31/05/2022

Escavações na necrópole de Saqqara revelam sarcófagos com múmias e outros objetos da civilização egípcia

Uma exposição de arqueologia egípcia exibiu 250 sarcófagos pintados com múmias preservadas no interior, algumas com mais de 2500 anos. Foram encontrados nas escavações no Cemitério dos Animais Sagrados, na necrópole de Saqqara, Cairo. Os artefactos incluem 150 estátuas de bronze de antigas divindades e vasos utilizados ​​em rituais de Ísis, deusa da fertilidade na mitologia egípcia antiga, que datam de 500 a.C.. O destaque é uma estátua de bronze sem cabeça de Imhotep, o arquiteto-chefe do faraó Djoser, que governou o Egipto entre os anos de 2630 a.C. e 2611 a.C.. Dentro de um dos caixões, os arqueólogos descobriram um rolo de papiro que acreditam conter capítulos do Livro dos Mortos, uma coleção de orações, feitiços, magia, hinos e lendas do Antigo Egipto. As peças vão poder ser vistas numa exposição permanente no novo Grande Museu Egípcio, um projeto ainda em construção perto das Pirâmides de Gizé. Saqqara faz parte de uma extensa necrópole na antiga capital do Egipto, Memphis, cujas ruínas foram designadas Património Mundial da Unesco na década de 1970. As Pirâmides de Gizé e as pirâmides menores de Abu Sir, Dahshur e Abu Ruwaysh são os monumentos que fazem parte da necrópole.

Trabalhador limpa os sarcófagos em Saqqara

A coleção consiste em 250 caixões pintados de madeira com múmias
Os sarcófagos estão datados de c. de 500 a.C.

Foram descobertas 150 estátuas de bronze de divindades egípcias antigas e vasos utilizados em rituais

Figuras egípcias como Bastet, Anubis, Osiris, Amunmeen, Isis, Nefertum e Hathor

Descoberto manuscrito original do Padre António Vieira

 Clavis Prophetarum (A Chave dos Profetas), manuscrito original da autoria do Padre António Vieira  que se considerava perdido, foi encontrado em 2020 nos arquivos da biblioteca da Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma. Sabia-se da existência da Clavis Prophetarum por via de várias cópias dispersas pelo mundo, e pelas referências à obra na correspondência de Vieira, mas desconhecia-se o paradeiro do manuscrito original há mais de trezentos anos. Uma anotação à margem do texto permitiu identificar o manuscrito como sendo o original, conclusão validada com exames laboratoriais ao tipo de papel, de tinta e de encadernação.

O manuscrito tem mais de 300 páginas e a edição desta obra é da responsabilidade dos investigadores Ana Travassos Valdez, especialista em História Moderna da Europa, e Arnaldo do Espírito Santo, que coordenou a edição crítica dos Sermões e do Livro III da Clavis Prophetarum. Deverá, ainda sem data anunciada, ser publicada numa edição crítica em português e inglês, em três volumes, correspondendo à divisão original feita pelo seu autor.

Trata-se de uma obra que pertence à série dos escritos proféticos e escatológicos de Vieira e era considerada pelo próprio jesuíta a sua obra mais importante. A Clavis Prophetarum poderá ser lida como uma superação de outros textos em que Vieira expusera a sua visão milenarista, como a carta Esperanças de Portugal, enviada ao também jesuíta André Fernandes em 1659, na qual o padre propõe a sua interpretação das trovas de Bandarra, vendo nelas o anúncio do Quinto Império, ou ainda a obra póstuma inacabada História do FuturoA Chave dos Profetas é, em suma, um tratado teológico-político, cujo argumento profético é a consumação futura do reino de Cristo na Terra.

