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| Khaled Asaad (1933-2015) arqueólogo Sírio, antigo chefe do Departamento de Museus e Antiguidades da cidade de Palmira. |
19/08/2015
Arqueólogo Khaled Asaad executado pelo Daesh em Palmira
O autoproclamado Estado Islâmico decapitou o antigo chefe do Departamento de Museus e Antiguidades da cidade de Palmira, na Síria. Khaled Asaad, de 82 anos, foi executado pelo grupo 'jihadista' na terça-feira, em Palmira, na província de Homs. O Daesh executou um dos maiores especialistas em antiguidades da Síria. Foi o chefe das antiguidades de Palmira por mais de 50 anos e estava reformado há 13. O corpo do especialista foi pendurado nas ruínas de Palmira depois de ter sido decapitado. No entanto, a foto que circula 'online' mostra um corpo numa estrada, atado ao que parece ser um poste de iluminação. Um cartaz junto ao corpo identifica-o como sendo Asaad. O Estado Islâmico acusa-o de ser leal ao regime sírio, ao representar o país em conferências no estrangeiro com "infiéis".
05/08/2015
Arqueólogos descobrem vestígios de torre islâmica e frescos do século XV no castelo de Abrantes
Pinturas murais do século XV e uma torre islâmica do século IX foram encontradas no castelo de Abrantes, "achados únicos" que resultaram de trabalhos arqueológicos ali realizados e que vão permitir "reescrever a história" da cidade. Estes achados, que incluem, entre outros, ossadas junto de um possível templo em honra do deus Mercúrio, moedas e munições para canhões dos tempos napoleónicos, vão permitir perceber melhor e ajudar a reescrever a história de Abrantes. As escavações arqueológicas, feitas no âmbito da terceira campanha de escavações aprovada em 2013 pela Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), decorreram nos meses de Junho e Julho, e tinham por objectivo obter informações sobre a ocupação proto-histórica, romana e islâmica, bem como conhecer as obras de fortificação da Idade Moderna, em trabalhos multidisciplinares desenvolvidos pelas equipas de arqueologia e património da Câmara de Abrantes e do projecto do Museu Ibérico de Arqueologia e Arte (MIAA).
As "pinturas raras" encontradas no interior da Capela da Igreja de Santa Maria do Castelo, templo quatrocentista classificado como Monumento Nacional localizado no interior da fortificação, (local onde D. João I reuniu o Conselho de Guerra a 6 de Agosto de 1385 para a Batalha de Aljubarrota), foram datadas como sendo da primeira metade do século XV pelos investigadores do Laboratório Hércules, e apresentam afinidades estilísticas com a pintura de S. Francisco de Leiria e a da capela do Palácio da Vila, em Sintra. As pinturas são das mais antigas que existem em Portugal em termos de pintura mural porque datam do século XV. São frescos em excelente estado de conservação, localizados na parede esquerda do altar-mor, por detrás do túmulo de D. Lopo de Almeida, permitindo perceber a continuidade da decoração mural.
Outra descoberta foi a confirmação e localização de uma torre islâmica em tijolo de adobe, um reforço defensivo das torres islâmicas, edificada dentro do que é hoje o castelo de Abrantes, junto da muralha proto-histórica. Esta torre permite perceber que os muçulmanos estiveram aqui, não só de passagem, mas o tempo suficiente, algures entre o século IX e XI, para terem construído estruturas defensivas na passagem do Tejo. Este é o local mais interior do país com uma torre deste género, feita com barro, material muito perecível, e existem muito poucas em Portugal.
Os recentes achados arqueológicos no interior e nas imediações do castelo de Abrantes deram um novo impulso à ideia da autarquia de construir um modelo de regeneração urbana com base num "centro cultural a céu aberto".
As "pinturas raras" encontradas no interior da Capela da Igreja de Santa Maria do Castelo, templo quatrocentista classificado como Monumento Nacional localizado no interior da fortificação, (local onde D. João I reuniu o Conselho de Guerra a 6 de Agosto de 1385 para a Batalha de Aljubarrota), foram datadas como sendo da primeira metade do século XV pelos investigadores do Laboratório Hércules, e apresentam afinidades estilísticas com a pintura de S. Francisco de Leiria e a da capela do Palácio da Vila, em Sintra. As pinturas são das mais antigas que existem em Portugal em termos de pintura mural porque datam do século XV. São frescos em excelente estado de conservação, localizados na parede esquerda do altar-mor, por detrás do túmulo de D. Lopo de Almeida, permitindo perceber a continuidade da decoração mural.
