28/03/2014

Uma cosmologia medieval reformulada pela matemática moderna

"E assim, a luz (…), pela sua natureza mesmo, multiplicou-se infinitas vezes e espalhou-se uniformemente em todas as direcções. Foi desta forma que, no início do tempo, ela estendeu a matéria, que não podia deixar atrás, arrastando-a com ela e formando uma massa do tamanho do Universo material".
Esta descrição do início do cosmos, muito evocadora da moderna teoria do Big Bang, foi escrita… em latim, por um bispo e cientista medieval inglês, Robert Grosseteste (c.1175-1253). Agora, foi revisitada por uma equipa internacional de físicos, cosmólogos, historiadores, filósofos, latinistas, no âmbito de um projecto (The Ordered Universe Project) apoiado pelo Conselho britânico de Investigação nas Artes e Humanidades. O estudo revelou que os problemas teóricos com que se defrontam os cosmólogos modernos já existiam há 800 anos (apesar de ser muito improvável que Grosseteste tivesse consciência deles). Os resultados vão ser publicados em breve na revista Proceedings of the Royal Society A (mas já estão disponíveis no site arxiv.org).
Em 1225, no seu curto tratado Da luz ou o início das formas, Grosseteste expunha a primeira explicação científica de sempre da origem do Universo. Claro que, na altura, pensava-se que a Terra, imóvel, era o centro de tudo e que as estrelas e os planetas giravam em torno dela. Claro que Grosseteste não dispunha de ferramentas matemáticas para traduzir as suas palavras em fórmulas. E claro que não inventou a teoria do Big Bang, que deriva das equações da Teoria de Relatividade de Einstein e descreve uma realidade física totalmente diferente. Mas, mesmo assim, o texto (disponível desde 1942 numa tradução em inglês, a partir da qual traduzimos o excerto acima) não deixa de ser impressionante pela modernidade das ideias que expõe. Foi por isso que Gasper e Richard Bower, físico da mesma universidade, juntamente com outros colegas, quiseram reinterpretá-las à luz da linguagem matemática de hoje – e a seguir, simulá-las num computador para ver se produziriam um Universo tal como Grosseteste o concebia no século XIII.
“O trabalho que Grosseteste fez no seu De Luce é nada menos do que revolucionário”, disse-nos Bower. “A sua explicação do Universo vai para além de todas as anteriores. Aristóteles concluíra que o Universo não tinha início nem fim, mas Grosseteste diz exactamente o contrário, começando por propor uma nova teoria da matéria e desenvolvendo-a numa explicação da criação do Universo. Ou seja, trabalha como um cosmólogo moderno, propondo leis físicas e seguindo-as até ao fim. Acho isso espantoso.”
A cosmologia medieval estipulava, com base nas ideias de Aristóteles, que o Universo estava dividido em dez “esferas” concêntricas (a décima e mais exterior, o paraíso cristão, fora acrescentada mais tarde). De fora para dentro, seguiam-se mais oito, correspondentes ao firmamento (que continha as estrelas), Saturno, Júpiter, Marte, o Sol, Vénus, Mercúrio e a Lua. A primeira esfera, no centro, era a da Terra e era composta por quatro “sub-esferas” dos quatro elementos: fogo, ar, água e terra. Tal como fazem hoje os cosmólogos para explicar o que a ciência moderna revela acerca do Universo, Grosseteste concebeu a sua teoria de forma a explicar essa visão medieval. Diga-se que, ao longo do seu trabalho, os autores se preocuparam em não “contaminar” a forma de pensar de Grosseteste com ideias modernas: “É crucial evitar sobrepor uma visão moderna do mundo ao pensamento de Grosseteste”, escrevem no seu artigo.
O texto do cientista medieval explica como as interacções entre luz e matéria, que para ele são “inseparáveis”, vão dando origem consecutivamente as esferas celestiais. Isso acontece, explica, devido à rarefacção da matéria à medida que ela se afasta do ponto de origem (arrastada pela luz), e ao facto de, uma vez atingido o limite do seu percurso, a luz ser irradiada da periferia para o centro sob uma outra forma, desta vez comprimindo a matéria. “Tanto quanto sabemos, De Luce é o primeiro exemplo trabalhado a mostrar que um único conjunto de leis físicas poderia dar conta de estruturas tão diferentes como a Terra e o céu”, salienta a equipa num comentário na última edição da revista Nature. O que, acrescentam, “demonstra quão avançada era a filosofia natural no século XIII – que não foi de todo uma Idade das Trevas”.Quando os cientistas simularam as equações que tinham deduzido da leitura muito atenta do texto em latim de Grosseteste e correram simulações do modelo obtido num computador, aperceberam-se de que, embora elas pudessem efectivamente dar origem ao Universo medieval de Grosseteste, na maior parte dos casos geravam um número infinito de esferas. “Os universos estáveis com um número finito de esferas são claramente a excepção”, escrevem os autores. De facto, alterando ligeiramente os valores dos parâmetros que definem as condições que reinavam no início do Universo, obtêm-se mesmo “cosmos bizarros, onde as esferas não estão ordenadas e se misturam umas com as outras”. Ora, isso é muito parecido com a noção de “multiverso”, conceito “familiar na cosmologia moderna que considera que o Universo em que vivemos é apenas um dos muitos universos possíveis, cada um deles diferindo dos outros nos valores dos seus parâmetros fundamentais”, escrevem ainda. E, “aplicando a mesma lógica ao Universo de Grosseteste, rapidamente descobrimos que o organizado universo aristotélico (…) requer uma combinação muito especial de parâmetros fundamentais”. O que significa, concluem, que embora as ferramentas e o conhecimento científicos sejam hoje muito mais precisos, a maneira de trabalhar dos cosmólogos não mudou assim tanto ao longo dos séculos. “Trabalhamos da mesma maneira”, diz-nos Bower. “Construímos leis físicas com base em experiências e teorias que explicam o mundo que nos rodeia e depois extrapolamos essas teorias até ao início dos tempos, partindo do princípio que essas leis se aplicam em todo o espaço-tempo. (…) Mas hoje sabemos que isso tem limitações ­e a única certeza que temos é que as nossas teorias actuais acabarão um dia por ser insuficientes.”
Modelo geocêntrico
Modelo geocêntrico do Universo, numa ilustração de 1568 pelo cosmógrafo e cartógrafo português Bartolomeu Velho