Padre António Vieira (pintura a óleo da Casa de Cadaval)

29/05/2022

Fórum romano de Pax Iulia

A Câmara de Beja vai investir 1,3 milhões de euros para valorizar e tornar visitável o fórum romano da cidade, composto por vários vestígios arqueológicos. Este núcleo arqueológico está situado num logradouro entre a Praça da República e as ruas Abel Viana, da Moeda e dos Escudeiros, e composto por vários vestígios, com destaque para dois templos romanos. Um dos templos, dedicado ao culto imperial, terá sido construído na época do imperador Tibério, de 14 a 37 do século I d.C., e é o maior descoberto em Portugal e um dos maiores da Península Ibérica. O outro é o primeiro templo do fórum de Beja correspondente à fundação romana e datado do início do último quartel do século I a.C., no tempo do primeiro imperador romano, Augusto. A obra vai incluir também a construção de uma infraestrutura para permitir a visita ao núcleo, com uma arquitetura minimalista e que não se sobrepõe à importância dos achados arqueológicos.

Vestígios arqueológicos do fórum de Pax Iulia

 

A Sé de Idanha-a-Velha

Igaedis no período romano e Egitânia no período suevo. Importante urbe durante a ocupação romana da Península Ibérica e sede de bispado no período suevo e visigótico até à ocupação muçulmana. Em 1199 a sede episcopal só foi transferida para a Guarda. Território entregue à Ordem dos Templários e, extinta esta no reinado de D. Dinis, transitou para a Ordem de Cristo. A riqueza do seu património arqueológico explica-se pela sobreposição de ocupações. Os trabalhos arqueológicos do século XX concentraram-se na Catedral, no Lagar de Varas, no Museu Epigráfico e nas ruínas do Paço dos Bispos, fornecendo um caudal volumoso de informação. Trabalhos arqueológicos permitiram recuar a história local e encontrar os mais antigos baptistérios conhecidos em Portugal: uma das piscinas bap
tismais terá mesmo sido utilizada no século IV, o que a transformou num dos vestígios mais recuados do cristianismo no território que atualmente é Portugal.

O edifício religioso que define Idanha-a-Velha alimentou controvérsias. Dom Fernando de Almeida não teve dúvidas em ver na Sé um monumento dos primeiros cristãos, mas, no final do século XX, foi proposto que o edifício terá sido, ao invés, uma mesquita, do final do século IX, local de culto de Ibn Marwan, um rebelde contra o poder de Córdova. Na verdade, a Sé é um dos mais enigmáticos monumentos da Alta Idade Média portuguesa. A maior parte do monumento atual corresponde ao registo quinhentista e uma inscrição com o ano 1593 valida essa datação. No século XIX, perdeu a função de culto e foi transformada em cemitério. Já nas ruínas do Paço dos Bispos não há certeza sobre a antiguidade das camadas que circundam a Sé. Dom Fernando de Almeida sugeriu que seriam do Paço Episcopal Visigótico, mas o mais certo é serem de simples habitações de época posterior, embora ainda medieval.

A descoberta, em 2018, de uma porta na muralha de acesso à cidade, de origem romana, mantém vivo o debate sobre as origens de Idanha-a-Velha

A Sé de Idanha-a-Velha: de planta retangular com dois eixos ortogonais

Restauro dos Painéis de S. Vicente

No início de 2022 os Painéis de S. Vicente podem ser vistos sem a camada de verniz que lhe confere o brilho. O verniz tem uma função de película protetora que impede a sujidade de se colar à tinta e ajuda a fixar e evidenciar as cores. A passagem do tempo pode escurecer esse verniz.

As camadas de verniz que ao longo de séculos foram sendo aplicadas com o objetivo de proteger a pintura e de facilitar a sua leitura estão agora a ser estudadas a partir de microamostras e os resultados vão dizer aos técnicos, entre muitas outras coisas, qual é o sistema de limpeza mais adequado para as retirar, que solventes ou misturas de solventes terão de ser usados.

Os técnicos esperam vir a conseguir remover praticamente todas as camadas de verniz que hoje escurecem os Painéis, mas não é certo que o consigam. O que está agora em curso faz parte de uma espécie de linhagem, de um esforço de séculos para proteger esta pintura e garantir que ela continuará a intrigar quem a vir por muitas gerações.

