01/10/2016

Polícia recupera dois Van Gogh roubados

A polícia italiana recuperou das mãos da máfia de Nápoles dois Van Gogh roubados do famoso museu de Amesterdão em 2002. Segundo o jornal La Reppublica, tratam-se das pinturas Marinha de Scheveningen e Congregação Deixando a Igreja Reformada em Nuenen, pintadas no início da carreira de Van Gogh, entre 1882 e 1884, respectivamente. As obras foram encontradas escondidas numa casa ligada ao grupo de Raffaele Imperiale, um chefe do narcotráfico internacional da Camorra, a máfia napolitana, em Castellammare di Stabia. Estavam na posse dos Amato-Pagano, um dos grupos mais perigosos da região de Nápoles. O grupo de Imperiale dedicava-se, além do tráfico de droga, a operações imobiliárias e a negócios nos Emiratos Árabes Unidos.
Antes de serem roubadas, quando se percorria a exposição permanente do Museu Van Gogh, a primeira obra que o visitante encontrava era Marinha de Scheveningen, pois as salas do museu estão organizadas numa sequência cronológica. Congregação Deixando a Igreja Reformada em Nuenen era o terceiro quadro dessa montagem. Ambos os quadros pertencem ao primeiro período da pintura de Van Gogh, quando ainda vivia na Holanda, e apesar de já mostrarem alguns traços característicos do pintor, não fazem ainda parte da sua fase mais madura e conhecida.
Em 2002 - o mesmo ano em que as jóias da coroa portuguesa foram roubadas do Museon de Haia -, os ladrões usaram uma escada para subir ao telhado do museu e entraram no edifício. Escaparam descendo por uma corda. Dois homens foram apanhados e presos durante cerca de quatro anos, mas as pinturas permaneceram escondidas. O FBI considerou-o um dos "10 melhores roubos de arte de sempre".
A direção do museu informou que um conservador já reconheceu a autenticidade dos quadros. As pinturas de pequena dimensão, encontradas sem molduras, estão num bom estado de conservação, diz também a instituição holandesa, que já tinha perdido a esperança de encontrar as obras de arte.
Museu Van Gogh
O diretor do museu Van Gogh entre as obras recuperadas.
Van Gogh
Marinha de Scheveningen.
Van Gogh
Congregação Deixando a Igreja Reformada em Nuenen.

28/09/2016

Clube do Património da Escola Eugénio de Castro realiza itinerário intitulado "Coimbra Republicana"

