10/09/2015

Visão História - Imagens de Portugal no século XIX

Este número da VISÃO História deveria começar a ser lido pelo último texto, já que é a fotografia o motivo da sua realização. Foi a partir de Tesouros da Fotografia Portuguesa do Século XIX, um projeto do Museu Nacional de Arte Contemporânea Museu do Chiado, que surgiu a ideia de dedicar uma edição à segunda metade do século XIX, mais precisamente a partir de 1839, ano em que foi noticiada a descoberta do processo de fixar as imagens e em que a rainha portuguesa D. Maria II recebeu um fotógrafo francês, que lhe mostrou a nova invenção. O projeto do Museu Nacional de Arte Contemporânea, dividido em duas exposições patentes no Museu do Chiado entre 30 de abril e 28 de junho de 2015, em Lisboa, e na Galeria Municipal Almeida Garrett, no Porto, até 16 de agosto e completado pela publicação de um catálogo, lança um novo olhar sobre a forma como é habitualmente entendida a fotografia e a sua história, reunindo imagens de diferentes acervos, muitas delas expostas pela primeira vez.
Foi a partir desse conjunto de imagens que se construiu este número, agrupando as fotografias por grandes temas a política, os caminhos-de-ferro, as cidades, a cultura, etc. e contextualizando-as historicamente. Especialistas e investigadores foram convidados para escrever sobre cada um dos assuntos e os principais acontecimentos são lembrados numa cronologia dividida em quatro períodos históricos, espalhadas ao longo do número.
Imagens de Portugal no século XIX
Capa da revista Visão História, "Imagens de Portugal no século XIX"

A Sagrada Família com Santa Ana de El Greco no MNAA

Obra Convidada - A Sagrada Família com Santa Ana, de Domenikos Theotokopoulos, El Greco (1541-1614)
Inaugura no dia 14 de setembro, às 18h00, no Museu Nacional de Arte Antiga a última Obra Convidada do ano: A Sagrada Família com Santa Ana, de Domenikos Theotokopoulos, El Greco (1541-1614), vinda do Museo de Santa Cruz, Toledo.
Exposição inaugural da Mostra Espanha 2015, esta Obra estará patente no MNAA até 10 de janeiro de 2016.
El Greco
Obra Convidada - A Sagrada Família com Santa Ana de El Greco (1541-1614)