21/03/2014

Os rapazes dos tanques

Este livro oferece-nos imagens e testemunhos exclusivos dos homens (oficiais, sargentos e praças) que estiveram frente a frente no Terreiro do Paço e no Carmo, no dia 25 de Abril de 1974. As fotografias de Alfredo Cunha e as entrevistas conduzidas por Adelino Gomes levam-nos a (re)viver aquelas horas e a percebermos as dúvidas, os receios, a ansiedade, a tensão, a esperança, as alegrias vividas por cidadãos que, depois desse dia, regressaram, na maior parte dos casos, ao anonimato. E a conhecer, também, o olhar que esses homens têm sobre o país, quarenta anos depois. Pela primeira vez, é dada voz a furriéis e cabos que não obedeceram às ordens de fogo do brigadeiro comandante das forças fiéis ao regime – um ato de justiça aos que estando, numa primeira fase, na defesa do regime arriscaram a vida e souberam estar à altura do desafio. Entre eles está o cabo apontador cuja ação Salgueiro Maia considerou decisiva para a vitória das forças revoltosas. Os Rapazes dos Tanques simboliza em Salgueiro Maia e em todos eles a homenagem que Portugal presta, quarenta anos depois, aos militares que derrubaram a ditadura.
Revolução dos cravos
Capa do livro Os rapazes dos tanques

20/03/2014

Santo franciscano de Nuno Gonçalves no Prado

Uma tábua atribuída a Nuno Gonçalves, pintor do Rei Afonso V, que faz parte de uma série de quatro santos atribuída ao "primitivo português", também do MNAA, será igualmente emprestada para uma exposição em torno de Roger van der Weyden e da Península Ibérica que Museu do Prado irá realizar após o restauro de um grande "Calvário" de Weyden que pertence á colecção do Escorial. Terá lugar em meados de 2015 e juntará grandes "estrelas" da pintura flamenga (e ibérica) do XV. Até ao Prado viajará por isso o santo franciscano de Nuno Gonçalves, que fará parte de uma exposição dedicada ao flamengo Rogier van der Weyden, pintor de Filipe, o Bom, Duque da Borgonha.
Santo Franciscano
Santo Franciscano de Nuno Gonçalves


