o Kenyanthropus vir a ser englobado nesta espécie, não obstante os autores desta descoberta apontarem para umas particularidades, quase subtilezas, de distinção? Fico com a dúvida.”
Subjacente a todo a este debate está, no fundo, o confronto entre duas correntes de classificação dos seres vivos: aquela que considera que as diferenças encontradas num exemplar justificam logo a criação de uma nova espécie e aquela que agrupa mais esse exemplar numa mesma espécie. “É a velha questão do confronto de perspectivas dos splitters [divisores] versus lumpers [agrupadores]”, resume Eugénia Cunha a propósito do novo australopiteco. “Haverá sempre a tendência em dar nomes novos a novas descobertas, até que, uns anos depois, se chega à conclusão de que era quase tudo o mesmo. A diversidade pode ser acomodada dentro de uma mesma espécie. No fundo, esta questão de dar nomes é artificial. O que importante é saber que éramos muito diversos.” Quanto a Eugénia Cunha, é mais uma lumper: “Veja o que tem acontecido com os primeiros Homo. Agora dizem que, apesar da grande diversidade, o Homo rudolfensis, habilis, ergaster, erectus e georgicus são todos a mesma espécie.”
Sejam de um novo australopiteco ou não, o certo é que os novos fósseis revelam a diversidade entre os pré-humanos. Mas ainda não respondem a uma das grandes questões sobre o nosso passado: qual é o antepassado directo do género Homo? Nem o Australopithecus deyiremeda nem Australopithecus afarensis fizeram a transição directa para os primeiros humanos, explica Eugénia Cunha. “Sem dúvida que neste período entre 3,3 e 3,5 milhões de anos coexistiam várias espécies e até géneros, o que contrasta fortemente com a situação actual. Terá havido várias tentativas para o bipedismo, umas bem-sucedidas e outras não, e nem todas com as mesmas adaptações morfológicas. Tudo fortemente dependente do ambiente e da dieta. Quem é que seguiu em frente é, todavia, uma questão que não tem resposta.”
maxila de Australopithecus deyiremeda
A maxila com os dentes do novo hominídeo encontrado na Etiópia.
Yohannes Haile-Selassie
O investigador Yohannes Haile-Selassie.

22/05/2015

Rapariga de Egtved (Dinamarca)

Uns 2400 quilómetros percorridos em 15 meses, uma morte ocorrida a mais de 800 quilómetros da sua região natal e do sítio onde cresceu: os restos de uma mulher da Idade do Bronze contam a história da sua vida, há quase 3400 anos. A sepultura da jovem, que morreu entre os 16 e os 18 anos, foi descoberta em 1921 na aldeia dinamarquesa de Egtved. Jazia num caixão talhado no tronco de um carvalho, embrulhada numa pele de boi, desde um dia de Verão do ano 1370 antes da era cristã. Foi o estudo do seu cabelo, dentes, unhas e vestuário, todos muito bem preservados, que permitiu agora reconstituir o itinerário desta mulher emblemática da Idade do Bronze, explica um artigo publicado na quinta-feira na revista Nature Scientific Reports. Um autêntico trabalho de detectives, que acompanha, com uma precisão sem precedentes, as deslocações de um dos nossos antepassados pré-históricos.
Conhecida como “rapariga de Egtved” (o nome da aldeia onde foi sepultada), tudo indica que não terá sido originária daquele local – ao contrário do que se pensou durante muito tempo. Segundo o novo estudo, a rapariga terá nascido na actual Alemanha, a centenas de quilómetros do sítio onde foi inumada.
“A análise de um dos primeiros molares da jovem mulher (já completamente formados quando tinha três ou quatro anos de idade) permite-nos concluir que a rapariga de Egtved nasceu e passou os seus primeiros anos de vida numa região geologicamente mais antiga e diferente da Península da Jutlândia, na Dinamarca, onde se situa Egtved”, diz Karin Margarita Frei, do Museu Nacional da Dinamarca, co-autora do trabalho, em comunicado da Universidade de Copenhaga.
Foi através da análise de diversos isótopos (variantes) de estrôncio, um elemento químico contido nos alimentos que se incorpora ao esmalte dos dentes, que os cientistas conseguiram determinar, como se de um GPS se tratasse, o local onde a rapariga vivia quando os seus dentes se formaram. Para eles, a jovem mulher será oriunda da Floresta Negra, no Sudoeste da Alemanha, a mais de 800 quilómetros do sítio onde morreu.
A análise da roupa que ela vestia quando foi sepultada – um curto "casaco" de lã e uma saia feita de tirinhas de lã e de pele de boi – permite concluir que esse peças foram confeccionadas fora do que é hoje a Dinamarca. “As ovelhas que forneceram a lã pastaram em prados com as mesmas características geológicas que os da Floresta Negra, salienta Karin Margarita Frei.
“Penso que esta jovem alemã foi dada em casamento a um homem da Jutlândia para estabelecer uma aliança entre duas grandes famílias”, explica por seu lado Kristian Kristiansen, da Universidade de Copenhaga e igualmente co-autor do estudo. Durante a Idade do Bronze, as relações entre a Dinamarca e o Sul da Alemanha eram muito estreitas, nomeadamente devido ao comércio do âmbar e do bronze.
Quanto aos restos do cabelo da jovem, com 23 centímetros de comprimento, permitiram reconstituir o seu percurso, mês a mês, ao longo dos dois últimos anos da sua vida. Isto porque as características químicas do cabelo e das unhas fornecem informações acerca da localização geográfica da pessoa na altura em que cresceram. No caso desta jovem mulher, a parte mais recente do seu cabelo (que corresponde aos seus últimos quatro a seis meses de existência) e das suas unhas indica que ela terá feito uma viagem muito longa pouco tempo antes de morrer. “Uns 15 meses antes da sua morte, a jovem mulher ainda se encontrava na sua região natal”, explica Karin Margarita Frei. “Depois, partiu para a região da Jutlândia. Após uma estadia de nove meses naquele local, regressou à sua região de origem, onde passou quatro a seis meses, tendo a seguir voltado a Egtved, onde morreu um mês mais tarde.” A jovem percorreu assim cerca de 2400 quilómetros em 15 meses – uma distância equivalente à que separa Paris da Finlândia.
Museu Nacional da Dinamarca
A sepultura da rapariga de Egtved, que morreu em 1370 a.C. (Museu Nacional da Dinamarca).