09/09/2015

Ossos de vítimas da Inquisição na antiga prisão de Évora

O castigo era das almas, mas os corpos foram abandonados sem direito a cerimónias fúnebres ou compaixão de últimos instantes. Nos 20 metros quadrados do “quintal da limpeza dos cárceres”, a lixeira da prisão do Tribunal da Inquisição de Évora, 12 esqueletos e 980 ossos desarticulados são hoje a memória última que sobejou da vida de homens e mulheres perseguidos pelo Santo Ofício. Uma equipa de investigadores foi analisar essas ossadas, que datam dos séculos XVI e XVII, e recuperar os respectivos processos acusatórios e determinou que as vítimas terão sido acusadas de “judaísmo”, “heresia” e “apostasia”.
Os restos mortais foram encontrados por acaso, entre 2007 e 2008, durante as intervenções arqueológicas desenvolvidas para a recuperação do antigo Tribunal da Inquisição, edifício que hoje pertence à Fundação Eugénio de Almeida. Ao lado, o templo romano do século I d.C. ergue-se como símbolo da liberdade que teima em persistir. A empresa Crivarque Arqueologia e a Universidade de Évora foram responsáveis pelas escavações no “quintal da limpeza dos cárceres”, onde se encontravam dispersos, entre lixo doméstico, ossos que pertenceram a pelo menos 16 pessoas. Entre 2012 e 2013, o material osteológico foi estudado pela equipa de cientistas do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Universidade de Coimbra e do Departamento de Biologia da Universidade de Évora, que publicou os resultados em Julho deste ano na revista Journal of Anthropological Archaeology.
Foram encontrados ossos de pelo menos 16 indivíduos [distinguidos pelo osso do fémur esquerdo]. Pelos relatórios arqueológicos de campo. Mais alguns esqueletos ficaram no local, porque a área onde se encontravam não iria ser afectada pelas obras. A área escavada constitui apenas 11,5% do total do quintal, motivo que leva os investigadores a pensar ser possível encontrar mais restos mortais na área não explorada.
O que fez os investigadores concluírem que os corpos teriam sido para ali atirados foi a posição em que se encontravam. A disposição dos esqueletos era variável, o que revelou a ausência de cerimónia fúnebre. Uns estavam de barriga para baixo, outros de lado e outros virados para cima; nenhum apresentava qualquer orientação da cabeça relativamente aos pontos cardeais. Além disso, a sua posição face à camada de terra indicava que os corpos não teriam sido sepultados.
Depois de analisarem fotografias do local tiradas durante as escavações os cientistas foram traçar o perfil biológico de cada um dos indivíduos encontrados. Os esqueletos pertenciam a 12 adultos, três homens e nove mulheres.
E o que contam os ossos sobre os indivíduos e a vida na prisão? Aqueles indivíduos morreram no cárcere, mas nem todas as doenças deixam provas nos ossos. E também não se encontraram provas de torturas, como, por exemplo, membros superiores ou inferiores partidos.
Mas neste caso a literatura veio preencher as lacunas no que a biologia não pôde contar. Nas Notícias Recônditas do Modo de Proceder a Inquisição de Portugal com os Seus Presos (1821), o padre António Vieira ilustra as condições em que eram mantidos os presos no cárcere de Évora, enquanto aguardavam julgamento.
“Nestes cárceres estão de ordinário quatro, e cinco homens; e às vezes mais, conforme o número de presos que há; e a cada um se lhe dá seu cântaro de água para oito dias (e se acaba antes, tem paciência) e outro mais para a urina, com um serviço para as necessidades, que também aos oito dias se despejam: e, sendo tantos os em que conservam aquela imundícia, é incrível o que nele padecem estes miseráveis, e no Verão são tantos os bichos, que andam os cárceres cheios, e os fedores tão excessivos, que é benefício de Deus sair dali homem vivo. E bem mostram os rostos de todos, quando saem nos Actos, o tratamento que lá tiveram, pois vêm em estado que ninguém os conhece”.
No cárcere de Évora, os presos estavam ainda sujeitos a tortura. Para confessarem os crimes de que eram acusados, os seus carrascos utilizavam a tortura da polé e do potro. A tortura da polé foi preferencialmente utilizada pela Inquisição de Évora e era aplicada por ordem crescente de gravidade das acusações. O réu era colocado no banco com as mãos atadas com correias atrás do corpo e ligadas ao calabre que o içava. Era depois erguido até onde a gravidade da sua acusação o levava e largado lenta ou bruscamente. Na tortura do potro, que apenas foi pedida pela Inquisição de Évora em 1593, o réu era deitado com uma coleira em ferro no seu pescoço e era atado em várias partes nos braços e nas pernas. As cordas eram depois apertadas e giradas como um torniquete, pressionando de forma progressiva os membros do condenado e podendo chegar ao ponto de esmagar a sua carne e ossos”.
Numa outra fase do estudo, os investigadores foram explorar as fontes documentais que poderiam ajudar a reconstituir a identidade dos ossos. Os manuscritos do Arquivo Distrital de Évora e os registos dos encarcerados conservados na Torre do Tombo, em Lisboa, contribuíram em grande escala para conhecer melhor a história. Um dos manuscritos constatava que o “quintal de limpeza da prisão” não estaria associado à Inquisição pelo menos até 1568. Por outro lado, os planos de construção do edifício, projectado em 1634 pelo arquitecto da Inquisição Matheus de Couto, indicavam que nesta altura o quintal já não era usado como um local de depósito de lixo doméstico. Estes dados levaram os investigadores a concluir que os corpos teriam sido ali depositados entre 1568 e 1634. Delimitado o período de tempo, a equipa pôde recuperar 87 registos de indivíduos que teriam morrido na cadeia entre essas datas. Desses 87 registos, 11 referiam-se a presos que, depois de mortos, teriam sido depositados no quintal da prisão. Acusados de “judaísmo”, “heresia” e “apostasia”, os 11 indivíduos tinham profissões como tendeiro, ferreiro, trapeiro, rendeiro, ourives ou maceiro. Se eram ou não judeus, isso é impossível de afirmar. Aquela era uma época de medo e vários historiadores referem que as pessoas acusavam familiares, amigos, vizinhos com medo de eles próprios serem acusados primeiro por essas pessoas. Isabel Vaz, Leonor Mendes, Gabriel Fernandes ou António Mendes são alguns dos nomes que não se perderam no tempo. Nem todos os processos dizem qual é o local onde a pessoa foi enterrada.
Em grande parte dos casos o julgamento nunca chegava. “Estes, que mal se sabem benzer, e que, se lho perguntarem, não hão-de saber explicar que cousa é ser cristão, nem o que é ser judeu, vão logo pelos caminhos persuadindo aos presos que confessem, e tornem para suas casas”, lemos ainda nas Notícias de Vieira. “Porque os Senhores Inquisidores são de muita misericórdia, que a usarão com eles: e que, se não confessarem, estarão lá muitos anos, e sairão a morrer.”
Os documentos analisados sugerem ainda que apenas pessoas acusadas de não seguir a religião católica eram depositadas no jardim, depois de mortas. Mas a lei da Inquisição portuguesa também o corrobora. O caso de Francisco Machado é exemplo que mostra as diferenças de tratamento consoante o “crime”. Acusado de poligamia, o réu recebeu em 1608 um funeral, tendo sido sepultado na Igreja de Santo Antão, junto ao Tribunal da Inquisição de Évora. O propósito deste tratamento inapropriado aos mortos era não só para punir os seus corpos, mas mais ainda para enfraquecer e destruir as suas almas.
A instituição do Tribunal do Santo Oficio em Portugal foi em 1532, no reinado de D. João III. O tribunal era simultaneamente régio e eclesiástico e a sua acção estendia-se a todo o país e territórios da Coroa portuguesa. Em 1821 a Inquisição portuguesa era finalmente extinta. Hoje, e desde Janeiro deste ano, é possível a descendentes de judeus sefarditas, expulsos de Portugal a partir do século XV, pedirem a nacionalidade portuguesa, por naturalização.
“Quatro palmos de casa cabe a cada um. Aos mortos são concedidos sete pés de sepultura, e nem tantos de casa cabem a cada um destes desgraçados vivos”, assim testemunhava o padre António Vieira, cristão destemido na luta contra a Inquisição.
Quintal da limpeza do Tribunal da Inquisição de Évora
Esqueleto encontrado no "quintal da limpeza dos cárceres" do Tribunal da Inquisição de Évora.
Quintal da limpeza do Tribunal da Inquisição de Évora
Ossos encontrados no "quintal da limpeza dos cárceres" do Tribunal da Inquisição de Évora.
Quintal da limpeza do Tribunal da Inquisição de Évora
O "quintal da limpeza dos cárceres" do Tribunal da Inquisição de Évora.