Realizámos um itinerário  que intitulámos «Coimbra Republicana». O objetivo era identificar na toponímia, no urbanismo e nos monumentos da cidade, marcas da ascensão e afirmação do poder republicano que se implantou em 1910. Começámos o nosso roteiro na Praça da República e concluímos o passeio no Largo da Portagem, junto à estátua de Joaquim António de Aguiar. Na verdade, o percurso deveria ter sido realizado no sentido inverso, para respeitarmos a sequência cronológica do processo histórico que, iniciado com o triunfo dos liberais no séc. XIX, culminaria com a proclamação da República.
No entanto, daquela maneira teríamos que subir a avenida Sá da Bandeira, pelo que optámos por fazer o roteiro a descer, mesmo que sacrificando a sequência dos factos históricos, começando então na Praça da República.
Este local, antes da extinção das ordens religiosas, pertenceu ao Mosteiro de Santa Cruz, tal como toda a extensão que se prolonga desde a Praça 8 de Maio até ao Jardim da Sereia, ainda hoje designado Parque de Santa Cruz.  Em 1889, na sequência do falecimento do rei D. Luís, a Câmara Municipal decidiu homenagear o falecido rei, atribuindo a esta praça o seu nome. Alguns vereadores republicanos, entre eles Abílio Roque, de que adiante falaremos, votaram contra esta decisão.
No dia 20 de outubro de 1910, apenas duas semanas após a proclamação da República, a Câmara Municipal deliberou que a Praça passasse a chamar-se Praça da República.
Os primeiros ecos dos acontecimentos do 5 de outubro em Lisboa chegam a Coimbra no próprio dia, embora a vida na cidade prosseguisse rotineiramente, sem grandes agitações e estando as tropas de sobreaviso. No dia seguinte, confirmados os rumores, a população saiu à rua, repicando os sinos, hasteando as bandeiras  do Centro Republicano e soltando os primeiros vivas à República. Seguiram-se manifestações de alegria e entusiasmo, cantou-se A Portuguesa e realizaram-se cortejos que culminaram com a proclamação da República nos Paços do Concelho. Todos esperavam que o novo regime resolvesse os males do país.
Daqui seguimos pela Avenida Sá da Bandeira. Esta avenida, que homenageia uma das grandes figuras do Liberalismo, é ainda hoje uma das maiores e mais largas artérias da nossa cidade, pois tem mais de 60 metros de largura, com um belo jardim central entre as duas faixas. Foi traçada sob inspiração dos modelos urbanísticos de Paris, os célebres boulevards, para ligar a zona da Baixa à Praça D. Luís, abrindo um novo eixo para o crescimento da cidade. A esta Avenida central afluem outras ruas secundárias. O projeto foi apresentado e realizado nas duas últimas décadas do séc. XIX, vindo a ser inaugurado em 1906, pouco antes da Proclamação Republicana.
A toponímia é o estudo dos nomes dos lugares, considerando a sua origem e evolução. Estuda os nomes das cidades e povoações mas também os das ruas, praças e avenidas. Naturalmente, os nomes dados às ruas de uma cidade como a nossa refletem um dado ambiente histórico. Por isso, é natural que encontremos em Coimbra o nome de muitas das personalidades e acontecimentos relacionados com a República atribuídos a ruas e avenidas. Procurava-se, desta maneira, homenagear e consagrar no espaço público a memória de certas individualidades que contribuiram para a afirmação dos ideais republicanos.
É o caso, por exemplo, de José Falcão ou Jaime Cortesão, vultos republicanos cujos nomes foram atribuídos a Escolas Secundárias. Outras personagens profundamente relacionadas com a República têm o seu nome atribuído a ruas da cidade: Afonso Costa, António José de Almeida, Guerra Junqueiro, Miguel Bombarda ou Teófilo Braga.
Um dos casos mais interessantes é o da atual Rua Padre António Vieira. Antes de 1910, esta artéria era chamada Rua da Cerca dos Jesuítas, pois conduzia ao Colégio dos Padres da Companhia, na zona Alta. Após o 5 de outubro, os Jesuítas foram expulsos, pois os republicanos nutriam por eles uma grande aversão. Por isso, a rua foi rebatizada com o nome de Abílio Roque, um revolucionário maçon  e anticlerical, profundamente empenhado na difusão das ideias republicanas, que faleceu em 1898. Mais tarde, já no Estado Novo, com o objetivo de reabilitar a memória dos Jesuítas, a rua foi renomeada Padre António Vieira. Sendo um padre jesuíta, esperava-se que o seu nome não fosse contestado por causa do seu valor literário. Por isso, após a revolução de 25 de abril de 1974, a designação não foi alterada, numa época em que, como em todas as revoluções, normalmente se procede a uma revisão dos topónimos.
Voltando à Avenida Sá da Bandeira, dirigimo-nos ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra. A participação das tropas portuguesas na  Guerra Mundial de 1914-1918 foi uma decisão dos governos republicanos. Procurava-se, por um lado, defender as possessões ultramarinas e, por outro, afirmar no plano internacional a jovem República Portuguesa proclamada poucos anos antes. A verdade é que, se esses objetivos foram alcançados, muitos foram os portugueses feridos e mortos em combate, quer em África, quer nas trincheiras da Flandres. Por isso, pouco depois do armistício, surgiram um pouco por todo o país movimentos espontâneos que pretendiam homenagear os mortos da guerra. Muitas ruas e avenidas foram batizadas com o nome de combatentes individuais, outras, como a Rua dos Combatentes da Grande Guerra, evocam a memória de todos os soldados.