Outra descoberta foi a confirmação e localização de uma torre islâmica em tijolo de adobe, um reforço defensivo das torres islâmicas, edificada dentro do que é hoje o castelo de Abrantes, junto da muralha proto-histórica. Esta torre permite perceber que os muçulmanos estiveram aqui, não só de passagem, mas o tempo suficiente, algures entre o século IX e XI, para terem construído estruturas defensivas na passagem do Tejo. Este é o local mais interior do país com uma torre deste género, feita com barro, material muito perecível, e existem muito poucas em Portugal.
Os recentes achados arqueológicos no interior e nas imediações do castelo de Abrantes deram um novo impulso à ideia da autarquia de construir um modelo de regeneração urbana com base num "centro cultural a céu aberto".
Descobertas cartas relativas ao Incidente de Mayerling
Um pacto de suicídio com mais de 100 anos ou um assassinato que teve origem numa intrincada conspiração política? Um acto desesperado ou o resultado da vingança pessoal de uma mulher que nunca se sentiu desejada nem conseguiu dar ao império austro-húngaro um herdeiro? Um duplo homicídio executado por agentes secretos ou a última vontade de um homem que sempre se sentiu fascinado pela morte? Como explicar a morte do herdeiro do império Habsburgo, Rodolfo da Áustria, e de uma das suas amantes, a jovem baronesa Maria Vetsera?
O mistério que a rodeia é um dos mais populares dos finais do século XIX e acaba de conhecer um novo desenvolvimento com a descoberta das cartas que Vetsera escreveu à mãe e aos irmãos pouco antes de morrer, a 30 de Janeiro de 1889, no pavilhão de caça que o herdeiro austríaco tinha na pequena cidade de Mayerling.
As teorias sobre a morte do casal, umas bem mais plausíveis do que outras, avolumaram-se ao longo de décadas. E se algumas procuram caução no complexo tabuleiro político da Europa da época, antecâmara da Primeira Guerra Mundial, outras parecem saídas de uma conversa de café, de tão banais. Umas vêem no temperamento do herdeiro, sempre rodeado de mulheres e de artistas - muito mais próximo do da sua mãe, a célebre imperatriz Sissi (Isabel da Baviera), do que do do seu pai, o autoritário imperador Francisco José I - a explicação para o seu casamento falhado com a princesa Estefânia da Bélgica, com quem viria a ter uma filha, Isabel, e para os anticorpos que tinha na corte. Outras responsabilizam as suas ideias anticlericais e a sua ligação ao povo húngaro, para quem defendia uma maior autonomia, pelo isolamento político que haveria de contribuir para a sua morte. Numa corte muito conservadora e pró-Alemanha, Rodolfo era visto como um progressista perigoso que punha em risco a unidade do império e que afrontava a moral com as suas relações fora do casamento.
Foi precisamente para evitar o escândalo que decorreria de se saber que o herdeiro ao trono fora encontrado morto junto a uma das suas amantes que o corpo de Vetsera foi sepultado à pressa e em segredo. Foi para evitar que os pormenores daquele que ficaria conhecido como o Incidente de Mayerling enchessem páginas de jornais – a notícia foi amplamente tratada nos principais títulos europeus – que praticamente todos os documentos a ele ligados desapareceram e que o inquérito que o imperador Francisco José ordenou à morte do filho foi atabalhoado e deixou muita margem às mais variadas teorias.
As cartas agora descobertas parecem vir reforçar a teoria que defende que os dois amantes morreram na sequência de um homicídio-suicídio previamente acordado (Rodolfo terá matado Maria Vetsera com um tiro na cabeça antes de virar a arma para si próprio), como argumentam boa parte dos historiadores que estudaram o Incidente de Mayerling, mas é preciso que os especialistas as estudem a fundo antes de tirar conclusões definitivas.
“Querida mãe / Por favor perdoa-me o que fiz / Não conseguiu resistir ao amor”, escreve a jovem baronesa, pouco antes de morrer. “De acordo com ele, quero ser enterrada junto a ele no Cemitério de Alland /Sou mais feliz na morte que na vida.” A carta estava no cofre de um banco de Viena, dentro de uma pasta de cabedal com fotografias e outros documentos da família Vetsera ali depositada desde 1926, anunciou recentemente a Biblioteca Nacional da Áustria, que classifica como “sensacional” a descoberta das cartas de despedida da jovem amante do herdeiro do império austro-húngaro (para além da que dirige à mãe, escreve também ao irmão, Feri, e à irmã, Hanna).
É grande o entusiasmo à volta destas cartas, cuja existência era conhecida dos historiadores mas que se julgava terem sido destruídas depois da morte da mãe de Maria Vetsera, admitem os responsáveis da biblioteca. Depois de cuidadosamente analisados, os três documentos vão integrar a exposição que a biblioteca vai dedicar ao imperador Francisco José I em 2016, quando passarem 100 anos sobre a sua morte.