04/09/2015

Estado Islâmico destrói torres funerárias em Palmira

Menos de uma semana depois de ter detonado o principal tempo de Palmira, o Estado Islâmico destruiu três torres funerárias no complexo arqueológico da cidade antiga, segundo o director-geral de Antiguidades e Museus da Síria.
As torres de arenito, erigidas entre 44 e 103 d.C., situam-se fora das muralhas da cidade, numa área conhecida como Vale dos Túmulos. Entre os monumentos atingidos contam-se a Torre de Elahbel, construída em 103 d.C., e a mais bem preservada de todo o conjunto. Com os seus quatro pisos, a Torre de Elahbel tinha capacidade para 300 sarcófagos.
Só nas últimas duas semanas, os militantes do Estado Islâmico apagaram do mapa os dois templos mais importantes de Palmira, os templos de Baal-Shamin e de Bel.
Classificada pela UNESCO como Património da Humanidade desde 1980, as ruínas monumentais de Palmira resultam do cruzamento entre a cultura greco-romana, influências persas e tradições locais, o que lhes confere um carácter rico e único. O Estado Islâmico começou a sua campanha de destruição em Palmira em Junho, anunciando que iria remover todas as “manifestações de politeísmo”.
Palmira
Vale dos Túmulos com as torres de arenito, erigidas entre 44 e 103 d.C .

21/08/2015

600 anos da conquista de Ceuta (21 de agosto de 1415)