Em Coimbra, a iniciativa de lançar uma subscrição pública para a edificação de um monumento, coube a um jornal, a Gazeta de Coimbra. Organizou-se uma campanha de recolha de fundos, lançando-se um concurso público. Escolheu-se um projeto concebido pelo escultor Luís Fernandes e pelo arquiteto António Varela. Depois de se discutir a colocação do monumento na Praça da República, acabou por se decidir pela atual localização, sendo inaugurado em 1932.
Um pouco mais abaixo, parámos num outro monumento relacionado com a República. Trata-se do monumento dedicado ao poeta Luís de Camões e inaugurado, pela primeira vez, em 1881. À primeira vista pode parecer muito estranho como é que um memorial inaugurado 30 anos antes da proclamação republicana e dedicado a um poeta do séc. XVI pode ter qualquer relação com a República.
Na verdade, em 1880, comemorou-se por todo o país o tricentenário da morte de Camões. Esta efeméride foi aproveitada pelo Partido Republicano, que tinha sido recentemente fundado, para lançar uma vasta campanha de propaganda, associando o seu ideal aos tempos áureos de Portugal, simbolizados no poeta. Camões tornou-se portanto, 300 anos depois da sua morte, um dos símbolos republicanos!
Este monumento foi idealizado por António Augusto Gonçalves, o primeiro diretor do Museu Machado de Castro, e foi originalmente colocado na Alta da Cidade. Foi desmantelado em 1948, na sequência das obras da Cidade Universitária, tendo sido arrumado e esquecido, sinal de que o Estado Novo não nutria grandes simpatias pelos ideais simbolizados neste monumento. Em 1983, já depois da Revolução de Abril, foi recolocado num pequeno recanto na Alta, junto à Couraça de Lisboa, e só em 2005 foi aqui finalmente posto, num sítio mais digno e visível. Diga-se que, da obra original, só resta o leão.
Rumo à nossa próxima paragem, fomos por dentro do Mercado D. Pedro V, com o objetivo de ver a cobertura do mercado do peixe. Trata-se de uma estrutura de ferro e vidro dos primeiros anos do séc. XX, sendo um dos raros exemplos, juntamente com o Edifício do Chiado que adiante veremos, da designada Arquitetura do Ferro na nossa cidade. A caminho da Câmara Municipal ainda notámos como é que as antigas dependências do Mosteiro de Santa Cruz, transferidas para a posse do Estado na sequência da extinção das ordens religiosas, albergaram novos serviços, como escolas, instalações militares, o posto dos correios ou a polícia.
No patamar da escadaria principal da Câmara Municipal de Coimbra está colocado um busto da República da autoria do mestre João Machado. Este busto alegórico foi inaugurado em 1919 e diz-se que teve por modelo a filha do artista, Preciosa Machado. Há outro busto no edifício do Tribunal, da autoria do filho deste escultor. O rosto feminino, inspirado nos modelos revolucionários franceses, retrata a República sob a forma de uma mulher com o barrete frígio, símbolo da liberdade conquistada, com uma coroa de louros, alusão à vitória.  A imagem está envolta na bandeira republicana e o pedestal exibe o brasão de Coimbra.
Aproximando-nos já do final do nosso itinerário, parámos em frente do atual Museu Municipal, instalado na antiga filial de Coimbra dos Grandes Armazéns do Chiado. Por isso, este belo exemplar da arquitetura do ferro e do vidro é ainda hoje conhecido por muitos conimbricenses como Edifício do Chiado. Foi inaugurado em 1910, no mesmo ano da proclamação da República.
Concluímos o nosso passeio junto à estátua de Joaquim António de Aguiar. É certo que muitos locais e ruas ficaram por visitar, nomeadamente o busto dedicado a António José de Almeida, uma das mais importantes figuras republicanas, na zona da Conchada, ou o monumento aos mortos da Grande Guerra no cemitério da Conchada, mas não podemos visitar tudo e esses locais ficavam um pouco desviados do nosso roteiro.
A estátua dedicada ao chamado Mata Frades resultou da iniciativa de algumas personalidades republicanas ainda nos anos finais da monarquia, destacando-se Martins de Carvalho e Bernardino Machado. Pretendiam assim colocar-se sob a inspiração dos ideais liberais, com o objetivo de combaterem a monarquia agonizante e fazerem a propaganda da República.
A estátua em bronze é da autoria do escultor Costa Mota (tio), sendo o grande pedestal do arquiteto Silva Pinto. Joaquim António de Aguiar empunha na mão direita a pena com que se prepara para assinar o decreto de expulsão, gesto considerado como fundador da política anticlerical da República que tinha como um dos seus grandes objetivos a separação do Estado das Igrejas. O monumento começou a ser lançado em 1911, estando concluídos dois anos após, pelo que a evocação desta figura histórica marca o início da era republicana em Coimbra.