Não se sabe quem terá deixado no cofre os documentos de família agora encontrados, explica ainda a biblioteca num comunicado. O que se sabe é que as três cartas estavam fechadas num envelope com a insígnia do príncipe herdeiro, escrevem os jornais austríacos. Até aqui julgava-se que o único documento sobrevivente ligado a este homicídio-suicídio era a carta que o herdeiro do império Habsburgo deixou à sua mulher, Estefânia da Bélgica.
“Não consegui rever-te”, escreve Maria Vetsera ao irmão. “Vive bem. Tomarei conta de ti do outro lado porque te amo muito.” Na carta a Hanna, a irmã, é ainda mais clara: “Várias horas antes da minha morte quero dizer-te adeus. Entramos felizes no desconhecido.”
O caso de Mayerling tem captado a imaginação de várias gerações. Ao seu poder de atracção não escaparam sequer encenadores (o musical The Mayerling Affair, de David Leveaux), coreógrafos (o aclamadíssimo Mayerling, de 1978, criação de Kenneth MacMillan para o Royal Ballet de Londres) e, sobretudo, realizadores. Entre os filmes mais citados estão De Mayerling a Sarajevo (1940), do cineasta alemão Max Ophüls, e Vícios Privados, Públicas Virtudes, obra do húngaro Miklós Jancsó de meados da década de 1970, mas talvez o mais conhecido seja o que transformou Catherine Deneuve em Maria Vetsera ao lado de Omar Sharif no papel do príncipe herdeiro (Mayerling, 1968, realização de Terence Young).
A atracção explica-se sem dificuldade: são muitos e óbvios os ingredientes romanescos desta história de paixões contrariadas - há quem defenda que Rodolfo decidiu suicidar-se porque o pai o forçara a deixar Vetsera, já que o escândalo dessa relação afrontava a Igreja Católica e incomodava sectores influentes da corte - e intrigas palacianas num cenário que evoca o fim de uma época. Mas o Incidente de Mayerling pode ser também apresentado como “o primeiro sintoma claro da desintegração do império Habsburgo”, escreve o jornalista e editor Serge Schmemann no diário The New York Times, num artigo feito a propósito do centenário da morte de Rodolfo da Áustria e da jovem baronesa, altura em que novos livros e documentários multiplicavam teorias e em que um colóquio internacional que juntou historiadores, psiquiatras e outros especialistas chegou a concluir que o casal tinha feito um pacto de suicídio.
Uma das leituras do incidente mais partilhadas, a da historiadora Brigitte Hamann e do seu Rudolf, Crown Prince and Rebel, aponta para um príncipe progressista, cujo estado mental podia estar já em parte comprometido pela sífilis, que repudiava as posições autocráticas do pai e da sua corte profundamente conservadora. A investigação de Hamann mostra que, quando morreu, o herdeiro pensava em suicidar-se há mais de meio ano e que já tentara convencer outra das suas amantes, Mitzi Kaspar, a acompanhá-lo nesse plano trágico.
Acreditam alguns historiadores que era por Mitzi Kaspar que o príncipe estava verdadeiramente apaixonado. Foi a esta actriz e prostituta que terá dirigido uma carta de amor na véspera de se suicidar, uma carta que entretanto desapareceu.
Depois da morte de Rodolfo da Áustria, o seu pai mandou transformar o pavilhão de caça num convento, hoje entregue à ordem das Carmelitas Descalças. No site desta casa religiosa, que recebe muitos visitantes por causa do príncipe e de Maria Vetsera, explica-se que o casal foi ali encontrado morto em circunstâncias que ainda permanecem pouco claras e que a igreja foi construída no espaço onde antes estava o quarto do herdeiro, ocupando o altar o local exacto da cama em que os corpos dos dois amantes foram encontrados naquela manhã de 30 de Janeiro.
A morte do herdeiro só foi anunciada depois de o corpo da baronesa, devidamente vestido e penteado para esconder o buraco que a bala deixara, ter sido sepultado num cemitério próximo. Primeiro os registos oficiais atribuíram a morte do príncipe a um ataque cardíaco, depois a um acidente. Só mais tarde o próprio imperador admitiu que o filho se suicidara num momento de loucura, sem nunca falar de Maria Vetsera.
Até ao fim da vida, Francisco José da Áustria manteve silêncio sobre o que acontecera em Mayerling, dizendo apenas que “a verdade é muito pior que todas as versões”.