Autorretrato de Dürer no MNAA

O Museu de Lisboa irá receber em maio de 2016 um dos três autorretratos de Albrecht Dürer, mais precisamente aquele que foi pintado em 1498 e que hoje pertence à coleção do Museu do Prado de Madrid. Pintado depois da viagem de Dürer a Itália, este é um dos seus primeiros autorretratos, e mostra o pintor alemão em pose altiva, garbosa, enquanto "gentil homem" e convicto das suas capacidades enquanto jovem pintor - à época, Dürer teria 17 ou 18 anos. Esta obra do mais famoso pintor nórdico do Renascimento terá sido oferecida pela cidade de Nuremberga, onde Dürer nasceu e veio a falecer em 1528, a Carlos I de Inglaterra durante o século XVII. O quadro viria a ser adquirido, mais tarde, por Filipe IV de Espanha (Filipe III de Portugal). A vinda até Portugal de um dos mais célebres quadros de Dürer sucede por troca com as "Tentaçãoes de Santo Antão", de Bosh, pertencente ao acervo do Museu Nacional de Arte Antiga, que nesse período, de maio a setembro de 2016, irá até ao Prado, fazendo parte da grande exposição dos 500 anos daquele pintor.
Dürer
Autorretrato de Dürer

Operação Fim-Regime (VISÃO História)

Já está nas bancas um novo número da VISÃO História, em que os protagonistas das acções militares do dia 25 de Abril recordam o que se passou no dia em que Portugal se tornou um país livre.
Quando chegou ao quartel do Regimento de Engenharia da Pontinha, às dez da noite de dia 24 de abril de 1974, Otelo Saraiva de Carvalho ia vestido à civil. Poderia mesmo 'ser' o engenheiro Óscar Pinto, nome de código que usara desde o golpe das Caldas, a 16 de março, altura em que os principais operacionais do Movimento das Forças Armadas se passaram a tratar por nomes falsos para não serem identificados pela polícia política. O plano 'Operação Fim-Regime' que Otelo elaborara tinha sido distribuído, nos dois dias anteriores, por militares em todo o país, graças à colaboração de oito oficiais-estafetas. Tudo a postos, portanto, para a noite em que o futuro ia começar. O leitor do número da VISÃO História posto à venda esta semana seguirá o fio dos acontecimentos exatamente a partir do momento em que Otelo entra no quartel da Pontinha.
Cerca de 30 militares foram entrevistados numa tentativa de reconstituir, com pormenor, o que se passou nas 36 horas seguintes, até à tomada da sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, às 9 da manhã de 26 de abril. É a Revolução contada, tanto quanto possível, pelos seus protagonistas. Da tomada do Quartel-General da Região Militar de Lisboa, que Otelo havia definido como um alvo fundamental, até ao cerco do quartel da GNR no Largo do Carmo, que leva à rendição de Marcelo Caetano, passando pelo que aconteceu no Porto, no Algarve e na Zona Centro, a VISÃO História tenta reconstituir, em discurso direto, como foi feita a Revolução. Algumas das reportagens são ilustradas com fotografias a cores pouco conhecidas. Numa entrevista, Vasco Lourenço explica os antecedentes da Revolução, recordando o movimento dos capitães e as movimentações que levam ao 25 de Abril, que o leitor ficará também a conhecer através de uma cronologia dos onze meses anteriores.
Visão História
Visão História - "Operação Fim-Regime"

13/03/2014

Chuvadas provocam derrocadas nas ruínas de Pompeia

Fortes chuvadas em Itália provocaram, neste inverno de 2014, pelo menos três derrocadas nas ruínas de Pompeia, revelando os problemas de conservação que afectam este património mundial. Depois do terceiro incidente que provocou a queda de um muro de dois metros, o presidente da Comissão Nacional Italiana para a Unesco, Giovanni Puglisi, declarou que “não há tempo a perder do ponto de vista burocrático”, e que é necessário “um plano de intervenção extraordinário, que garanta a segurança de toda a área de Pompeia”. Puglisi, citado pelo diário italiano La Repubblica, sublinhou a importância de se criar um sistema de drenagem das águas da chuva na zona, caso contrário, disse, “é claro que toda a Pompeia está destinada a desabar”.
Pompeia, situada aos pés do vulcão Vesúvio, ficou preservada sob a lava quando o vulcão entrou em erupção, em 79 d.C., foi redescoberta no século XVIII, e é um testemunho único do que era a vida quotidiana no Império Romano. A chuva provocou primeiro a derrocada de uma parte do muro do Templo de Vénus, afectando depois uma loja e o túmulo de Lucius Publicius Syneros. Novas chuvadas derrubaram o arco do Templo de Vénus (numa zona que já estava fechada aos visitantes) e um muro em redor da necrópole de Porta Nocera (numa área que foi agora também interdita). O jornal Il Sole 24 Ore recorda que em Novembro de 2013 as condições meteorológicas também já tinham provocado uma série de estragos importantes em Pompeia.
Ruínas de Pompeia
Ruínas de Pompeia