Para a redação deste texto recorremos ao livro de Lia Ribeiro e António Ribeiro, Coimbra. Roteiros Republicanos, Matosinhos, QuidNovi, 2010.
Coimbra
Praça da República.
Avenida Sá da Bandeira Coimbra
Monumento aos mortos da Grande Guerra (Avenida Sá da Bandeira).
João Machado
Busto da República, da autoria de João Machado, na Câmara Municipal de Coimbra.
Mata-frades
Estátua de Joaquim António de Aguiar no Largo da Portagem.

22/09/2016

Museu Nacional de Arte Antiga compra pintura de D. João V feita para celebrar a vitória naval do cabo Matapão

O que vemos neste retrato real é um homem ainda jovem, elegante, com um olhar desafiador e uma batalha naval em fundo. Supomos que se trata de um rei porque sobre a mesa há uma coroa e um ceptro. Está em traje militar, mas isso não impede que as suas mangas douradas sejam bordadas e a armadura deixe à mostra uma gola de renda delicada, a mesma dos punhos.
Não se sabe exactamente quando foi executada esta pintura que acaba de entrar para a colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, mas certo é que representa D. João V e que o seu autor é o pintor italiano Giorgio Domenico Duprà, o retratista favorito do monarca que associamos de imediato ao esplendor do barroco em Portugal.
Retrato de D. João V e a Batalha do Cabo Matapão é a segunda obra comprada com os 746 mil euros conseguidos com a campanha pública da angariação de fundos “Vamos Pôr o Sequeira no Lugar Certo”, que o MNAA promoveu para comprar A Adoração dos Magos (1828), de Domingos Sequeira.
Este retrato de D. João V tinha já sido mostrado na grande exposição que o MNAA dedicou ao monarca e ao seu tempo em 2013 (A Encomenda Prodigiosa. Da Patriarcal à Capela Real de São João Baptista), depois de no ano anterior a equipa do museu ter decidido seguir-lhe o rasto. A pintura era conhecida de uma fotografia a preto e branco publicada em 1962 pelo historiador Armindo Ayres de Carvalho na obra D. João V e a arte do seu tempo, mas julgava-se que estava ainda na embaixada do Brasil em Haia. Só quando começou a investigar, e com a ajuda dos ministérios dos Negócios Estrangeiros português e brasileiro, é que o MNAA percebeu que pertencera à colecção pessoal do embaixador de então e que era hoje propriedade dos seus herdeiros.O diplomata comprara-a no pós-Segunda Guerra num antiquário em Londres, que a tinha atribuída a outro pintor que não Duprà e que confundira D. João V, o Magnânimo, com um rei inglês.
Feita para marcar a vitória na célebre Batalha de Matapão, em que a armada real portuguesa, respondendo a um pedido do Papa Clemente XI, se deslocou até ao extremo sul da Grécia para enfrentar a frota do império otomano, esta obra de Domenico Duprà (1689-1770) não está datada, mas deverá ter sido executada há 300 anos. As duas armadas – à frota portuguesa, que foi absolutamente decisiva para o sucesso, juntava-se a da República de Veneza e a dos Estados Pontifícios, já que as outras grandes cortes católicas europeias, como França, preferiram ficar em casa, encontraram-se precisamente a 19 de Julho de 1717, quando D. João V (1689-1750) não tinha feito ainda 28 anos. É por isso que aqui vemos um rei ainda jovem, mas já com todos os traços que o caracterizam.
A Batalha de Matapão, operação brilhante e meteórica em que a armada portuguesa arrumou com a frota otomana que ameaçava a península itálica de uma assentada, viria a ser fundamental para a estratégia diplomática do monarca português junto da Santa Sé, que passou a equiparar Portugal às grandes potências católicas da Europa, permitindo até que Lisboa viesse a ter uma Sé Patriarcal.
Esta aquisição permite ao museu expor uma obra de qualidade de Duprà que, mais do que Quillard, é o verdadeiro responsável pela criação da imagem de corte moderna, actualizada, optimista e consequente de que D. João V beneficia. Duprà é o grande pintor régio e este retrato é muito singular na sua obra porque tem uma paisagem em fundo, o que não era nada habitual na sua pintura.
Giorgio Domenico Duprà
Retrato de D. João V e a Batalha do Cabo Matapão, Giorgio Domenico Duprà, c. 1718.