O mistério que a rodeia é um dos mais populares dos finais do século XIX e acaba de conhecer um novo desenvolvimento com a descoberta das cartas que Vetsera escreveu à mãe e aos irmãos pouco antes de morrer, a 30 de Janeiro de 1889, no pavilhão de caça que o herdeiro austríaco tinha na pequena cidade de Mayerling.
As teorias sobre a morte do casal, umas bem mais plausíveis do que outras, avolumaram-se ao longo de décadas. E se algumas procuram caução no complexo tabuleiro político da Europa da época, antecâmara da Primeira Guerra Mundial, outras parecem saídas de uma conversa de café, de tão banais. Umas vêem no temperamento do herdeiro, sempre rodeado de mulheres e de artistas - muito mais próximo do da sua mãe, a célebre imperatriz Sissi (Isabel da Baviera), do que do do seu pai, o autoritário imperador Francisco José I - a explicação para o seu casamento falhado com a princesa Estefânia da Bélgica, com quem viria a ter uma filha, Isabel, e para os anticorpos que tinha na corte. Outras responsabilizam as suas ideias anticlericais e a sua ligação ao povo húngaro, para quem defendia uma maior autonomia, pelo isolamento político que haveria de contribuir para a sua morte. Numa corte muito conservadora e pró-Alemanha, Rodolfo era visto como um progressista perigoso que punha em risco a unidade do império e que afrontava a moral com as suas relações fora do casamento.
Foi precisamente para evitar o escândalo que decorreria de se saber que o herdeiro ao trono fora encontrado morto junto a uma das suas amantes que o corpo de Vetsera foi sepultado à pressa e em segredo. Foi para evitar que os pormenores daquele que ficaria conhecido como o Incidente de Mayerling enchessem páginas de jornais – a notícia foi amplamente tratada nos principais títulos europeus – que praticamente todos os documentos a ele ligados desapareceram e que o inquérito que o imperador Francisco José ordenou à morte do filho foi atabalhoado e deixou muita margem às mais variadas teorias.
As cartas agora descobertas parecem vir reforçar a teoria que defende que os dois amantes morreram na sequência de um homicídio-suicídio previamente acordado (Rodolfo terá matado Maria Vetsera com um tiro na cabeça antes de virar a arma para si próprio), como argumentam boa parte dos historiadores que estudaram o Incidente de Mayerling, mas é preciso que os especialistas as estudem a fundo antes de tirar conclusões definitivas.
“Querida mãe / Por favor perdoa-me o que fiz / Não conseguiu resistir ao amor”, escreve a jovem baronesa, pouco antes de morrer. “De acordo com ele, quero ser enterrada junto a ele no Cemitério de Alland /Sou mais feliz na morte que na vida.” A carta estava no cofre de um banco de Viena, dentro de uma pasta de cabedal com fotografias e outros documentos da família Vetsera ali depositada desde 1926, anunciou recentemente a Biblioteca Nacional da Áustria, que classifica como “sensacional” a descoberta das cartas de despedida da jovem amante do herdeiro do império austro-húngaro (para além da que dirige à mãe, escreve também ao irmão, Feri, e à irmã, Hanna).
É grande o entusiasmo à volta destas cartas, cuja existência era conhecida dos historiadores mas que se julgava terem sido destruídas depois da morte da mãe de Maria Vetsera, admitem os responsáveis da biblioteca. Depois de cuidadosamente analisados, os três documentos vão integrar a exposição que a biblioteca vai dedicar ao imperador Francisco José I em 2016, quando passarem 100 anos sobre a sua morte.
Não se sabe quem terá deixado no cofre os documentos de família agora encontrados, explica ainda a biblioteca num comunicado. O que se sabe é que as três cartas estavam fechadas num envelope com a insígnia do príncipe herdeiro, escrevem os jornais austríacos. Até aqui julgava-se que o único documento sobrevivente ligado a este homicídio-suicídio era a carta que o herdeiro do império Habsburgo deixou à sua mulher, Estefânia da Bélgica.
“Não consegui rever-te”, escreve Maria Vetsera ao irmão. “Vive bem. Tomarei conta de ti do outro lado porque te amo muito.” Na carta a Hanna, a irmã, é ainda mais clara: “Várias horas antes da minha morte quero dizer-te adeus. Entramos felizes no desconhecido.”
O caso de Mayerling tem captado a imaginação de várias gerações. Ao seu poder de atracção não escaparam sequer encenadores (o musical The Mayerling Affair, de David Leveaux), coreógrafos (o aclamadíssimo Mayerling, de 1978, criação de Kenneth MacMillan para o Royal Ballet de Londres) e, sobretudo, realizadores. Entre os filmes mais citados estão De Mayerling a Sarajevo (1940), do cineasta alemão Max Ophüls, e Vícios Privados, Públicas Virtudes, obra do húngaro Miklós Jancsó de meados da década de 1970, mas talvez o mais conhecido seja o que transformou Catherine Deneuve em Maria Vetsera ao lado de Omar Sharif no papel do príncipe herdeiro (Mayerling, 1968, realização de Terence Young).