Na madrugada de 21 de Agosto de 1415, quando o sol começou a nascer, os habitantes de Ceuta podiam ver na linha do horizonte que se perdia no mar um cenário tão grandioso como assustador.
A pouca distância da costa, mais de 200 naus, fustas e galés preparavam o desembarque dos primeiros soldados da expedição de uns 20 mil homens que D. João I tinha armado para conquistar a cidade. Pela primeira vez na sua história de menos de quatro séculos, os portugueses arriscavam sair do seu ancoradouro europeu e conquistar um pedaço do continente africano que, sob diferentes conceitos e ideologias, haveria de permanecer no seu consciente colectivo até 1974. Poucas datas da história nacional encerram o mesmo peso e o mesmo significado desse dia de há 600 anos, quando Ceuta caiu nas mãos dos portugueses após uma batalha que durou entre as seis da manhã e as sete e meia da tarde.
Sabe-se pela Crónica da Tomada de Ceuta escrita por volta de 1450 por Gomes Eanes de Zurara que D. João I pensava numa operação militar no exterior das suas fronteiras desde 1409. Por essa altura, o rei já sabia da iminência de um tratado de paz que poria fim a um quarto de século de hostilidades abertas ou veladas com Castela. Com a assinatura do tratado de Ayllon, a 31 de Outubro de 1411, as tréguas com o inimigo castelhano são prolongadas até à maioridade do rei Juan II, em 1419, o que permitia a D. João I pensar em novas ousadias. As oportunidades com que se confrontavam não eram muitas. O alvo das suas ambições podia ser o reino de Granada, o último bastião mouro na Península Ibérica, a Itália ou o Norte de África. No primeiro caso, qualquer movimento enfureceria os castelhanos, que pela tradição da Reconquista tinham direito natural a conquistar os territórios a sul das suas fronteiras. As ilhas italianas ficavam longe e obrigavam a verter sangue cristão. África era por todas as razões o destino mais lógico nas conjecturas do rei que, desde muito cedo encontrou nos seus filhos mais velhos, D. Duarte, D. Henrique e D. Pedro, um apoio entusiástico.
O projecto da conquista de Ceuta ter-lhe-á sido apresentado pelo seu vedor da Fazenda, João Afonso de Alenquer (1395-1433), conhecedor das riquezas da cidade. Ceuta, diria Alenquer citado por Zurara, “é uma muito notável cidade e muito azada para se tomar”, para lá de ser “muito rica e muito formosa”. Determinado o destino, era necessário começar as preparações no maior segredo. Para começar, era preciso conhecer o terreno. Uma missão que foi entregue em 1412 ao prior do Hospital, D Álvaro Gonçalves Camelo e ao capitão de mar e anadel-mor dos besteiros, Afonso Furtado. Sob o disfarce de uma viagem à Sicília, ambos passam por Ceuta numa clara operação de espionagem. No regresso, trazem informações sobre as praias para o desembarque, as muralhas, a localização das suas 70 portas e postigos. O prior fez até uma maqueta para mostrar “os lugares por onde a cidade podia receber combate”, escreveu Zurara.
O rei começa então a fazer contas. Preocupava-se com os gastos da operação e com a sua viabilidade – ou pelo menos, para sublinhar o seu zelo e reflexão, foi essa a ideia que Zurara quis inscrever na História. D. João I afligia-se com a falta de dinheiro e com os limites para lançar novos impostos – seria um “escândalo para o povo”; com a distância de Ceuta e ausência de meios de transporte para lá chegar; com a falta de gente; com a incerteza sobre o futuro das relações com Castela; com as dúvidas sobre os proveitos a tirar da conquista; e com suspeitas sobre os custos de manutenção da praça. Era uma agenda difícil de gerir.
Garantido o apoio dos filhos, o rei procura obter a aliança do Condestável, D. Nuno Álvares Pereira e da sua mulher, Filipa de Lancastre. Após a sua anuência, D. João manda apressar os preparativos no início de 1414. Até ao ataque faltava mais de um ano e meio e o sucesso da sua estratégia só seria possível se as operações permanecessem sigilosas. Em Julho desse ano, porém, os planos reais saem do círculo estrito dos seus colaboradores e tiveram de ser discutidos com o seu Conselho. No dia 23 de Julho, uma parte dos 32 conselheiros do rei é convocada para Torres Vedras. D. João trata então de “propor este feito e determinar o termo certo em que com a graça de Deus hajamos de partir”. Os conselheiros apoiam o plano. No final são obrigados a jurar segredo sob o Santo Lenho de Vera Cruz e o Livro dos Evangelhos, informa-nos Zurara.
Começa então a corrida contra o tempo. O conde de Barcelos, D. Afonso, filho bastardo do rei, fica a gerir o recrutamento no Entre o Douro e Minho. O infante D. Henrique responsabiliza-se pelas tropas das Beiras e Trás-os-Montes que embarcariam no Porto – excedeu-se ao mandar todos os capitães vestirem-se de libré. D. Pedro trataria da mobilização das tropas a sul, que se concentrariam em Lisboa. D. João ficaria a supervisionar o processo e a gerir a provisão das armas. De alguma forma, toda a burocracia do Estado se envolveu nas preparações. A D. Duarte couberam os encargos da governação do país – com tanto empenho que caiu na depressão.