02/09/2016

A vida das clarissas no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha

Problemas na dentição, falta de exposição solar e dieta rica em açúcares. Os ossos das antigas habitantes do , em Coimbra, e as doenças de que padeciam ajudam a retratar melhor o regime de clausura em que as freiras clarissas viviam.
Uma exposição recupera os restos mortais encontrados na escavação feita em 1996 e 97 pelo então departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra, sob a coordenação da investigadora Eugénia Cunha, para completar a informação da exposição permanente.
Na primeira vez que as ossadas exumadas há vinte anos vêm a público, atrás das vitrinas apenas se encontra um esqueleto inteiro. Ainda assim, os restantes ossos expostos contam a história das doenças que assolavam as clarissas, desde a osteoporose aos múltiplos problemas dentários. É através dessas patologias que é possível inferir o modo de vida daquela comunidade.
A exposição resulta de uma selecção de alguns dos cerca de 70 cadáveres exumados das ruínas do mosteiro, localizado na margem esquerda do Mondego até que foi abandonado no século XVII devido à constante invasão das águas do rio, as religiosas viviam e morriam ali.
O tipo de sepultura é, por si, um indicador de posição. Com excepção das figuras de relevo do mosteiro, a maioria dos enterros foi feito em caixão ou directamente no solo, em covachas. Dessas, todas as sepulturas não identificadas foram feitas na zona do coro, no interior do mosteiro. No claustro, onde foram encontradas menos ossadas, algumas tinham elementos de identificação.
A partir do estudo antropológico dos esqueletos foi possível perceber que o tempo dedicado à oração era origem de problemas físicos. As religiosas tinham lesões nos joelhos, o que pode ser associado a traumatismos de repetição causadas pela genuflexão. Nos ossos da comunidade, que estava entre os 40 e os 50 anos, foram ainda encontradas lesões nos ombros, normais em pessoas de idade avançada.
Entre tártaro, cáries e edentulismo (que significa a queda total dos dentes), a maior surpresa foi a férula dentária em ouro encontrada numa freira com mais de trinta anos. O pequeno instrumento visava impedir a queda do dente, segurando-o a outro. A importância deste achado explica-se com o facto de não haver na Coimbra do XV registo de dentistas. A origem dos problemas na dentição pode ser encontrada na dieta muito rica em açúcares.
Entre os ossos recuperados, encontram-se ainda três esqueletos de crianças. Pelo  fémur, o crânio e a dentição mista, percebe-se que tinham idades parecidas, cerca de 11 anos. Com as sepulturas anónimas, não é possível apontar ao certo uma razão para terem sido enterradas num mosteiro habitado por clarissas. Seriam parentes de alguma freira? Teriam sido tratadas na enfermaria do mosteiro?  Existiria ali uma roda dos expostos, que permitiria acolher crianças abandonadas, mas da qual não há registos?
Mas a exposição instalada no núcleo museológico inaugurado em 2009 não se fica apenas pelos restos mortais. Nas escavações dos anos 1990 foram também recuperados objectos que completam o retrato sobre a comunidade que ali viveu.
Alguns dos achados permitem questionar o voto de pobreza que as clarissas faziam ao entrar para o mosteiro. Na mesma sepultura onde foi encontrada a férula dentária em ouro, foram também encontrados brincos no mesmo material. Vários objectos pessoais de cariz ornamental foram igualmente recolhidos nas sepulturas. Como contas de um colar em azeviche, e, para além de brincos de ouro, outros em prata. Junto das defuntas foram recuperados igualmente objectos religiosos como rosários, cruzes e medalhas com representações e motivos cristãos, para além de fragmentos de cordões dos hábitos.
O vestuário era a causa de um problema de saúde a acrescentar à lista das doenças ósseas e na dentição. Ao apenas mostrar a cara, o hábito reduzia a exposição solar, o que fazia com que as clarissas sofressem de falta de vitamina D.
Outros artefactos, como tesouras, dedais, selos, moedas, remetem para as ocupações da vida em clausura.
Se pelo meio houve descobertas para as quais não se consegue encontrar uma resposta definitiva, os ossos das clarissas confirmam aquela ideia que temos de clausura: rezar muito, cozinhar muito, comunicar pelo silêncio.
Mosteiro de Clarissas em Coimbra
Achados foram desenterrados durante as escavações que decorreram em 1996 e 97.
Rosário
Rosário.
férula dentária em ouro
Crânio com férula dentária em ouro.