A atracção explica-se sem dificuldade: são muitos e óbvios os ingredientes romanescos desta história de paixões contrariadas - há quem defenda que Rodolfo decidiu suicidar-se porque o pai o forçara a deixar Vetsera, já que o escândalo dessa relação afrontava a Igreja Católica e incomodava sectores influentes da corte - e intrigas palacianas num cenário que evoca o fim de uma época. Mas o Incidente de Mayerling pode ser também apresentado como “o primeiro sintoma claro da desintegração do império Habsburgo”, escreve o jornalista e editor Serge Schmemann no diário The New York Times, num artigo feito a propósito do centenário da morte de Rodolfo da Áustria e da jovem baronesa, altura em que novos livros e documentários multiplicavam teorias e em que um colóquio internacional que juntou historiadores, psiquiatras e outros especialistas chegou a concluir que o casal tinha feito um pacto de suicídio.
Uma das leituras do incidente mais partilhadas, a da historiadora Brigitte Hamann e do seu Rudolf, Crown Prince and Rebel, aponta para um príncipe progressista, cujo estado mental podia estar já em parte comprometido pela sífilis, que repudiava as posições autocráticas do pai e da sua corte profundamente conservadora. A investigação de Hamann mostra que, quando morreu, o herdeiro pensava em suicidar-se há mais de meio ano e que já tentara convencer outra das suas amantes, Mitzi Kaspar, a acompanhá-lo nesse plano trágico.
Acreditam alguns historiadores que era por Mitzi Kaspar que o príncipe estava verdadeiramente apaixonado. Foi a esta actriz e prostituta que terá dirigido uma carta de amor na véspera de se suicidar, uma carta que entretanto desapareceu.
Depois da morte de Rodolfo da Áustria, o seu pai mandou transformar o pavilhão de caça num convento, hoje entregue à ordem das Carmelitas Descalças. No site desta casa religiosa, que recebe muitos visitantes por causa do príncipe e de Maria Vetsera, explica-se que o casal foi ali encontrado morto em circunstâncias que ainda permanecem pouco claras e que a igreja foi construída no espaço onde antes estava o quarto do herdeiro, ocupando o altar o local exacto da cama em que os corpos dos dois amantes foram encontrados naquela manhã de 30 de Janeiro.
A morte do herdeiro só foi anunciada depois de o corpo da baronesa, devidamente vestido e penteado para esconder o buraco que a bala deixara, ter sido sepultado num cemitério próximo. Primeiro os registos oficiais atribuíram a morte do príncipe a um ataque cardíaco, depois a um acidente. Só mais tarde o próprio imperador admitiu que o filho se suicidara num momento de loucura, sem nunca falar de Maria Vetsera.
Até ao fim da vida, Francisco José da Áustria manteve silêncio sobre o que acontecera em Mayerling, dizendo apenas que “a verdade é muito pior que todas as versões”.
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| Carta de despedida de Maria Vetsera para a mãe. |
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| Maria Vetsera. |
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| Rodolfo, o príncipe herdeiro do império austro-húngaro. |
24/06/2015
Estado Islâmico destrói dois santuários em Palmira
O autoproclamado Estado Islâmico destruiu dois santuários com centenas de anos nos arredores de Palmira, cidade que conquistou ao exército sírio no mês passado e que é também património mundial da UNESCO desde 1980.
O grupo extremista publicou as fotografias de dois mausoléus destruídos com explosões: tratam-se dos locais de enterro de Mohammad Bin Ali, companheiro do primeiro imã xiita, e do clérigo sufi Nizar Abu Bahaaeddine. Os dois santuários, considerados apóstatas pelos extremistas islâmicos sunitas, são os primeiros monumentos destruídos na cidade desde a sua ocupação pelo Estado Islâmico. Até ao momento, os extremistas destruíram apenas lápides recentes no cemitério municipal de Palmira, argumentando que estas sepulturas não devem ser visíveis.
As fotografias mostram combatentes do Estado Islâmico a caminho dos santuários com barris de explosivos e, depois, os próprios locais detonados. O túmulo de Bin Ali estava localizado a cerca de quatro quilómetros da cidade antiga de Palmira, mas o local de enterro de Abu Bahaaeddine, que teria mais de 500 anos, estava a poucas centenas de metros dos grandes monumentos da cidade.