Estava em curso a criação de uma força naval formidável para o tempo. Os historiadores falam entre 190 e 270 barcos, que transportariam 20 mil homens. Toda a frota nacional é convocada e modernizada e são contratados 13 barcos da Biscaia, 22 alemães e flamengos, 4 bretões e 10 britânicos. Para lá dos barcos, do estrangeiro começaram a chegar aventureiros em busca de façanhas e glória - três fidalgos franceses, um barão alemão com 40 escudeiros, um nobre inglês que “suportava à sua conta quatro ou cinco naus guarnecidas de archeiros e outras gentes”, de acordo com o historiador Carlos Guardado da Silva. Nos estaleiros nacionais a azáfama é tão impressionante que dá nas vistas. A grande frota dos portugueses e o seu destino incerto tornaram-se conversa corrente nas cortes europeias. D. João trata de apaziguar Castela, jura paz eterna com Aragão e tergiversa com o rei Yussuf III de Granada, que se apressa a tentar uma política de apaziguamento com Lisboa.
Fernando de Aragão desconfia e envia um espião, Ruy Diaz, para tentar perceber o que estava a acontecer. As informações que recebe dão conta de uma enorme mobilização no país, de mais de 100 barcos já reunidos e da espera de muitos mais. Mas apesar de se ter reunido com o rei e com altas figuras do Estado, Ruy Diaz não consegue saber o destino da frota. Só na sua carta despachada para Aragão depois da partida da frota admite que o seu destino seria Gibraltar ou Ceuta. Para alimentar estas incertezas, D. João I envia uma embaixada ao duque da Holanda e da Baviera, Guilherme IV, desafiando-o para a guerra (havia queixas de ataques de barcos holandeses aos mercadores nacionais), o que era uma forma de “encobrir”, no termo de Zurara, o destino da frota.
A poucos meses da partida, um surto de peste dificulta os planos. Uma das suas vítimas é a rainha Filipa, que perece a 19 Julho de 1415. Num conselho régio realizado em Alhos Vedros discutiu-se o adiamento da operação. A peste era um mau prenúncio e uma ameaça para as tropas que se concentravam. O condestável quis adiar a partida. O rei, forçado pelos seus filhos, teve de desempatar com o seu voto que qualidade. Por essa altura tinha-se já chegado a um ponto de não retorno.
A frota de D. Henrique sai do Porto, cidade onde nascera, a 13 ou 14 de Julho. “Todas as naus e galés e outros navios eram nobremente apendoadas com brasões e pendões pequenos das cores, moto e divisa do infante, e porque eram todos novos e bem acompanhados de ouro, davam muito grande vista”, relataria Zurara com base em memórias da época – a sua crónica foi escrita 35 anos depois da conquista. A frota do Porto junta-se à de Lisboa e em 25 de Julho, dia de Santiago, padroeiro da luta contra os mouros, parte para África. O rei comanda as galés, o infante D. Pedro as naus. Em Lagos faz-se uma missa e Frei João de Xira revela finalmente o destino da expedição. Só então esses milhares de homens sabem que estão em viagem para Ceuta. 
De Lagos a frota parte para Faro, onde fica até 9 de Agosto à espera de ventos favoráveis. As galés, as fustas e os barcos mais pequenos chegam a Ceuta a 12, mas aqui surge um primeiro e grave contratempo. O nevoeiro e as fortes correntes arrastam as naus para as costas de Málaga. A armada ficara partida e, pior, o efeito-surpresa tinha-se perdido. A 19 de Agosto, um pouco a sul de Algeciras, um novo conselho régio é convocado para decidir o que fazer. Os infantes insistem no ataque; outros defendem uma mudança de planos com um assalto a Gibraltar; outros ainda reclamam o regresso puro e simples a casa. No dia seguinte, na Ponta do Carneiro, o rei senta o conselho no chão e anuncia a sua decisão: atacar sem demoras. “Amigos, este dia foi sempre por mim muito desejado”, terá dito, de acordo com Zurara.
É assim que, na noite de 20 de Agosto os habitantes de Ceuta vêm estupefactos a frota reunida. A cidade nesse tempo estava longe do seu apogeu comercial e intelectual, mas era ainda enorme, rica e conservava o seu papel de porta do Mediterrâneo. A crise da dinastia Merindia, que a controlava desde Fez, tinha alimentado uma perda continuada de poder económico e de população. Mas para o padrão das cidades portuguesas coevas, Ceuta era uma urbe imponente. Mohâmede ben Alcácime deixou-nos uma memória escrita em 1422 na qual lamentava a perda para os cristãos de uma cidade que chegara a ter 62 bibliotecas científicas, 142 mercados, 24 mil casas comerciais e 360 estalagens.
Os relatos da conquista que nos chegaram dão conta de uma operação fácil, tão fácil que o castelo de Ceuta caiu sem que fosse necessário aplicar nos combates toda a força de escudeiros, besteiros do conto ou cavaleiros da nobreza ansiosos de obter na cidade a tão desejada “honra” e o não menos importante “acrescentamento” de riquezas aos seus pecúlios.