Intervenção no Painel da Relíquia

21/11/2021

João Cândido e a revolta da chibata no Brasil

João Cândido (1880-1969), marinheiro negro, liderou a revolta, conhecida como revolta da chibata, que teve o seu início em 22 de novembro de 1910, contra a permanência dos maus tratos, baixos salários e deploráveis condições de trabalho na estrutura militar brasileira. Este ano é o protagonista da Bienal de São Paulo e existe a proposta do Senado para que seja inscrito no livro dos heróis e heroínas do povo brasileiro.

Como consequência de liderar este motim foi encarcerado e, durante esse período, bordava durante horas. Os seus trabalhos estão expostos na Bienal de S. Paulo e denunciam a brutalidade da reação das hierarquias militares e políticas. Existia na marinha a tradição de bordar, pois era necessário remendar a roupa ou as velas durante a navegação.

João Cândido esteve quinze anos alistado na marinha que mantinha tradições que permaneciam do contexto esclavagista, nomeadamente, no tratamento a que estavam sujeitos os antigos escravos e os seus descendentes. A consciência da injustiça ficou mais evidente com o contacto com a realidade europeia, observando o modo de funcionamento de outras armadas no que respeita aos direitos dos marinheiros.

Em 22 de novembro de 1910, os navios de guerra São Paulo e Minas Gerais, comprados no Reino Unido, e dois outros navios (o Deodoro e o Bahia), foram apreendidos por 3000 marinheiros que exigiam aumentos salariais, melhor alimentação e condições de trabalho e o fim dos castigos físicos. Nesta revolta morreram vários oficiais e a cidade do Rio de Janeiro foi bombardeada. No dia 26 de novembro o governo do Marechal Hermes da Fonseca (1855-1923) cedeu às reivindicações dos revoltosos, terminando com a revolta da chibata. Os amotinados beneficiaram de uma amnistia, sendo, posteriormente, expulsos da marinha. João Cândido e cerca de duas dezenas de marinheiros, considerados cabeças de motim, foram encarcerados no presídio da Baía da Guanabara, tendo ele sido dos poucos que sobreviveu às péssimas condições da prisão.

Este marinheiro negro e analfabeto, que também ficou conhecido como o Almirante negro, no Brasil do início do século XX, tinha-se revelado um líder carismático e respeitado pelos seus pares. Liderou uma insubordinação militar tendo por objetivo reivindicações laborais, numa época em que não existiam sindicatos ou o direito à greve, enfrentando as hierarquias militares e políticas que ainda utilizavam a violência como principal instrumento opressor. Desta revolta resultou o fim dos castigos corporais nas estruturas militares, realidade que não se coadunava com uma república moderna. Foi deste modo que João Cândido se tornou no símbolo do movimento pelos direitos laborais e uma memória na luta contra os resquícios de práticas que prolongavam hábitos do período esclavagista.

Apesar de ter desembarcado vitorioso há 111 anos, foi sujeito a uma pena de prisão e, após a sua libertação, a um ostracismo social, vivendo da pesca e da solidariedade de outros marinheiros. Apesar de ter aderido em 1932 à Ação Integralista Brasileira, movimento nacionalista que apoiava soluções políticas ditatoriais, a sua memória foi resgatada com a presidência de Lula da Silva. Foi erigida uma estátua na praça XV do Rio de Janeiro, um local que foi mercado de escravos e onde se situa o palácio em que a princesa Isabel (1846-1921) assinou a lei áurea. Se a proposta do Senado for aprovada João Cândido integrará o panteão dos heróis brasileiros.

Marinheiros rebeldes na coberta do navio de guerra «São Paulo» com uma bandeira em que se pode ler «Viva a Liberdade»

Fim da revolta anunciado na primeira página do diário carioca Correio da Manhã (28/11/1910)
O lenço bordado «Amor», que João Cândido coseu na prisão e que está exposto na bienal de São Paulo (2021)