Quando conquistaram a cidade às forças de Assad em Maio, os jihadistas anunciaram que não iriam destruir os monumentos milenares da cidade velha, como as imponentes colunas romanas e o templo de Bel, os grandes símbolos arquitectónicos de Palmira. Os extremistas disseram então que seriam destruídas as estátuas dos “ídolos que os infiéis adoram” e nada mais.
A destruição destes dois santuários até poderia confirmar esta promessa, não fosse os jihadistas terem plantado “numerosas” minas na cidade antiga de Palmira. A informação foi confirmada pelo Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que monitoriza o conflito a partir de Londres.
Não é certo, porém, se os jihadistas o fizeram para destruir os monumentos da cidade ou para travar uma possível contra-ofensiva do exército sírio, que se continua a mobilizar a poucos quilómetros da cidade.
O grupo extremista publicou as fotografias de dois mausoléus destruídos com explosões: tratam-se dos locais de enterro de Mohammad Bin Ali, companheiro do primeiro imã xiita, e do clérigo sufi Nizar Abu Bahaaeddine. Os dois santuários, considerados apóstatas pelos extremistas islâmicos sunitas, são os primeiros monumentos destruídos na cidade desde a sua ocupação pelo Estado Islâmico. Até ao momento, os extremistas destruíram apenas lápides recentes no cemitério municipal de Palmira, argumentando que estas sepulturas não devem ser visíveis.
As fotografias mostram combatentes do Estado Islâmico a caminho dos santuários com barris de explosivos e, depois, os próprios locais detonados. O túmulo de Bin Ali estava localizado a cerca de quatro quilómetros da cidade antiga de Palmira, mas o local de enterro de Abu Bahaaeddine, que teria mais de 500 anos, estava a poucas centenas de metros dos grandes monumentos da cidade.
Quando conquistaram a cidade às forças de Assad em Maio, os jihadistas anunciaram que não iriam destruir os monumentos milenares da cidade velha, como as imponentes colunas romanas e o templo de Bel, os grandes símbolos arquitectónicos de Palmira. Os extremistas disseram então que seriam destruídas as estátuas dos “ídolos que os infiéis adoram” e nada mais.
A destruição destes dois santuários até poderia confirmar esta promessa, não fosse os jihadistas terem plantado “numerosas” minas na cidade antiga de Palmira. A informação foi confirmada pelo Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que monitoriza o conflito a partir de Londres.
Não é certo, porém, se os jihadistas o fizeram para destruir os monumentos da cidade ou para travar uma possível contra-ofensiva do exército sírio, que se continua a mobilizar a poucos quilómetros da cidade.
23/06/2015
Neandertal e homem moderno da Europa cruzaram-se há 40.000 anos
A sequenciação do genoma do Neandertal, divulgada em 2010, permitiu provar pela primeira vez que o homem moderno se cruzou com os seus primos europeus. A história e a geografia destes cruzamentos continuam, em grande parte, por descobrir. Os Neandertais desapareceram da face da Terra há cerca de 39.000 anos. Mas pouco tempo antes, viveu na Roménia um dos primeiros homens modernos europeus que ajudou agora os cientistas a reconstruir uma parte da história desta mistura. Segundo uma análise genómica, houve um Neandertal que poderá ter sido o seu antepassado de quarta, quinta ou sexta geração, revela um artigo publicado nesta segunda-feira na revista Nature.
Os paleontólogos continuam a tentar reconstruir o caminho feito pela espécie humana desde a sua génese. Os humanos anatomicamente modernos surgiram há menos de 200.000 anos em África. Depois, há menos de 100.000 anos, iniciaram uma migração, colonizando toda a Terra. Mas centenas de milhares de anos antes, populações de espécies antepassadas dos humanos modernos já tinham saído de África e chegado à Europa e à Ásia, onde se instalaram e evoluíram, formando ramos separados da árvore do género Homo.
Um desses casos foi o Neandertal, que apareceu há menos de 300.000 anos, algures na Europa e na Ásia Ocidental, e floresceu aí durante centenas de milhares de anos. Os motivos para o seu desaparecimento continuam envoltos em mistério, mas parece haver uma sobreposição temporal entre a chegada do homem moderno à Europa e a extinção do Neandertal.
Durante muito tempo, questionou-se se estes dois grupos humanos tinham tido contacto entre si, se houve cruzamentos e descendência entre as duas espécies. Em 2010, o assunto da descendência ficou arrumado. Os genomas das duas espécies mostravam que todas as populações actuais humanas, menos as de origem africana, têm entre um e 3% do genoma do Neandertal.