Poucas horas antes do desembarque, D. João instruíra os seus comandantes para uma operação com duas cabeças. Parte da esquadra, sob o comando do rei, lançaria uma manobra de diversão na zona mais a sul da face da península de Ceuta voltada para a Ibéria, com cerca de quatro quilómetros de extensão, enquanto o resto das suas tropas desembarcariam ao seu sinal na praia que viria a ser designada com o nome de Santo Amaro. O sinal do rei nunca seria emitido. A força de assalto comandada pelo infante D. Henrique lançou-se precipitadamente à praia e iniciou o combate antes de D. João I o ter determinado.
Rui Gonçalves foi o primeiro a pisar terra firme. D. Henrique seguiu-o. D. Duarte, o príncipe herdeiro, que seguia na armada do pai, abandonou a formação e correu na sua embarcação ao encontro da batalha que já se travava nas areias de Santo Amaro. Num ápice, estão em terra duas ou três centenas de portugueses que conseguem anular a estratégia dos defensores, que acreditavam poder afundar os barcos e afogar os soldados carregados de armas, de elmos e de armaduras pesadas antes de saírem da água. Desbaratados, os muçulmanos tratam de fugir para o interior da cidade pela porta de Almina. Em cima das muralhas, os soldados do alcaide Salah ben Salah arremessam lanças e pedras. D. Duarte vê na sua fuga uma oportunidade de entrar no perímetro defensivo e não espera pelo pai nem pelos companheiros de armas que continuavam a desembarcar e lança-se na perseguição dos defensores antes que pudessem fechar a porta. Vasco Martins de Albergaria foi o primeiro a passá-la e gritou: “Já aqui vai o de Albergaria” (seria um dos mortos da expedição).
Enquanto D. João, que ficara ferido numa perna ao subir para uma galé, permanecia longe da batalha, os portugueses consolidavam as posições no interior do perímetro muralhado de Ceuta e dividem-se em três colunas: uma comandada por D. Henrique, outra pelo conde de Barcelos, filho bastardo de D. João I, a terceira de Martim Afonso de Melo. D. Duarte continua na refrega e destaca-se uma vez mais ao tomar sucessivamente os pontos mais altos. D. Pedro e D. Henrique avançam pela cidade, entram no dédalo das ruas comerciais, envolvem-se em permanentes lutas corpo a corpo. Porta a porta, rua a rua, o avanço dos portugueses é imparável. Num desses combates, D. Henrique e um grupo de cinco escudeiros ficam isolados e em perigo durante um par de horas, até que o grosso da coluna os resgata.
Pelo entardecer os mouros abandonam o castelo e a medina. Ceuta mudara de mãos. O saque das casas e comércios, que se iniciara logo às primeiras horas da batalha, generalizou-se. “A outra gente do povo não trazia em aquele dia o cuidado senão de roubar”, escreveu Zurara. As casas são esburacadas à procura de tesouros. A destruição que acompanhou e se seguiu ao saque inundou as ruas de especiarias acumuladas nas lojas, que, “com o fervor do sol, que era grande, davam depois de si mui grande olor”, continua Zurara. Os que ficaram nos barcos lamentavam que “aqueles que vieram em companhia do infante D. Henrique na frota do Porto”, porque “ apanharam o ouro e a prata e toda a outra riqueza e nós chegaremos ao esbulho dos almadraques (colchões) velhos e das outras coisas de semelhante valia”.
Às sete e meia da tarde, a batalha tinha acabado e o pavilhão do rei D. João I flutuava seguro no castelo de Ceuta. Não se conhecem com rigor os custos humanos da conquista. Zurara nota a morte de pelo menos oito nobres – a perda de homens de outras condições sociais não entrou na sua contabilidade. Da mesma forma se desconhece o número exacto dos mouros que pereceram nesse dia de batalha. Zurara fala, de acordo com as suas fontes, em dois mil, cinco mil ou dez mil. Os sobreviventes, assim como o grosso da população, tinham fugido pela porta de Fez para nunca mais voltar.
Quando todo o perímetro da cidade está sob controlo, seguem-se os momentos de celebração e de festa. Frei João de Xira dirige uma missa e um Te Deum, onde glorifica os feitos das armas portuguesas e celebra mais uma vitória de Cristo sobre os infiéis. Os infantes são armados cavaleiros após terem provado o seu valor no campo de batalha, na melhor tradição da mentalidade da nobreza medieval. Seguem-se também momentos de incerteza e de ansiedade. O que fazer agora? Ficar ou partir? Transformar Ceuta numa operação de pilhagem ou firmar aí a soberania nacional?
Como em tantas outras vezes, o rei convoca o seu conselho para decidir. As opiniões estiveram longe de ser consensuais. Muitos lembram as dificuldades de abastecer a cidade e recordam que os mouros haveriam de aumentar a pressão e acentuar os ataques. Se a defesa de Ceuta mostrou todas as fragilidades com a investida portuguesa, o que fazer perante um assalto em força dos muçulmanos? Apesar de todas as hesitações, o rei decide ficar. Para ele, esta parecia ser a primeira página de um novo livro. Ele próprio promete regressar lá para Março.