31/08/2016

Mosaicos da Villa Cardílio

Foi feito o levantamento da proteção dos mosaicos romanos de Villa Cardílio, que estavam cobertos para proteção há mais de vinte anos. Este levantamento, coordenado pela DGPC (Direção Geral do Património Cultural) que com o apoio da Câmara de Torres Novas realizou um levantamento fotográfico, que auxiliará a elaboração de um projeto de conservação, para futura visitação, que será apoiado pelos fundos europeus.
No ano de 1979 o autor francês Jean Gérard-Gorges na sua tese de doutoramento consagrada ao estudo das uillae na Península Ibérica individualizou três modelos arquitectónicos principais para as classificar: as uillae linares, as aúlicas e as de peristillo. A uilla constitui um inegável exemplo do modelo de uma domus rural que se organiza em torno de um peristilo e definido pelo autor citado como uilla de peristilo.
Foram escavados mais de 1200 metros quadrados pondo a descoberto cerca de uma vintena de dependências e, apesar das paredes destruídas e vandalizadas, os pavimentos de opus tesselatum e opus signinum sobreviveram, in situ. Salvaguardando os anos que percorreram, pode dizer-se em excelente estado de conservação, por sinal. Infelizmente na Uilla Cardílio apenas a pars urbana foi escavada, havendo ainda muito trabalho a fazer no terreno.
A Villa Cardilío está cronologicamente balizada do século I ao século IV d.C, no entanto os seus ascendentes também são conhecidos, na medida do possível, tendo sido encontrados vestígios de uma civilização pré-romana: diversos fragmentos de formas lisas ou decoradas (lítica e cerâmica), uma ânfora, lucernas e vários pedaços de vidro.
Mosaicos geométricos villa cardílio
Mosaicos colocados a descoberto em agosto de 2016.

Planta da Pars Urbana, por Afonso do Paço.