Por isso, depois dos nossos antepassados saírem de África, encontraram-se e cruzaram-se com populações do Neandertal. Mas não se sabe quando e como é que os cruzamentos ocorreram. Os dados genéticos indicam que as populações do Leste da Ásia e as populações nativas da América partilham mais material genético com os Neandertais do que os europeus. Isto sugere que os cruzamentos entre os dois grupos humanos ocorreram logo à saída de África ou no Médio Oriente, apesar dos últimos dias do Neandertal terem sido na Europa.
A descoberta feita agora vem contrariar esta ideia. Uma equipa internacional de investigadores analisou o genoma contido numa mandíbula de Oase 1, o nome dado ao fóssil de um homem moderno encontrado em 2002, em Pestera cu Oase, um sistema de grutas perto da cidade de Anina, no Oeste da Roménia. Oase 1 viveu há cerca de 40.000 anos. Apesar da forma da mandíbula ter muitas características dos humanos modernos, tem também alguns traços dos Neandertais. Os cientistas concluíram que estes traços têm uma base genética, já que entre seis e 9% do seu genoma é igual ao do Neandertal.
“Mostrámos que um dos primeiros homens modernos conhecidos na Europa tinha um antepassado Neandertal que remonta apenas à quarta, à quinta ou à sexta geração na sua árvore genealógica”, disse Svante Pääb, geneticista do Instituto Max Planck para Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha, e um dos autores que lideraram o estudo. “Ele traz mais ADN Neandertal do que qualquer outro humano moderno actual ou antigo até à data”.
Segundo o artigo, esta descoberta mostra que o cruzamento entre humanos modernos e Neandertais não aconteceu só no Médio Oriente, mas houve cruzamentos mais tarde, na Europa. Os cientistas obtiveram estes resultados depois de fazerem a sequenciação do genoma de Oase 1 e o compararem com o do Neandertal. O homem moderno tinha três longos pedaços de ADN que são dos nossos primos, permitindo estimar que o seu antepassado Neandertal seria bastante recente, teria vivido 100 a 150 anos antes de Oase 1.
Os paleontólogos continuam a tentar reconstruir o caminho feito pela espécie humana desde a sua génese. Os humanos anatomicamente modernos surgiram há menos de 200.000 anos em África. Depois, há menos de 100.000 anos, iniciaram uma migração, colonizando toda a Terra. Mas centenas de milhares de anos antes, populações de espécies antepassadas dos humanos modernos já tinham saído de África e chegado à Europa e à Ásia, onde se instalaram e evoluíram, formando ramos separados da árvore do género Homo.
Um desses casos foi o Neandertal, que apareceu há menos de 300.000 anos, algures na Europa e na Ásia Ocidental, e floresceu aí durante centenas de milhares de anos. Os motivos para o seu desaparecimento continuam envoltos em mistério, mas parece haver uma sobreposição temporal entre a chegada do homem moderno à Europa e a extinção do Neandertal.
Durante muito tempo, questionou-se se estes dois grupos humanos tinham tido contacto entre si, se houve cruzamentos e descendência entre as duas espécies. Em 2010, o assunto da descendência ficou arrumado. Os genomas das duas espécies mostravam que todas as populações actuais humanas, menos as de origem africana, têm entre um e 3% do genoma do Neandertal.
Por isso, depois dos nossos antepassados saírem de África, encontraram-se e cruzaram-se com populações do Neandertal. Mas não se sabe quando e como é que os cruzamentos ocorreram. Os dados genéticos indicam que as populações do Leste da Ásia e as populações nativas da América partilham mais material genético com os Neandertais do que os europeus. Isto sugere que os cruzamentos entre os dois grupos humanos ocorreram logo à saída de África ou no Médio Oriente, apesar dos últimos dias do Neandertal terem sido na Europa.
A descoberta feita agora vem contrariar esta ideia. Uma equipa internacional de investigadores analisou o genoma contido numa mandíbula de Oase 1, o nome dado ao fóssil de um homem moderno encontrado em 2002, em Pestera cu Oase, um sistema de grutas perto da cidade de Anina, no Oeste da Roménia. Oase 1 viveu há cerca de 40.000 anos. Apesar da forma da mandíbula ter muitas características dos humanos modernos, tem também alguns traços dos Neandertais. Os cientistas concluíram que estes traços têm uma base genética, já que entre seis e 9% do seu genoma é igual ao do Neandertal.
“Mostrámos que um dos primeiros homens modernos conhecidos na Europa tinha um antepassado Neandertal que remonta apenas à quarta, à quinta ou à sexta geração na sua árvore genealógica”, disse Svante Pääb, geneticista do Instituto Max Planck para Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha, e um dos autores que lideraram o estudo. “Ele traz mais ADN Neandertal do que qualquer outro humano moderno actual ou antigo até à data”.