Tomada a decisão, era a hora de dizer quem ficaria a defender Ceuta e quem seria o responsável pelo seu comando. Seguindo a ordem lógica da hierarquia militar e nobiliárquica, D. João I tenta o condestável Nuno Álvares Pereira que, velho e cansado, declina o convite. O horizonte de vida (faleceria em 1431) que lhe restava estava destinado a ser passado no Mosteiro de Santa Maria do Carmo, em Lisboa. O marechal Gonçalo Vasques Coutinho invoca igualmente a idade para recusar as honras de liderar a defesa de Ceuta. Martim Afonso de Melo cede aos conselhos de dois homens (João Gomes Orvalho e Álvaro Vasques Tisnado) e recusa igualmente a oferta do rei. Como castigo, D. João I decidiu que estes dois ficariam em Ceuta – afrontar a vontade de um nobre de alta estirpe seria muito mais complicado.
É neste impasse que D. Pedro de Menezes oferece os seus préstimos. Era de uma família que se colocara ao lado dos espanhóis nas lutas contra D. João e precisava de reabilitação. Ficaria a governar Ceuta durante 22 anos. Com tanta distinção que acabaria de receber o título de conde de Vila Real. D. Pedro de Menezes morreu em 1437 com a aura de personalidade lendária – para a qual contribuiu Zurara com a Crónica do conde D. Pedro de Menezes. Com o governador ficariam em Ceuta 2500 ou 3500 soldados.
Estava na hora de regressar a Portugal. No dia 2 de Setembro, uma segunda-feira, a armada lança-se na viagem de regresso. Portugal, um pequeno reino na periferia da Europa, tinha formado uma cabeça de ponte no coração do mundo muçulmano e o feito haveria de se irradiar pela Europa. D. João passa a ostentar o título de senhor de Ceuta e quer que a cristandade o saiba. Para esse efeito, envia uma embaixada ao Concílio de Constança para divulgar a boa nova. Os seus homens seriam agraciados com generosas tenças, títulos e territórios. Os infantes D. Henrique e D. Pedro recebem os primeiros ducados do país – de Viseu e de Coimbra, respectivamente. D. Afonso, conde de Barcelos, amplia as suas posses para anos mais tarde criar o poderoso ducado de Bragança, que estaria na génese da dinastia que mandou em Portugal entre 1640 e 1910.
Mas se a conquista engrandeceu D. João e a “Ínclita Geração”, tornar-se-ia em breve um desastre económico. As rotas comerciais que terminavam em Ceuta, do ouro, da seda e dos cereais, foram desviadas e a praça tornou-se um forte militar isolado em África que era necessário sustentar com recursos da metrópole. Na carta que enviou de Bruges a D. Duarte, em 1426, D. Pedro apontava Ceuta como “um bom sumidouro de gente de vossa terra e de armas e de dinheiro”.
Nos anos que se seguiram à conquista, a destreza militar de D. Pedro de Menezes e a longa experiência de exércitos de guarnição acumulada pelos portugueses na defesa quer contra os mouros quer contra os espanhóis foram essenciais para travar as investidas e os cercos dos muçulmanos em 1416 e 1418. No reinado de D. Duarte tenta-se alargar a base de implantação em África com a conquista de Tânger (1437), mas uma desastrada operação militar conduzida por D. Henrique resulta numa grave derrota sublinhada pelo cativeiro do infante D. Fernando, que morrerá em Fez. No círculo do rei ou nas Cortes nunca se chegou a acordo sobre se a sua libertação valia a entrega de Ceuta, como era exigido pelos muçulmanos. No imaginário da África portuguesa, D. Fernando será um mártir.
Ceuta permanecerá isolada até à conquista de Alcácer Ceguer (1458). Seguem-se Arzila e Tânger (1471). Em 1502 os portugueses instalam-se em Mazagão. Mas, por esta altura, Ceuta era já uma peça indiscutivelmente menor de um império que se foi construindo ao longo dos anos, espalhado por três continentes. Marrocos perde prioridade para as riquezas da Índia e, logo depois, para o Brasil. Alcácer-Ceguer e Arzila são abandonadas (1549/1550). D. Sebastião ainda tenta recuperar a aura das conquistas em África de D. João I, D. Duarte e essencialmente de D. Afonso V. Mas o seu sonho esboroa-se em 1578 em Alcácer-Quibir.
Depois de 1640, a sorte das possessões portuguesas em África divide-se. Mazagão aceitou permanecer sob a soberania da casa de Bragança, até que é mandada evacuar por D. José, em 1769. Tânger hesitou mas seguiu o mesmo caminho – em 1661 foi entregue aos ingleses como dote do casamento de Catarina de Bragança com Carlos II. Ceuta fez uma opção diferente. Em Fevereiro de 1641 o governador D. Francisco de Almeida garante obediência a Filipe IV. Permanecerá espanhola até hoje, embora ainda conserve na sua bandeira as armas portuguesas desse tempo.
Jorge Colaço
A batalha em Ceuta nos azulejos de Jorge Colaço instalados na Estação de São Bento (Porto).