Nova análise dos ossos de Lucy

Uma nova análise do fóssil descoberto em 1974, em Afar, no Norte da Etiópia, permitiu dar uma explicação inédita para os momentos finais deste Australopithecus afarensis, que viveu há 3,18 milhões de anos. Lucy terá caído de uma árvore, fracturou vários ossos, sofreu feridas internas e morreu. A queda pode estar relacionada com as capacidades híbridas de locomoção de Lucy, cujo esqueleto tinha algumas características associadas ao bipedismo, tornando-o um dos fósseis mais interessantes do estudo da evolução humana.
O fóssil de Lucy foi descoberto a 24 de Novembro de 1974 pelo famoso paleoantropólogo norte-americano Donald Johnson, no local arqueológico de Hadar. O esqueleto era de uma fêmea adulta com pouco mais de um metro de altura e continha alguns fragmentos do crânio, o maxilar inferior (mandíbula), parte das vértebras e das costelas, a maioria dos ossos dos dois braços, parte da bacia e alguns fragmentos dos ossos das pernas. Cerca de 40% do esqueleto sobreviveu até hoje. Na altura, foi um dos fósseis mais completos de um hominídeo pré-humano. Ou seja, antes do género Homo, que terá surgido há menos de 2,8 milhões de anos.
A explicação de como a evolução humana aconteceu, nos últimos seis milhões de anos, está dependente dos fósseis e dos vestígios como os de Lucy. África é um ponto central nesta investigação. Foi neste continente que despontou primeiro o género Homo e, mais tarde, a nossa espécie, o Homo sapiens.
Entre os hominídeos pré-humanos, como os Ardipithecus e os Australopithecus, e o Homo sapiens, ocorreram uma série de mudanças anatómicas e culturais que são alvo de estudo. A capacidade de caminhar de forma erecta, o uso de utensílios, o desenvolvimento da fala são algumas características-chave que os cientistas pensam ter marcado a nossa evolução. A paleoantropologia tenta compreender como e quando se deram estas transições. A Lucy está numa destas encruzilhadas.
Os fósseis de outros Australopithecus afarensis tinham características antigas como um volume cerebral pequeno, uma crista óssea no crânio e ossos da face projectados para a frente, que os afastavam do género Homo. No entanto, a Lucy apresentava características que ajudaram a compreender a transição entre o estilo de vida arborícola e um estilo de vida bípede. A região pélvica da Lucy é mais parecida com o género Homo e o joelho indica que ela caminhava direita, como nós. Naquela região da África austral, a expansão das savanas nos últimos milhões de anos poderá ter sido um factor importante para o aparecimento deste tipo de locomoção.
Por tudo isto, o esqueleto tornou-se importante. A oportunidade para um novo olhar sobre o fóssil surgiu em 2008 quando a Lucy fez uma tour pelos Estados Unidos e entrou no Laboratório de Tomografia Computacional de Alta Resolução por Raios-X da Universidade do Texas.
Este equipamento é usado para analisar material geológico como rochas. Desta vez, em vez de rochas, analisou fósseis.
As 35.000 novas imagens obrigaram a uma reinterpretação de fracturas dos ossos que até agora tinham sido associadas a processos ocorridos após a morte deste australopiteco. A ponta do úmero direito (osso do antebraço) tem uma fractura que não é costume encontrar-se nos fósseis, preservando uma série de fragmentos de osso afiados que se mantiveram no lugar. Esta fractura compressiva surge quando a mão bate no chão durante uma queda, provocando um choque entre os ossos do ombro. Além do úmero, a equipa identificou fracturas no ombro esquerdo, no tornozelo, no joelho esquerdo, na pélvis e na primeira costela. Segundo os cientistas, a melhor forma de explicar o conjunto de lesões é ter havido uma grande queda. De acordo com o contexto da paisagem local, tudo indica que a queda terá sido de uma árvore.
Segundo John Kappelman, é muito provável que o pequeno australopiteco procurasse alimento e pernoitasse nas árvores, onde estaria em segurança. Há estudos sobre chimpanzés que caem de árvores em que estes primatas batem no chão a uma velocidade de 60 quilómetros por hora. Lucy tinha menos de 30 quilos de peso, pelo que os cientistas calculam que terá caído de uma altura de 12 metros e que atingiu o chão a 56 quilómetros por hora: os pés bateram no chão primeiro, depois as mãos. O fóssil não mostra qualquer vestígio de que as fracturas tenham cicatrizado. Por isso, a morte terá sido quase instantânea.
Yves Coppens foi um dos responsáveis pela expedição em Hadar, onde se descobriram os vestígios do australopiteco, afirmou: “em geral, os primatas arborícolas são habilidosos, ágeis e têm equilíbrio. Depois de 20 anos a observá-los (chimpanzés, gorilas) no seu meio natural, nunca vi tal coisa [uma queda] acontecer”. “Mas a priori não sou hostil a esta tese que, apesar de tudo, é tão válida como outra qualquer, principalmente se o investigador tiver argumentado bem.” 
A equipa defende que a queda pode estar relacionada com as adaptações desta espécie ao bipedismo. “As adaptações que facilitaram a locomoção bípede comprometeram as capacidades dos indivíduos de treparem às árvores em segurança; esta combinação de características pode ter predisposto esta espécie a quedas”, lê-se no artigo da Nature. Para a equipa, encontrar traumas semelhantes noutros fósseis poderá ajudar a descortinar o estilo de vida de outros hominídeos.
Nunca vamos saber o que originou a queda de Lucy. Seria preciso estar naquele local, no meio de África, há 3,18 milhões de anos. Mas para John Kappelman, a compreensão de como ela morreu confere uma dimensão dramática a este ícone da paleoantropologia: “Quando me apercebi da extensão dos vários ferimentos, a imagem de Lucy surgiu na minha mente e senti uma empatia súbita que atravessou o espaço e o tempo. A Lucy deixou de ser um simples conjunto de ossos numa caixa e, na sua morte, tornou-se um indivíduo real: um pequeno corpo todo partido, abandonado à beira de uma árvore.”
Esqueleto de Lucy
O esqueleto de Lucy aqui fotografado na sua visita aos EUA em 2008.

John Kappelman
O paleoantropólogo John Kappelman.