Segundo o artigo, esta descoberta mostra que o cruzamento entre humanos modernos e Neandertais não aconteceu só no Médio Oriente, mas houve cruzamentos mais tarde, na Europa. Os cientistas obtiveram estes resultados depois de fazerem a sequenciação do genoma de Oase 1 e o compararem com o do Neandertal. O homem moderno tinha três longos pedaços de ADN que são dos nossos primos, permitindo estimar que o seu antepassado Neandertal seria bastante recente, teria vivido 100 a 150 anos antes de Oase 1.
No entanto, quando compararam o genoma do Oase 1 com o dos europeus actuais, perceberam que aquele humano não terá deixado descendentes actuais. “A ausência de uma relação clara do indivíduo Oase 1 com os mais recentes humanos modernos da Europa sugere que poderá ter havido um membro de uma população inicial dos primeiros humanos que se cruzou com um Neandertal, mas que não contribuiu muito para as populações europeias mais tardias”, explica o artigo.
Para David Reich, investigador do Departamento de Genética da Escola Médica de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos, que co-liderou o estudo, esta informação é importante para compreender os fluxos migratórios na Europa. “Isto é interessante porque mostra que a Europa não foi continuamente ocupada pelas mesmas linhagens desde a primeira migração dos humanos modernos que chegaram à Europa”.
Os próximos passos para compreender melhor a história entre os humanos modernos e os Neandertais é, segundo o artigo, o estudo do genoma de outros fósseis dos nossos antepassados que tenham traços morfológicos semelhantes aos dos nossos primos desaparecidos.
Para David Reich, investigador do Departamento de Genética da Escola Médica de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos, que co-liderou o estudo, esta informação é importante para compreender os fluxos migratórios na Europa. “Isto é interessante porque mostra que a Europa não foi continuamente ocupada pelas mesmas linhagens desde a primeira migração dos humanos modernos que chegaram à Europa”.
Os próximos passos para compreender melhor a história entre os humanos modernos e os Neandertais é, segundo o artigo, o estudo do genoma de outros fósseis dos nossos antepassados que tenham traços morfológicos semelhantes aos dos nossos primos desaparecidos.
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| A mandíbula de Oase 1, encontrada em 2002, numa gruta na Roménia. |
04/06/2015
Sepultura de uma dama do século XVII descoberta em França
Um caixão de chumbo contendo o corpo excepcionalmente bem conservado de uma dama da nobreza do século XVII, completamente vestida de freira, foi desenterrado durante escavações arqueológicas preventivas realizadas no Convento dos Jacobinos da cidade de Rennes, no Oeste de França. O corpo fechado no sarcófago, com um tamanho de 1,45 metros, foi descoberto em Março de 2014 na capela de São José daquele convento. Trata-se provavelmente dos restos mortais de Louise de Quengo, uma viúva da alta nobreza bretã, que morreu em 1656 com mais de 60 anos de idade. O coração do seu marido, Toussaint de Perrien, foi efectivamente encontrado nas proximidades, explicaram na terça-feira os arqueólogos. Mais quatro caixões de chumbo do século XVII já tinham igualmente sido descobertos no mesmo convento, bem com 800 outras sepulturas. Mas todas elas apenas continham esqueletos. Pelo contrário, no sarcófago de Louise de Quengo “vimos logo que o conteúdo era volumoso, que havia tecidos e calçado”, conta Rozenn Colleter, arqueóloga do Instituto Nacional de Investigação Arqueológica Preventiva (Inrap) francês. Debaixo da capa, salienta, “conseguimos vislumbrar as mãos a segurar num crucifixo”. O corpo foi submetido a duas análises por tomografia de raios X e autopsiado. “Com Louise, foram surpresas atrás de surpresas”, explicou Fabrice Dedouit, radiologista e médico forense. O exames revelam “grandes cálculos renais” e “aderências pulmonares” – e que o coração foi removido “com uma real mestria da prática cirúrgica”. Quanto às vestes, degradadas pelos sucos de putrefacção, foram restauradas e deverão ser exibidas. A viúva, que tinha provavelmente escolhido residir no convento até ao fim da vida, conforme o costume da época, estava vestida de forma muito austera: uma capa, um vestido de lã tosca, uma camisa de pano. Nos pés, tinha meias de lã e pantufas com sola de cortiça. Um pano tapava-lhe o rosto, duas tocas e uma coifa de freira cobriam-lhe a cabeça. Dentro de uns meses, o seu corpo será novamente inumado em Rennes.
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| O corpo da dama a ser examinado pelos cientistas. |
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