20/08/2015

Um dedo mindinho de uma nova espécie no processo de hominização?

Com 3,6 centímetros de comprimento e 1,8 milhões de anos, uma falange encontrada no desfiladeiro de Olduvai, na Tanzânia, é o mais antigo fóssil conhecido do que será uma mão humana já moderna. Esta descoberta de uma equipa de investigadores espanhóis e norte-americanos vem colocar a hipótese da existência de uma nova espécie do género Homo, com a mão já semelhante à do homem moderno (o Homo sapiens, a nossa própria espécie), até agora desconhecida.
“A falange tem um aspecto muito actual e, estatisticamente, não se pode diferenciar de um elemento análogo ao de qualquer pessoa viva hoje em dia”, diz, à agência espanhola Sinc, Sergio Almécija, paleontólogo da Universidade George Washington (EUA) e um dos autores do estudo publicado na última edição da revista Nature Communications. O estudo liderado por David Uribelarrea, da Universidade Complutense de Madrid, questiona as etapas iniciais da evolução humana, pressupondo que espécies do género Homo com características modernas conviviam com outras menos evoluídas. Neste caso, o dono da falange moderna partilhou o seu tempo de vida com o Paranthropus boisei e o Homo habilis.
O desfiladeiro de Olduvai, o local da descoberta, é um dos mais importantes sítios paleoantropológicos. Em 1959, foi lá identificado, pela célebre família Leakey, o primeiro fóssil na África Oriental de um australopiteco (com quase 1,8 milhões de anos, o fóssil pertencia a um Australopithecus boisei). Também neste local, nos anos 60, a família Leakey encontrou um fragmento de crânio de outro humano com 1,6 milhões de anos: o fóssil representava o primeiro membro do género Homo a ser descoberto, e foi designada a espécie por Homo habilis, para evidenciar o facto de este humano fabricar instrumentos.
Ao longo dos milhares de anos de evolução, de quadrúpedes a bípedes e das árvores à vida em terra, a mão dos hominídeos foi-se alterando para se adaptar a novas condições. Hoje, a mão humana é uma das características anatómicas mais importantes e distintivas da nossa espécie. “A nossa mão evoluiu para nos permitir uma enorme variedade de gestos e manipulações, como não existe em qualquer outro primata”, diz à agência de notícias AFP Manuel Domíngues-Rodrigo, da Universidade Complutense de Madrid e também autor do estudo. “Esta capacidade de manipular objectos com precisão interagiu com o nosso cérebro e permitiu o desenvolvimento da inteligência, sobretudo graças à invenção e ao uso de ferramentas.”
O osso encontrado é a falange proximal do quinto dedo – ou seja, a parte do dedo mindinho mais próxima da palma da mão. E o que tem de diferente esta falange com 1,8 milhões de anos? Não apresenta a curvatura típica dos ossos das mãos de outras espécies do género humano, uma característica partilhada com gorilas e chimpanzés, e que lhes permitia subir às árvores com mais facilidade. Esta falange assemelha-se antes à de uma mão moderna e evidencia a adaptação à vida terrestre. “A mão dos primatas reflecte adaptações tanto para manipulação como para locomoção, portanto um osso deste período [o início do Pleistoceno] é muito importante para se entender a transição para o modo de vida humano”, diz Sergio Almécija. “O grau de curvatura da falange encontrada é muito inferior, pelo que a espécie à qual pertenceu já tinha feito a transição de meio arbóreo para um modo de vida puramente terrestre.”
Pensa-se que a transição para o bipedismo terá acontecido há seis milhões de anos, e que até há cerca de dois milhões de anos todas as espécies do género Homo (que surgiu há 2,8 milhões de anos) tinham os ossos das mãos curvos. Ou pelo menos, assim indicavam os dados até agora existentes. Mas a nova falange veio contar que, afinal, alguns hominídeos desceram das árvores mais cedo do que se pensava.
“Uma mão antiga igual à mão humana moderna dir-nos-ia quando os humanos se tornaram totalmente terrestres e quando e com que eficiência os seus antepassados usaram ferramentas”, explica ao site Live Science Manuel Domínguez-Rodrigo.
“Certamente, [a espécie de hominídeo à qual pertence a falange] usava as mãos para fazer as mesmas tarefas que actualmente executam grupos de humanos que vivem em ecossistemas parecidos”, sublinha ainda Sergio Almécija.
O osso agora descoberto pertenceu à mão esquerda de um adulto de estatura semelhante à do Homo erectus. Com 3,6 centímetros de comprimento, a falange tem “o mesmo tamanho de um osso equivalente da nossa mão”, diz Manuel Domínguez-Rodrigo.
O dono da falange mediria cerca de 1,75 metros, segundo estimam os investigadores, uma altura bastante superior à dos contemporâneos do seu género. No entanto, prever o tamanho da mão desta espécie e mesmo a sua estatura é algo incerto e que gera controvérsia dentro da comunidade científica. Para fazer estes cálculos, os investigadores fizeram uma extrapolação a partir do tamanho das falanges.
“Tendo em conta que as falanges constituíam mais de 50% da mão – 14 ossos de um total de 27 –, há quase dois milhões de anos mais de metade da mão era completamente moderna”, diz Sergio Almécija.
Se esta nova espécie de humanos tiver a estatura prevista pelos investigadores, então vem explicar alguns mistérios arqueológicos antigos. “Os arqueólogos reuniram informação suficiente para concluir que sítios com os primeiros hominídeos, como o Olduvai, eram locais para onde estas espécies transportavam animais caçados com mais de 350 quilogramas”, diz Manuel Domínguez-Rodrigo. “Como especialista nesta área, sempre tive dificuldade em compreender como é que o Homo habilis, que não media muito mais que um metro, poderia caçar animais tão grandes.”
A descoberta abre a possibilidade de ter existido uma espécie realmente capaz de caçar e transportar animais do tamanho que as provas arqueológicas evidenciam. “A nova descoberta mostra agora que uma criatura maior e mais moderna existiu no tempo em que se formaram estes locais arqueológicos”, acrescenta Manuel Domíngues-Rodrigo. “Isto torna esta criatura um melhor candidato para explicar a formação destes locais.”
Manuel Domínguez-Rodrigo afirma ainda, em declarações ao jornal espanhol El Mundo, que a sua equipa encontrou já outros vestígios que parecem sustentar a hipótese da existência de um humano de grande estatura. “Temos outros fósseis que estão a começar a aparecer no mesmo local e que nos contam a mesma história. São fósseis de um pé de grande tamanho, que poderia pertencer ao mesmo indivíduo [da falange do dedo mindinho].”
falange - arqueologia olduvai
A falange proximal transposta para uma mão moderna.
falange - arqueologia olduvai
A falange proximal vista em várias perspectivas.